O Brasil está preso ao período da escravidão e eis aqui as provas

Atenção: a leitura a seguir pode causar enjoo, náuseas, mal-estar e falta de esperança na humanidade

Na última segunda-feira, 20, Dia da Consciência Negra, Emicida gravou seu DVD em São Paulo e aproveitou a data para falar sobre sua vivência como um homem negro vindo da periferia. “Em novembro, nosso telefone não para de tocar!”, ironizou o cantor, que logo em seguida lembrou que, nos meses seguintes, o telefone não toca mais com tanta vivacidade.

Você pode ler a fala do paulistano e dizer que é vitimismo, como algumas pessoas dizem sobre a luta dos negros por igualdade. “O mundo está igualitário, não tem mais essa, os próprias negros não querem se misturar e têm preconceito com eles mesmo” é o que muitos, brancos em sua maioria, falam. Mas será mesmo? As notícias* a seguir provam que não.

Trabalho escravo que rola atualmente no Triângulo Mineiro. “O que os olhos não veem, o coração não sente”.

Trabalho escravo que rola atualmente no Triângulo Mineiro. “O que os olhos não veem, o coração não sente”. (MPT- PARÁ/Reprodução)

1. “Sua mãe é minha empregada”, dizem alunos de escola de elite para estudantes negros de classe social inferior
No último dia 30 de outubro, o Colégio Marista de Natal, que tem mais alunos brancos que negros, venceu a liga de basquete das escolas locais e comemorou a conquista com gritos de guerra racistas. “Meu pai come sua mãe” e “sua mãe é minha empregada” foram algumas das frases cantadas em alto e bom som contra os jogadores e suas respectivas famílias do colégio derrotado, considerado mais humilde e com alunos de classes sociais inferiores e, em sua maioria, negros. Durante todo o período escravocrata brasileiro, que só foi oficialmente abolido em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, era comum que senhores de engenho abusassem sexualmente das escravas, que eram empregadas dentro de casa e na cama. Logo, comentários do tipo não são só detestáveis como reproduzem algo vergonhoso sobre a história do Brasil.

2. Internautas falam que cabelo de Taís Araújo é “de esfregão” e “para lavar louça”
Em novembro de 2015, Taís Araújo recebeu comentários racistas em suas redes sociais, depois de postar uma foto em que aparece com o cabelo black power. “Me empresa seu cabelo aí para eu lavar a louça”, “cabelo de esfregão”, “quem postou a foto desse gorila no Facebook?” e “já voltou da senzala?” foram alguns dos comentários recebidos pela atriz, que entrou com um processo contra cada uma das pessoas que foram racistas em sua foto. “Eu não vou apagar nenhum desses comentários. Faço questão que todos sintam o mesmo que eu senti: a vergonha de ainda ter gente covarde e pequena neste país, além do sentimento de pena dessa gente tão pobre de espírito”, se pronunciou na época em comunicado oficial.

3. Apresentador de TV chama cantora Ludmilla de macaca
Ludmilla passou por uma situação parecida no início de 2017, quando Marcão Chumbo Grosso, apresentador da Record Brasília, fez comentários racistas sobre a cantora em rede nacional. “É uma coisa que não dá para entender. Era pobre e macaca. Mas pobre, pobre mesmo(…) Eu também era pobre e macaco, falava isso para os meus amigos. Hoje eu digo que sou rico de saúde, graças a Deus”, comentou o homem, que foi processado e tentou se defender usando a justificativa de que também era macaco. É aquela velha e ultrapassada história de: “eu não sou racista, até tenho amigos negros”. Não cola mais.

4. Mãe branca diz que não é racista, mas não quer que o filho apareça com uma negra em casa
A novela O Outro Lado do Paraíso retratou recentemente um episódio que infelizmente é muito corriqueiro nas famílias tradicionais brasileiras. Lorena (Sandra Corveloni) fez o seguinte comentário sobre o filho branco da amiga, Bruno (Caio Paduan), que estava se relacionando com Raquel (Érika januza), a empregada negra: “não sou racista. Só que não gostaria que a Laura casasse com um preto”. Logo em seguida, Lorena é chamada a atenção pelo comentário e se justifica dizendo que não estava sendo racista, apenas realista. Já ouviu algo parecido no dia a dia?

5. Atletas negros sofrem com o racismo enraizado no esporte
Em 2014, o goleiro Aranha, que na época jogava no Santos, foi chamado de macaco por um torcedor do Grêmio, time nobre de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. No mesmo ano, um torcedor do Villareal, time espanhol, atirou uma banana no gramado em direção ao jogador Daniel Alves, brasileiro que, na época, atuava no Barcelona. Em 2015, a jogadora de vôlei Fabiana Claudino ouviu de um torcedor que “a macaca queria banana”. Em 2017, o atleta LeBron James desabafou sobre o racismo que enfrenta no basquete: “acontece todo dia”.

