O Mínimo Para Viver incomoda sem romantizar distúrbio alimentar

Enquanto eu assistia, só conseguia pensar o quão desesperador deve ser você simplesmente não conseguir mais engolir.

Quando eu tinha uns 15 anos, escutei minha amiga dizer a seguinte frase: “Uma maçã por dia e emagreça com alegria“. Na época, pensei que ela não estivesse falando sério. Mas daí ela comentou que havia visto aquela frase no fórum de um grupo sobre anorexia no Orkut. Fiquei preocupada, ainda mais quando ela começou a recusar alimentos que tivessem mais calorias do que estava disposta a ingerir. Minha amiga enfrentou uma fase muito conturbada, mas que passou em alguns meses. Justamente por isso, não sei se posso afirmar que ela teve algum tipo de transtorno alimentar. Acho que ela mais romantizou à “amiga mia”, como costumava a se referir a anorexia, do que a enfrentou para valer. Quando decidi assistir ao filme O Mínimo Para Viver (“To The Bone”), lançamento da Netflix, fiquei insegura justamente com relação a isso. Será que o filme romantizaria um assunto tão sério?

 (Reprodução/Reprodução)

A resposta é não. Apesar de ter visto algumas pessoas comparando o longa protagonizado por Lily Collins a 13 Reasons Why, série que foi acusada por diversas pessoas de ser uma espécie de gatilho para pessoas com depressão e tendências suicidas, o original Netflix não glamouriza a anorexia nervosa. Eu não tenho nenhum tipo de distúrbio alimentar (e nunca tive que conviver com essa realidade, como, por exemplo, a Demi Lovato), então só posso dizer que me senti extremamente incomodada com algumas cenas, que listo logo abaixo. Não sei como pessoas que sofrem com o transtorno mental recebem tais passagens do filme, mas li várias opiniões de especialistas dizendo que O Mínimo Para Viver é um dos trabalhos mais conscientes sobre o assunto. Muito disso se deve ao fato de que a trama não mostra nenhum manual de “como se tornar anorexa”, mas foca nos sintomas e nas consequências da doença. Portanto, fico mais tranquila de dizer que todos deveriam assisti-lo.

1. Comer e cuspir
No filme, Ellen (Lily Collins), que mais tarde se torna Eli, é uma garota de 20 anos que sofre de anorexia nervosa. Sua madrasta acaba encontrando um médico especialista no assunto, William Beckham (Keanu Reeves), que a interna em uma casa com outros jovens que têm algum tipo de transtorno alimentar. Lá, eles não são reeducados a comer, mas, através de uma terapia de grupo, tomam consciência de que estão doentes e precisam de ajuda. É na internação que ela conhece Luke (Alex Sharp). Em seu primeiro encontro com ele, Eli mastiga cada pedacinho da comida e depois cospe tudo no guardanapo. Ela faz isso com muita naturalidade e não engole nadinha em nenhum momento. É assustador, não só porque ela simplesmente não consegue mais engolir, mas porque esse negócio de sentir o gosto do alimento e cuspi-lo logo em seguida é um “conselho” dado por muitas blogueiras fitness para você não passar vontade (mas continuar magra e/ou não engordar).

 (Reprodução/Reprodução)

2. Saciar-se com o cheiro
Essa é outra passagem do filme que dá um certo desconforto, principalmente por já termos ouvido muita gente dizer que, para não engodar, sente apenas o cheiro do alimento. Disso para a romantização dos distúrbios alimentares é um passo! Lembra a história da minha amiga? Ela tratava doenças como anorexia e bulimia como ~modinha~. Não há nada mais errado e romantizado. Trastorno alimentar é uma doença e deve ser tratada como tal. O paciente precisa de acompanhamento médico e, o que é mais importante, precisa ser levado a sério.

3. Ter dificuldade para engravidar
Uma das personagens que está se tratando com Eli se interna pela sexta vez após descobrir que está grávida. O filme, portanto, também fala sobre as dificuldades que uma pessoa com distúrbio alimentar encontra para engravidar, principalmente quando a doença já está em um estágio mais avançado. De acordo com um estudo realizado por pesquisadores britânicos, mulheres com anorexia ou bulimia são duas vezes mais propensas a engravidar com reprodução assistida. Além disso, elas também correm mais riscos de sofrer complicações nas primeiras semanas da gravidez.

