‘Precisei sair do Brasil para que me ouvissem’, diz Georgia, selecionada para programa em Harvard

"Imagina que legal se você morresse?", a jovem já chegou a escutar isso dos colegas de sala. Hoje, após muita dedicação, ela foi uma das duas brasileiras selecionadas para defender nós, mulheres, nos EUA.

“Seu projeto é incrível para uma estudante do ensino médio sem formação. Seria muito bacana se pudéssemos trabalhar juntos”. Georgia Gabriela escutou essa frase recentemente, na Universidade de Harvard, do médico e pesquisador norte-americano Marc Laufer. Aos 19 anos, a moradora de Feira de Santana, na Bahia, foi uma das duas brasileiras selecionadas para o programa de incentivo a jovens talentos chamado Village To Raise a Child . (Já conferiu a história da Raíssa Müller, a outra brasileira selecionada? Então, clica aqui !)

Georgia desenvolveu, sozinha, um projeto que propõe um exame menos invasivo para o diagnóstico da endometriose, doença que afeta mais de seis milhões de brasileiras, de acordo como uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Endometriose. Ela é caracterizada pela presença de tecido uterino, que se desprende durante a ovulação, em outros órgãos, como nos ovários, nas trompas e até na bexiga. Como os sintomas são muito parecidos com os da TPM (cólica, cansaço, alteração na flora intestinal), o exame de toque é o mais eficiente, mas o diagnóstico tardio pode deixar a mulher infértil antes do tempo.

A inspiração da estudante foi a própria tia, que, por não ter condições de pagar o exame, acabou descobrindo a doença já em estágio avançado e precisando tirar o útero. “Ela vibrou muito com a minha conquista! Também recebi muitas mensagens de mulheres com o diagnóstico que se mostravam esperançosas com a minha pesquisa”, revela Georgia.

Contudo, apesar de o programa em Harvard ser um verdadeiro sonho, ele denuncia algumas falhas no sistema educacional brasileiro. “Precisei sair do Brasil para encontrar pessoas que ouvissem o que eu estava tentando dizer há três anos”, desabafa a jovem, que está agora se preparando para prestar vestibular nos Estados Unidos. “Investimento em pesquisa, no nosso país, ainda é raro e difícil de conseguir”, afirma.

A ideia de Georgia ultrapassa os limites da medicina, pois sua maior vontade é trazer melhorias para a população feminina da sua cidade. “Meu projeto se refere a uma minoria dentro da minoria, que é o grupo de mulheres negras de baixa renda”, explica a jovem de 19 anos, que acredita que toda garota deveria ser feminista. “Feminismo é igualdade, respeito e oportunidades iguais. Ainda há um caminho enorme a ser trilhado”.

No início de seu vídeo de inscrição para o programa, a estudante questiona o modo como muitas brasileiras são tratadas: como objeto. Em meio a tantas discussões sobre o tema, perguntamos o que ela acha sobre as polêmicas envolvendo as cantadas que as meninas recebem nas ruas : “o simples fato de você receber uma cantada em um lugar público já é uma objetificação. Apesar de nem toda cantada ser violenta, é preciso acabar com o assédio e com as cantadas invasivas e humilhantes”, opina.

Oportunidades: essa é a palavra que melhor define a história da Georgia Gabriela da Silva Sampaio, uma jovem que acabou de se formar no Ensino Médio, com bolsa integral, aprendeu inglês sozinha, desenvolveu um projeto por conta própria e soube aproveitar as chances da vida. “Mesmo com todas as possibilidades contrárias, como falta de dinheiro e de incentivo, eu dei a cara à tapa e provei para todo mundo, e para mim mesma, que eu era capaz, apesar de já ter sofrido bullying no colégio e já ter sido excluída socialmente diversas vezes, por ser uma garota pobre e negra “.

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