Leia a entrevista completa abaixo:
CAPRICHO: Sua mãe foi uma das mais importantes editoras-chefe da CAPRICHO. Ela mudou o rumo da revista com pautas vanguardistas para a juventude. Qual é a sua relação com a publicação? E como é fazer parte disso hoje mais diretamente, ilustrando uma capa?
Antonia Figueiredo: Minha relação com a CAPRICHO é extremamente íntima, quase familiar, faz parte do meu sangue de maneiras intrínsecas, mesmo. Quando nasci, minha mãe já tinha saído da publicação, mas minha juventude foi toda na base do que ela ensinou para outras pessoas. Ela colocava tudo em prática de uma maneira muito coerente na minha criação. A revista sempre foi parte do diálogo em casa. Quando eu estava na adolescência a CAPRICHO estava super em alta, nos anos 2000, então, peguei duas partes desse movimento. Qualquer dúvida você vai e corre para a CAPRICHO, sabe? [risos]. Ter recebido esse convite foi muito importante e muito intenso. O timing é muito surpreendente porque no ano em que ela morreu, no ano seguinte, em janeiro, vocês vieram falar comigo. Pareceu um presente dela para seguir fazendo isso mesmo sem ela presente. Tem sido um projeto muito catártico e emocionante, poder fazer essa capa e receber esse convite. Não é só um projeto criativo pra mim ou um exercício de me expressar como artista, é uma parte da minha história desde antes do meu nascimento.
Olhando para algumas das suas obras, percebemos muitas influências gráficas e especialmente tipográficas. O contato com o mundo editorial influenciou e inspirou seu trabalho de alguma forma?
Então, um milhão por cento. Cresci dentro de uma editora de revistas e a questão gráfica é um suporte criativo que você tem que saber como lidar. São muitas as ferramentas. Layout é uma coisa importantíssima para mim; equilíbrio do visual com a palavra tem um peso no meu trabalho também.
Minha mãe é gigante, era escritora e poeta… quando ela morreu, as pessoas achavam que eu estava em choque. Mas ela é uma personalidade tão grande, ensinou pra tanta gente, que não senti que o chão foi tirado de mim. Meu luto se tornou um sentimento de gratidão tão grande, porque comecei a reconhecê-la nas coisas que eu fazia de uma forma muito óbvia. Além disso, eu comecei a trabalhar como artista com o design gráfico; mas a mudança mesmo aconteceu quando passei do papel para a tela que isso virou completamente outra coisa.
Em entrevistas anteriores, você comentou da mudança de trajetória, especialmente de técnicas e de suportes, como a ilustração mais digital dando vez à pintura. Hoje, qual técnica faz mais sentido para você? Foi importante sair das telas, entrar em contato com uma técnica mais rústica, original?
Continua após a publicidade
Meu primeiro trabalho no meio de arte foi com a agente da minha mãe, que também era artista. Ela tinha um trabalho com tecido e bordado que eu ajudava a gerir. Tinha essa visão mais de negócios enquanto ela criava. Montava as exibições, site, clientes, catálogo, financeiro — todas as coisas que não são comunicadas quando você decide ser artista.
Mas quando escolhi dar um passo além e fazer meu próprio trabalho, o trabalho digital… parecia um espaço muito mais seguro. Existia uma certa distância tecnológica e, também, lidando com clientes com briefings próprios. No fundo, eu me protegia de me expor 100% como artista. Me colocava ali, mas olhava minha mãe e falava: ‘Minha mãe é artista, eu não sou artista’. Fiz isso por 3 anos até eu tomar um pouco de coragem. Fui ficando confortável com a minha própria linguagem e, então, senti que tinha algo faltando. Foi quando passei para a pintura.
O processo foi de muita aceitação e coragem, porque quando você começa a trabalhar com a sua mão, manuseando e criando coisas que existem no mundo real, é completamente diferente. Foi só pintando que consegui me reconhecer como artista, reconhecer partes do meu processo de maneira muito mais presente e sem medo, sem insegurança. Eu preciso dessa coisa tátil com o trabalho, o que também significa trazer um peso muito mais histórico e mais real. Se errei, eu tenho que lidar com o que fiz, se eu não gostei, tenho que tomar uma decisão prática, ou mudo, ou deixo. Mas hoje eu ainda uso bastante dos dois. Meu ritmo é bastante frenético e o digital é uma ferramenta importante que me ajuda a tirar organizar as ideias na minha cabeça.
Qual técnica você usa hoje em dia?