6. Pais brancos têm filha adotiva negra confundida com pedinte
A filha adotiva de Jorge e Tatiane Timi foi confundida com uma pedinte na loja do Starbucks no Jardins, bairro nobre de São Paulo. A garotinha foi “convidada a se retirar” e só então os pais perceberam que o que aconteceu não foi uma confusão, mas um episódio de racismo. Afinal, o casal é branco e a filha adotiva, negra. “No sábado passado, na Starbucks da Alameda Santos, o segurança tentou retirar nossa filha negra de dentro da loja, pois eles não aceitam pedintes. Disse que foi por ordem da gerência. Esta justificou que seguia a orientação da empresa”, desabafaram nas redes.

7. Jornalista da Rede Globo usa a expressão “é coisa de preto” para falar mal de atitudes que o incomodam
Recentemente, vazou um vídeo de William Waack, âncora da Rede Globo, reagindo a um barulho de buzina que invadiu os bastidores de uma transmissão ao vivo. “Tá buzinando por quê, seu merda do c@c&t#? Não vou nem falar, porque eu sei quem é… é preto. É coisa de preto!”, falou o jornalista aos risos. O episódio causou comoção nas redes sociais e, apesar de alguns colegas de profissão defenderem William, como Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo e Luiz Felipe Pondé, a Globo decidiu afastá-lo.

8. Telespectadores dizem que Maju Coutinho só foi contratada por causa das cotas
Em julho de 2015, a repórter Maria Júlia Coutinho foi vítima de comentários racistas na rede social. “Só conseguiu emprego no Jornal Nacional por causa das cotas. Preta imunda”, “não bebo café para não ter intimidade com preto” e “fita isolante é o Band-Aid dos pretos” foram alguns dos comentários recebidos pela jornalista. Colegas de profissão demonstram repúdio ao caso nas redes sociais usando a hashtag #SomosTodosMaju.

 (Reprodução/Reprodução)

9. Homem negro é confundido com ladrão e espancado por seguranças
Faz poucos dias que Diogo dos Reis Cintra, de 24 anos, foi espancado por seguranças do terminal de transporte público Parque Dom Pedro, em São Paulo. O ator tinha acabado de ser assaltado quando gritou por ajuda. As autoridades chegaram e pensaram que ele, na verdade, era o assaltante, e desceram porrada. O jovem negro foi até a delegacia prestar queixa e falar que tinha sido vítima de racismo, e o que escutou da delegada do 1º Distrito Policial – 1ª Seccional Centro foi que tudo tinha sido, na verdade, “impressão pessoal dele”. Afinal, racismo não existe – mas meses antes um estudante negro perdeu o Enem por ser parado por uma blitz policial. Estranho, não?

10. Jovem não consegue emprego por causa do cabelo afro
“Sou branco, totalmente contra o racismo, mas, infelizmente, quando morei em Salvador, sofri racismo inverso duas vezes” e “racismo vale tanto de branco para negro quanto de negro para branco” são dois comentários que foram retirados do Twitter que gostaríamos de deixar aqui para reflexão. Analisando apenas a história do Brasil, responda as seguintes perguntas: quem eram os escravos e quem eram os senhores de engenho? Quem são os protagonistas das novelas e quem são as empregadas, as faveladas e os assaltantes? Quantos brancos perdem oportunidades de emprego por serem brancos e quantos negros são marginalizados e julgados apenas pela cor da pele? E então, será que racismo inverso realmente existe? Lembrando que racismo não é a mesma coisa que preconceito. Preconceito, no geral, é uma opinião negativa pré-concebida sobre algo ou alguém. Racismo é crime e dá cadeia.

*Todas as notícias desta matéria são verídicas e foram filtradas, porque, infelizmente, se fôssemos colocar tudo o que lemos e ouvimos por aí, teríamos uma lista infinita. 

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Victória Cristalino

    Acho incrível a Capricho estar abordando essas questões em suas matérias, que, num país racista como nosso, são super necessárias! Eu lia o site antes e só agora me deparei com este tipo de posição. Bom saber que a revista escolheu não se abster sobre as questões sociais que permeiam nossa sociedade!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Eu fico tão feliz por á Capricho estar tratando esse assunto tao importante pra nosso sociedade, uma revista que na sua maioria fala diretamente com adolescentes , e tratar desse assunto que infelizmente ainda é tão presente na nossa sociedade,que todos quem os leitores possam refletir em cima dessas reportagens e ver que cor não julga caráter, potencial e nem qualidade. É realmente uma questão história que precisamos mudar, mas antes aprender sobre passado do nosso país e assim saber o lugar de fala pra ajudar. Parabéns Capricho

    Curtido por 1 pessoa