celular apita. Nova mensagem. “Hie, me ajuda. Olha o jeito que estão me tratando. Não dá, eu não aguento mais, de verdade”. Quinze minutos depois, às 19h36, aparece uma nova notificação, de outro número: “Eu vou me matar. Isso tudo vai chegar na minha mãe”.
Esta reportagem foi vencedora do 43º Prêmio Abril de Jornalismo na categoria ‘Comportamento’ em 2026.
As mensagens foram enviadas por uma garota de 14 anos e a outra, de 13. As duas pedem socorro à Hierath*, pelo WhatsApp. Do outro lado da tela, a jovem de 19 anos vai entendê-las e saber o que fazer com as ameaças e mensagens de sextorsão que estão sofrendo no Telegram. Afinal, ela também já foi vítima de “paneleiros” e sabe a forma perversa com que os grupos extremistas online, também chamados de panelas, operam nas redes sociais.
Tudo começou em novembro de 2024. Hie fazia parte de um chat no Telegram com mais de duas mil pessoas. “Nós conversávamos sobre a vida, estudo, relacionamentos, amizade, não tinha nada a ver com nenhum grupo extremista”, conta a jovem durante conversa por telefone com a reportagem da CAPRICHO.
Estava tudo bem até ela perceber que aquele não era o ambiente seguro que imaginava. Com nicknames, trajados de amigos, criminosos ligados a grupos extremistas invadiram o chat para divulgar seus feitos maldosos e expor vítimas ‒ em sua maioria garotas menores de idade. O que era absurdo para Hie passou batido para a maioria do grupo. “Eu fiquei pasma porque ninguém fazia nada [em relação aos conteúdos violentos e sexuais], todo mundo via e achava normal.”
A invasão foi praticada por um grupo de 15 garotos — a reportagem não teve acesso à identidade deles, mas soube que a faixa etária, segundo as autoridades, era entre 13 e 19 anos. Eles são os chamados “paneleiros”, que criam uma espécie de “tribunal” nestes espaços online para julgar garotas e ameaçá-las com dados pessoais e nudes, garantindo que elas façam tudo que eles mandam.
Uma das vítimas foi uma menina de 11 anos, como relatou Hie. Os criminosos pegaram o contato dela na plataforma de jogos do Roblox, ganharam a confiança, fizeram a jovem instalar o Telegram, tiveram acesso ao número do celular que estava cadastrado com os dados da mãe da menina e, a partir daí, começaram as ameaças.
Membros do grupo virtual citado pela reportagem foram presos pela Polícia Civil de São Paulo na Operação Nix, realizada em agosto de 2025. Eles foram detidos por prática de crimes contra menores de idade, como pedofilia e estupros virtuais.
O roteiro dos predadores
Michele Prado, pesquisadora sobre radicalização, extremismo e terrorismo online, explica que esse é caminho mais comum do aliciamento digital de jovens. Diferentes do que muitos acreditam, os crimes não ficam restritos à parte oculta da internet, conhecida como dark web. O primeiro contato e aproximação dos criminosos com as vítimas acontece nas plataformas mais comuns das big techs: X, Instagram, TikTok, Roblox, Minecraft, outros chats de jogos e até em grupos de fãs ‒ onde os jovens acreditam estar seguros.
Após ser “aliciada”, a vítima é redirecionada para o Discord, Telegram, Zangi, ou Elements. “Nessas plataformas, se desenvolve um processo de sextorsão e de radicalização online violenta mais intenso”, explica.
A especialista destaca que esses grupos de aliciadores fazem parte de uma rede transnacional violenta online, orientada por princípios classificados como niilistas, que carregam uma ideologia cética e radical em relação à realidade e não veem sentido na vida. Eles espalham desesperança e pessimismo, e muitos carregam a orientação neonazista.
O psicólogo criminal Christian Costa diz que ainda não é possível traçar o perfil dos jovens recrutados por esses grupos extremistas. “No Brasil pesquisa-se muito pouco sobre esses agressores”, analisa, e defende a necessidade de “criar um banco de dados comportamental para entender o que leva uma pessoa a cometer crimes bárbaros”.
Mas, ao longo da sua trajetória acadêmica e profissional, Christian tenta quebrar o mito de que pessoas que cometem maldade são doentes. “A minoria de quem comete homicídios, estupros, extorsões e torturas apresenta quadro de psicose. Mas a ampla maioria, 90%, são pessoas más”, afirma.
Nos casos de violência do Discord, Telegram e outras plataformas, um cenário comum se repete: as maiores vítimas são as meninas e quem comete o crime são os meninos. “Esses jovens adquirem as informações de uma sociedade misógina e machista e projetam isso em meninas com fragilidades estruturais”, explica.
O psicólogo reforça que uma vítima é sempre uma vítima, e, em nenhum momento ou hipótese, tem culpa. “Eu já ouvi dizer: ‘Ah, mas por que é que essa menina não desliga o computador?’ A resposta é simples: porque ela é ameaçada, torturada, e se torna uma escrava psicológica desses criminosos.”
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