Continua após a publicidade
Isso é muito engraçado. Como eu não tenho um background tradicional, quando comecei a pintar foi um processo de autodescoberta. Eu não sabia se a tinta que eu estava usando era a tinta certa para fazer o que eu gostaria de fazer, por exemplo. Isso fez com que o processo ficasse muito livre. Hoje uso o que está perto de mim. Já usei colagem, óleo, maquiagem, café, vinho, terra, pigmento puro, nanquim, cola… Eu ‘taco’ na tela e vejo o que acontece. A maioria das bases que uso é acrílico mesmo, porque seca rápido, então consigo trabalhar em várias ao mesmo tempo.
Claro que é ótimo saber fazer e aprender técnicas novas. Mas olhando o meu processo, acho que isso pode também te deixar um pouco mais preso, do tipo, ‘se você for fazer algo ter que fazer de um jeito certo’. E quando a gente fica preso nessa ideia de ‘como fazer, fazer direito’… meu trabalho mesmo é super ilustrativo, não sei fazer uma linha reta nem com régua [risos]. Só faz. Com arte não tem certo nem errado, tem só feito. Então, o mais importante para mim é fazer. Quando termino uma tela, já não é mais problema meu se gosto dela ou não, ela está feita. Já apresentei muitos trabalhos que achei que eram o ‘cocô do cavalo do bandido’ e as pessoas acham maravilhosas. A gente nunca sabe. O processo, para mim, é mais interessante do que o resultado.
As temáticas caseiras e intimistas são recorrentes no seu trabalho. Pintar objetos em casa e próximos a você. Você acredita que ser brasileira e não morar no Brasil — que cultiva um sentimento de saudade e estranheza — também influencia seu trabalho?
Cresci mudando muito de casa. Nunca morei mais de dois anos em uma casa só. A primeira vez que me mudei de país foi quando vim para a Europa, há 7 anos. Uma coisa que a minha mãe me ensinou foi que ‘casa’ você faz em qualquer lugar que você esteja. E eu ainda trabalho muito com essa ideia dos objetos caseiros, vasos especificamente. Essa analogia eu nunca havia feito, mas assino embaixo: é um jeito de eu trazer familiaridade, traduzir a minha bagagem de uma forma bem poética. Estava conversando sobre os vasos esses dias. É um recipiente e a analogia que faço é com o ‘ser’, a personificação do objeto vaso, e traduzo isso com diferentes coisas que quero colocar dentro dele. Flores, mortas ou vivas, cavalos, panteras, rostos… Consigo fazer uma analogia simbólica sem ter que fazer o óbvio, desenhando literalmente as cenas. Amo uma metáfora, trabalho na base delas [risos].
Continua após a publicidade
Percebi um contraste muito interessante na sua obra, dos padrões mais rígidos e repetitivos sobrepostos, até uma liberdade e selvageria animalesca. O vermelho com o azul, ambos são cores fortes e muito presentes também. Como você enxerga essa dualidade de elementos?
Para mim, nós, como seres humanos, só conseguimos experienciar a vida com o contraste, precisamos ter o outro lado da moeda para saber das coisas. Só entendemos o bonito com o feio, o frio com o calor, o sim com o não. Acho que esse contraste é sinônimo de vida. É inevitável trazer isso para o meu trabalho, em todas as peças que faço, seja com simbólico dos elementos ou com um contraste de cor, por exemplo.
O que você costuma fazer quando está sem inspiração? Tem alguns exercícios para isso?
A inspiração por si só é um exercício. Não acredito nisso da inspiração das musas que suspiram no seu ouvido e que você vai e faz uma obra. Principalmente por ter essa experiência com os negócios de arte: vejo isso como trabalho, mesmo. Se estou com inspiração ou não, eu tenho que pintar. É engraçado porque vira um músculo mesmo, de perseverança. Mas outra coisa que faço, que talvez ajude, é: eu trabalho em várias telas ao mesmo tempo, pelo menos duas. Não acontece muito, mas quando estou frustrada com a tela ou preciso esperar a tela secar, já consigo criar uma distância para tomar um fôlego e voltar para o que eu estava fazendo antes. É como um ciclo, mesmo, e me ajuda a manter o ritmo.
Continua após a publicidade
Minha mãe falava que inspiração é um estilo de vida, sabe? Não é agora que estou no estúdio que vou colocar meu uniforme de artista e vou trabalhar. É a conversa que tenho com meus amigos, o livro que eu estou lendo, o vinho que vou beber, eu na balada até às seis da manhã, a briga que vou ter. Tudo isso é alimento para a criatividade, você só tem que estar ligado, é um processo de fazer alquimia com isso de forma constante.
CHEGOU ATÉ AQUI?
Leia a entrevista completa e o restante da edição digital de CAPRICHO no GoRead, a maior banca de revistas digital do Brasil.