Como é estagiar no Projeto Tamar e ajudar a salvar tartarugas

Conversamos com duas estudantes que fizeram estágio na organização que já devolveu mais de 35 milhões de tartarugas para o mar

Fundado em 1980, o Projeto Tamar ajuda a proteger as cinco espécies de tartarugas marinhas presentes no Brasil – todas ameaçadas de extinção. Trabalho de campo, educação ambiental para turistas e conscientização das comunidades locais fazem parte das atividades da instituição, que é um dos maiores projetos de proteção ambiental do mundo!

 (Projeto Tamar/Divulgação)

Presente em 26 localidades do Brasil, o Projeto Tamar acolhe vários estudantes ao longo do ano para estágios voluntários. Durante o período da experiência, os alunos podem vivenciar o dia a dia dos profissionais e ver de perto como funcionam as atividades de conservação das tartarugas. Incrível, né? Para saber mais sobre esse trabalho tão legal e importante para o meio ambiente, a CAPRICHO conversou com duas estagiárias do Tamar.

O trabalho de cada uma das unidades nem sempre é igual. Por isso, antes de pensar em se inscrever para um estágio na instituição, a dica é que o estudante pesquise no site oficial do projeto quais as atividades principais de cada local. A paulista Vitória Scrich, de 23 anos, cursa Biologia na Universidade de São Paulo e se candidatou para o estágio no Tamar de Ubatuba, no litoral do estado. Lá, ela trabalhou durante um mês e realizou um sonho que tinha desde o começo da graduação. “Eu sempre ouvi falar muito sobre o Projeto durante a faculdade e sonhava em participar”, disse.

Por frequentar a universidade em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Vitória optou por trancar um semestre do curso para se dedicar somente aos estágios: “Preferi deixar os estágios para o final da graduação e fiz a inscrição para o Tamar em novembro de 2017. Em dezembro, recebi a resposta de que fui aprovada e comecei a me preparar para ir para Ubatuba. O Projeto disponibiliza alojamento para os estagiários e também dá uma lista com itens de uso pessoal e para o trabalho que vamos precisar. Tudo muito organizado”.

Vitória durante trabalho de campo em Ubatuba.

Vitória durante trabalho de campo em Ubatuba. (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Nem sempre é fácil mudar para outra cidade para poder participar de um projeto profissional e é necessário ter uma conversa séria com os pais para explicar como funciona o programa e como será a experiência. “Meus pais sabiam que eu queria muito conhecer essa área de biologia marinha e até, quem sabe, me especializar nela. Conversei com os dois e eles ficaram contentes por mim. Combinamos inclusive deles irem me visitar e eles adoraram me ver trabalhando quando estiveram por lá”, contou a estudante.

A questão financeira também é muito importante, já que o estágio é voluntário e oferece apenas a acomodação para os alunos. Para Mariana Melo Moreira Lima, de 21 anos, que estagiou em duas unidades diferentes do Tamar, foi preciso conversar com a família para entender se eles teriam condições de ajudá-la por um período maior: “Meus pais me apoiaram bastante e a questão da distância não foi um empecilho, porque nós já moramos longe há alguns anos. Conversei com eles sobre dinheiro e eles disseram que tinham condições de me bancar durante esse período”. Para ajudar a economizar durante o estágio, Vitória contou que ela e os outros estagiários faziam as refeições no alojamento e dividiam as compras de mercado: “Éramos em 7 estagiários e morávamos todos juntos. Nós optamos por cozinhar o almoço e o jantar, assim a gente economizava e ainda ficávamos mais próximos e mais amigos”.

Tartaruga na praia de Ubatuba.

