Você deveria dar uma chance para o que ‘Vale Tudo’ tem a dizer em 2025

Com atualizações pertinentes e um elenco diverso, a adaptação pode ser tão relevante quanto a novela original.

Por Romulo Santana 4 abr 2025, 21h00
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 remake da novela Vale Tudo, adaptado por Manuela Dias, tem o desafio de conversar com um Brasil que talvez não tenha mudado tanto assim de 1988 – ano em que a trama foi ao ar – para cá. Naquele ano, tivemos a Constituição Federal aprovada e muita coisa mudou de lá pra cá, sim, é verdade. Mas a produção cultural pode colocar o país na frente do espelho de novo.

E é importante lembrar, leitor e leitora da CAPRICHO: há 37 anos, a internet e redes sociais eram somente um sonho. E de que forma as pessoas se informavam ou debatiam questões relevantes para a vida em sociedade? Assistindo aos telejornais e, principalmente, às novelas. 

Assim, elas se tornaram uma importante ferramenta cultural para retratar e lançar luz sobre problemas e soluções envolvendo corrupção, desigualdade social e de gênero, homofobia e muito mais antes mesmo dos smartphones.

Lá na década de 80, estávamos vivendo o fim da Ditadura Militar. Autores como Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères entravam nos lares brasileiros com histórias como a de Vale Tudo.

Ao ligar a televisão, você poderia encontrar protagonistas como Raquel (Regina Duarte e agora Taís Araújo) e Maria de Fátima (Glória Pires/Bella Campos), as falhas de caráter de Odete (Beatriz Segall/Débora Bloch) e Marco Aurélio (Reginaldo Faria/Alexandre Nero), costurados por grandes embates e tramas cheias de reviravoltas, características de um grande novelão. 

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Conforme os anos foram se passando e as reprises foram sendo exibidas, Vale Tudo começou a ser considerada a maior obra do gênero e ficou marcada na memória do público brasileiro por se manter com os pés na realidade e gerar identificação daqueles que assistiam aos capítulos diariamente. 

Representatividade do Brasil na telinha

Há pouco mais de um mês terminei de assistir à versão original e fiquei muito impressionado com a atualidade do texto. Especialmente em tramas como a da protagonista Raquel.

A personagem começa a empreender vendendo seus “sanduíches bem transados” na praia e, depois, refeições em um botequim no Rio de Janeiro. Ela faz de tudo para tentar sobreviver. E essa é a história de cerca de 39 milhões de brasileiros que trabalham como informais ainda hoje. Raquel pode ser aquela sua vizinha que vende bolos de pote, ou quem sabe a sua mãe que vende marmitex, como a minha.

Durante a exibição do primeiro capítulo, minha mãe disse algo como: “Nossa, como os personagens estão diferentes”. Eles estão mesmo e isso pode ser impactante para pessoas que, como ela, assistiram à versão original que só tinha dois personagens interpretados por atores negros.

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Diferente de 1988, em que as personagens retintas são retratadas a partir de estereótipos – como o favelado ladrão e a empregada que vive em um quartinho no apartamento dos patrões —, em 2025, o elenco preto ganha destaque em vários núcleos da novela, desde as protagonistas até os núcleos secundários.

Para mim, é evidente que a produção se preocupa em refletir a realidade do país e quer o público se identifique com ela.

Vilã é vilã, em 1988 ou 2025

Se tem uma coisa que o texto original faz muito bem é a construção de personagens. As tramas estão recheadas de personagens que transitam entre o “bem” e o “mal”. Eles são complexos e controversos, como qualquer outra pessoa de verdade e é isso que os deixa cativantes.

Não podemos deixar de falar dela: Odete Roitman. Em 1988, ela foi imortalizada pela atriz Beatriz Segall. Agora, em 2025, ela será interpretada pela atriz Débora Bloch. Mas vão demorar alguns capítulos para ela aparecer: sua chegada está prevista para o dia 26 de abril, no aniversário de 60 anos da TV Globo.

Da boca de Roitman, saem os principais pensamentos das elites brasileiras da época. “Quanto menos eu ouvir português, melhor”, “O Brasil é uma mistura de raças que deu errado”, “A solução para a violência é a pena de morte” ou “Falar de Nordeste antes da hora do jantar me faz perder o apetite”.

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Nos últimos meses, os fãs da novela tem estado apreensivos com medo do remake limpar a barra e diminuir a quantidade de absurdos falados por ela. E isso pode acontecer, sim. Deveria? Acredito que não.

Retirar falas como essas subestimam a inteligência do público que, a partir dessas ideias verbalizadas por ela, pode discutir e desconstruir os mesmos preconceitos que continuam ecoando entre as pessoas independente de raça, classe ou posição de poder.

Odete é uma vilã e ninguém precisa dizer que suas atitudes ou suas fala são erradas, ela está a serviço da arte, com o papel de educar mostrando como não devemos agir em sociedade.

A novela volta em um bom momento?

Muito se discutiu nos últimos tempos se a Globo estaria exagerando no número de remakes produzidos. Nos últimos meses, novelas como Pantanal (2022), Elas por Elas (2023) e Renascer (2024) foram algumas das apostas da emissora antes da chegada de Vale Tudo.

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Diferente do que dizem por aí, a volta dessas tramas não acontece só porque a nostalgia está em alta, não. Isso sempre fez parte da cultura brasileira e sou muito a favor dessas releituras chegarem à televisão ou até mesmo no streaming.

Sobre isso, em entrevista à CH, Bella Campos disse: “Vale Tudo é uma obra tão icônica, tão bem escrita, com personagens tão profundos que ela merece ser recontada inúmeras vezes. Futuramente, ela pode ser recontada novamente e cada vez que isso acontecer ela vai ter novas camadas que vão enriquecer conforme o tempo e os intérpretes que estiverem na obra.”

Foi por meio dos remakes que pude conhecer Ruth e Raquel de Mulheres de Areia (1993), ou quem sabe a Nice de Anjo Mau (1997), todas interpretadas por Glória Pires. Veja como é bonito que uma nova geração tenha a oportunidade de conhecer a Maria de Fátima, brilhantemente criada por Glória Pires, sobre um novo ponto de vista pelo trabalho da Bella.

São novas camadas: uma personagem lá em 1988 que reproduzia o racismo, agora é interpretada por uma garota preta. Esse trabalho pode acrescentar novos recortes e pontos de vistas para histórias que já conhecemos e complexificar eles.

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Essa é a mágica de recontar as histórias. Em sua nova versão, Vale Tudo, que nunca subestimou a inteligência de seu público, pode re-explorar as histórias censuradas pelos órgãos da época da Ditadura Militar, fomentar debates importantes como a moral e a ética de um país e de um mundo que flertam constantemente com o autoritarismo.

A novela retorna para a televisão no momento certo e não tenho dúvidas de que ela vai cutucar as mesmas feridas de 1988.

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