 (Reprodução/Reprodução)

4. Ser alimentada como um bebê
De longe, uma das cenas mais chocantes do filme é quando Eli, que está à beira da morte, implora por ajuda. “Mãe, me alimente”, pede, aos prantos. Judy (Lili Taylor) aninha a filha no colo e dá mamadeira para ela. É uma passagem que mostra a fragilidade da personagem, que precisa reaprender a mastigar, engolir e digerir alimentos. Pessoas com anorexia nervosa não deixam de comer apenas porque desejam ficar magras e/ou se enquadrar nos padrões de beleza. Elas desenvolvem uma espécie de rejeição incontrolável à comida. É de cortar o coração.

5. Não perceber que está doente
É só no final do filme que Eli se dá conta do quão debilitada está. Não vou dar spoileres, mas ela passa a trama toda contando calorias, medindo o tamanho do braço, praticando corrida de madrugada e fazendo abdominais a qualquer hora do dia. Aliás, a personagem de Lily Collins tem lesões terríveis na coluna por conta da fragilidade de seus ossos e do atrito pelos movimentos repetitivos. O corpo até tenta lutar contra a doença produzindo lanugo, pelinhos muito finos que são bastante comuns em recém-nascidos e servem para equilibrar a temperatura corporal (em pessoas com anorexia e bulimia, os pelos nascem para substituir a cama de gordura, que não existe mais). Entretanto, muitos pacientes precisam ser entubados, pois não conseguem mais se alimentar via oral.

 (Reprodução/Reprodução)

6. Arrumar desculpas para a doença
Uma das discussões mais interessantes trazidas pela escritora e produtora Marti Noxon é passada para quem está assistindo através do médico William Beckham. Ele questiona o fato de Eli tentar a todo momento arranjar alguma desculpa para culpar seu transtorno. O filme mostra que, sim, há inúmeros gatilhos para que uma pessoa desenvolva um distúrbio alimentar, qualquer que seja ele. Contudo, grande parte do tratamento e da recuperação depende apenas do paciente. “Eu não vou te tratar se você quiser morrer”, afirma o doutor.

7. Mostrar a diversidade
Na clínica, há Eli, que sofre de anorexia nervosa, um dos casos mais comuns, mas há também a personagem que sofre de bulimia e vomita em um saco que fica escondido embaixo da cama, a que sofre de compulsão alimentar, a que está grávida, e a que está entubada e bastante debilitada. O garoto Luke também é um personagem muito interessante, pois é um menino com distúrbio alimentar. De início, soa até meio estranho, pois só estamos acostumadas a ver filmes e histórias de meninas sobre o assunto. Uma bela sacada!

8. Não romantizar o assunto
Eli tem um talento: ela desenha maravilhosamente bem. O problema é que ela começa a postar suas criações, todas fazendo referências à anorexia, no Tumblr. As imagens acabam servindo de gatilho para outras pessoas, que acham legal compartilhar online coisas sobre distúrbios alimentares, sofrimento e magreza. A história não termina bem e acaba se tornando um dos piores pesadelos da jovem.

 

 

 

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  1. Eu simplesmente amei tudo nesse filme: a atuação de Lily Collins, que surpreende mais a cada filme, a história, a abordagem, enfim… Minha passagem preferida é quando a protagonista, Eli, fala para sua “irmã” que não vai morrer, que está tudo sob seu controle… E ela tem um choque de realidade, pois ela diz que ninguém sabe ou acha que vai morrer. Muito amor por esse filme!
    http://thedarkestpink.blogspot.com.br/

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  2. Ana Ciconeti

    Eu realmente me surpreendi em relação ao filme, é sensacional!!! Eu jamais imaginei o que uma pessoa com anorexia passava, após assistir o filme me coloquei no lugar dessas pessoas e realmente não foi fácil, precisamos ajuda-las a passar por isso!!!

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  3. Larissa Zorzenone

    Olá
    Eu achei esse filme um dos mais chocantes e importantes que já vi na vida. As atuações estão incríveis e mostrar que as pessoas simplesmente não conseguem mais ingerir alimento foi muito importante, principalmente pra quebrar aquilo de que “é só comer”. Pra algumas pessoas, comer passa a ser difícil, quiçá impossível.

    Vidas em Preto e Branco

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