Tartaruga na praia de Ubatuba. (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Mariana cursa Ciências Ambientais na Universidade Federal do Ceará e fez dois estágios no Projeto Tamar, um na unidade da Praia do Forte, na Bahia, e outro em Sergipe. Ao todo, a estudante ficou quatro meses trabalhando com a conservação das tartarugas e aprendendo diferentes atividades: “O Tamar da Praia do Forte possui um centro de visitantes bastante popular e eu trabalhava lá durante alguns dias. Eu e outros estagiários ajudávamos no cuidado com os animais, no manejo do ‘Submarino Amarelo’ [que é uma das atrações] e orientávamos os turistas. Quando eu estava na Bahia, era o início do período reprodutivo das tartarugas, então nós não fazíamos tantas atividades de campo, mas, conforme a temporada de desova foi avançando, a gente começou a participar também dessas ações”.

A unidade do Tamar na Praia do Forte fica na rota de desova das tartarugas e os voluntários e funcionários do Projeto auxiliam na proteção dos ninhos para que os filhotes nasçam em segurança. “Nós participávamos das ‘tartarugadas’, que é quando a equipe ia para as praias durante a noite para acompanhar as tartarugas desovando. Depois, a gente voltava entre 5 ou 6 da manhã para marcar os ninhos, fazer o monitoramento dos ovos e ir acompanhando até o nascimento das tartaruguinhas”, disse Mariana.

Mariana realizando a biometria de uma tartaruga durante ‘tartarugada’ em Ponta dos Mangues, Sergipe.

Mariana realizando a biometria de uma tartaruga durante ‘tartarugada’ em Ponta dos Mangues, Sergipe. (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Lá em Ubatuba, Vitória também participava do monitoramento do centro de visitantes da unidade e explicava para os turistas sobre como funciona o Tamar e a conservação dos animais marinhos: “Minha principal atividade era atender os visitantes e tirar as dúvidas. Uma vez na semana eu ia para a área de reabilitação, que é onde as tartarugas que chegam de resgates são tratadas. Lá, tínhamos contato direto com os animais e aprendíamos a dar banho, tirar sangue e ver o que eles precisavam. O trabalho de campo ocorria quando os pescadores acionavam o Tamar para avisar que uma tartaruga tinha ficado presa nas redes de pesca. Então, nós íamos até o local e fazíamos o resgate”.

Durante o seu segundo estágio no Tamar, Mariana tinha como responsabilidade além das atividades técnicas, um trabalho de conscientização com a comunidade local: “Em Sergipe, as bases do Tamar ficam em comunidades menores e o Projeto tem um trabalho muito legal com a população de ensinar sobre a importância da conservação das tartarugas, o que os pescadores devem fazer caso algum animal caia nas redes de pesca e de educação ambiental como um todo”.

Mariana alimentando tartarugas no Centro de Visitantes da Praia do Forte, Bahia.

Mariana alimentando tartarugas no Centro de Visitantes da Praia do Forte, Bahia. (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Quando os estudantes chegam ao Tamar para iniciar o período de trabalho, eles passam por três dias de treinamento intensivo para entender tudo sobre o projeto, as atividades que eles farão por lá e saber mais sobre as tartarugas. A vivência prática da profissão e a oportunidade de conviver com pessoas diferentes traz muitos aprendizados importantes para o currículo e para o amadurecimento pessoal.

“Meu conselho é para que se as pessoas tiverem a oportunidade de participar de um estágio voluntário, que não deixem de fazer. No início, eu fiquei com medo de ir e passar quatro meses fora, mas foi uma experiência muito enriquecedora. Eu aprendi a lidar melhor com as pessoas, sai da minha zona de conforto e vivi várias coisas diferentes. Por isso, não tenham medo de arriscar”, finalizou Mariana.

Para Vitória, além de todo o benefício profissional e pessoal, o período no Tamar trouxe também esperança: “Muitas pessoas se emocionavam durante a nossa explicação sobre as tartarugas. É gratificante ver que elas se importam, porque isso é essencial para que a conservação dos animais seja efetiva. As tartarugas que cuidamos no Tamar estão ameaçadas de extinção e se hoje elas estão se recuperando, grande parte é pelo trabalho de conscientização“.

Veja mais informações sobre o Projeto Tamar e como se inscrever para o estágio voluntário no site oficial tamar.org.br.

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