Entre massacres e estupros: um resumo do que está acontecendo no Sudão

Algo sobre os conflitos no Sudão já deve ter aparecido na timeline das suas redes sociais. Você sabe o que está acontecendo por lá?

Algumas celebridades se manifestaram nos últimos dias sobre a guerra que está rolando no Sudão, país africano no litoral do Mar Vermelho. Os Jonas Brothers foram alguns dos famosos que se manifestaram sobre o lugar. “Tire um tempo do dia para ler sobre o que está acontecendo agora no Sudão. É uma crise humanitária”, escreveu Nick Jonas. Mas você realmente sabe o que está acontecendo por lá?

Protestos realizados em Cartum, capital do Sudão. Manifestantes foram mortos após ato. Conflitos também estão ocorrendo em Juba, capital do Sudão do Sul.

Protestos realizados em Cartum, capital do Sudão. Manifestantes foram mortos após ato. Conflitos também estão ocorrendo em Juba, capital do Sudão do Sul. (Anadolu Agency/Getty Images)

É possível dizer que o estopim para o caos atual começou no início de 2019, quando manifestantes tomaram as ruas para protestar contra o presidente Omar al-Bashir. Ele estava sendo acusado de crimes ligados à corrupção, como posse ilegal de moeda estrangeira. Além disso, algumas pessoas ainda o acusavam de coibir com o terrorismo. Após 16 semanas de protestos, os militarem derrubaram o governo e prenderam Bashir no dia 11 de abril.

Desde então, o país vive um caos generalizado. A tomada de poder pelos militares transformou a então república em uma ditadura, e até a internet do país chegou a ser cortada pelo governo em formação com o intuito de censurar a comunicação entre as pessoas, numa tentativa de ilhar o Sudão do resto do mundo e fazer com que as pessoas tivessem o acesso mais restrito possível a informações.

Não se engane pensando, contudo, que só agora os militares tomaram o poder. Em 1996, o próprio al-Bashir é um general, só que ele foi eleito pela população e reeleito em 2000. Guerras internas entre exércitos sempre foram uma constante no país que, em 2011, foi dividido, quando a República do Sudão do Sul declarou independência.

Jovem de 18 anos mostra as cicatrizes após agressões sofridas em protesto por militares.

Jovem de 18 anos mostra as cicatrizes após agressões sofridas em protesto por militares. (Picture Alliance/Getty Images)

O governo atual também é de transição, conforme relata a mídia internacional. Os militares ficam no poder até que outra autoridade máxima seja eleita. O abuso desse poder, entretanto, preocupa. Estima-se que, pelo menos, cem pessoas já tenham sido executadas pela junta militar. Estima-se também que mais de 500 mulheres e crianças tenham sido violentadas sexualmente. Com as tentativas do atual governo de abafar o que está acontecendo, esses números podem ser ainda maiores.

 

Apesar de os protestos terem contribuído para a derrubada de Omar al-Bashir, manifestações continuam ocorrendo, agora pedindo que os militares entreguem o poder. O ex-presidente atualmente responde pelos supostos crimes cometidos. O Sudão, que já vivia uma grave crise econômica, está sofrendo com a falta de produtos de primeira necessidade, relacionados a higiene pessoal e saúde. Comida, por exemplo, está em falta.

A ONU já se manifestou pedindo o fim do massacre. Contudo, as coisas até o momento permanecem iguais. Os militares afirmaram que estão cientes de que mortes e abusos vêm sendo cometidos, e que pretendem penalizar os culpados – isso se eles realmente conseguirem identificá-los.

Caminhão de suco chega para matar a sede da população.

Caminhão de suco chega para matar a sede da população. (David Degner/Getty Images)

Um dos países mais politicamente instáveis do mundo, em 2016, as forças armadas do Sudão do Sul foram acusadas de recrutar crianças-soldados. De acordo com a UNICEF, desde que a guerra civil começou, em 2013, aproximadamente 16 mil crianças foram recrutadas por grupos armados e pelo exército nacional.

Apesar de conflitos no Sudão sempre existirem, a separação do Sudão do Sul foi a principal causa para o início da guerra civil atual. Para variar, a separação se deu por motivos religiosos e brigas entre facções. A independência não foi boa para o país, que enfrenta a terceira maior crise de refugiados do mundo, ficando atrás apenas da Síria e do Afeganistão. A ONU estima que mais de 1.5 milhão de pessoas já fugiram do Sudão do Sul em busca de melhores condições de vida. Nem sempre encontram. Apenas 27% da população é alfabetizada e mais de 250 mil crianças sul-sudanesas se encontram desnutridas no momentos em que você lê esta matéria. “Está sendo levado a cabo no país um processo de limpeza étnica em várias regiões por meio do uso da fome, dos estupros coletivos e de incêndios”, disse Yasmin Sooka, diretora executiva da Fundação para os Direitos Humanos na África do Sul, em 2017.

Protestantes sudaneses em frente ao quartel militar.

Protestantes sudaneses em frente ao quartel militar. (David Degner/Getty Images)

Em 1971, aconteceu um genocídio em Bangladesh, no Paquistão, também por uma ofensiva militar e semelhante em vários aspectos ao que está ocorrendo atualmente no Sudão. Na época, pouco se falava sobre a guerra que estava acontecendo na parte ocidental do globo, principalmente no oriente. Artistas também usaram sua fama para chamar a atenção do povo. Foi o caso de George Harrison. O beatle realizou na época um show intitulado Concerto Para Bangladesh, em que convidou astros, como Bob Dylan, para arrecadar dinheiro para ajudar as vítimas do massacre, motivado por questões religiosas, no país do Paquistão Oriental.

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