Jornalista e apresentadora fala à CAPRICHO sobre uma trajetória longe da linha reta e a ambição de continuar construindo a vida que ela quer para si.
por Arthur Ferreira, especial para a CAPRICHO | Edição: Andréa Martinelli
10 set 2026
14h14
A
ntes de Kenya Sade chegar ao estúdio para posar para esta capa, ela já conhecia bem a sensação de olhar para uma CAPRICHO, só que do outro lado. Aos 15 anos, acompanhava as páginas dedicadas aos artistas que faziam parte de sua adolescência, vivia sua própria fase emo e lia matérias sobre Restart e Fresno.
Quinze anos depois, aos 30, foi ela quem precisou parar diante das câmeras e entender o que significava protagonizar aquela imagem. “A pessoa olha para a capa e é algo muito impactante. Você vê e se espelha. Você quer ser aquela pessoa ou quer estar naquele lugar.”
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A reflexão levou Kenya de volta à garota que ela mesma tinha sido. Uma adolescente negra que encontrava referências no jornalismo e em atrizes como Taís Araújo, mas sentia falta de mulheres pretas ocupando com a mesma naturalidade o universo pop que tanto consumia. Hoje, ela sabe que pode ser essa imagem para quem está do outro lado da tela.
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“Poder construir esse imaginário hoje para outras meninas e mulheres negras do Brasil que vão acessar essa capa e se identificar é possibilitar que elas se vejam bonitas, mas, acima de tudo, se vejam donas da sua própria narrativa.”
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É uma inversão e tanto para uma jovem muitas vezes desacreditada de que alguns espaços haviam sido feitos para ela enquanto hoje os ocupa. Atualmente ela é jovem apresentadora das principais transmissões de festivais do país – incluindo Lollapalooza, Rock in Rio e mais – topou se aventurar no Dança dos Famosos, na TV Globo, e é a personagem de capa da edição digital da CAPRICHO de setembro.
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– Camila Tuon/CAPRICHO
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Busque sua referência, faça bem sua pesquisa
Se existe algo que Kenya nunca precisou aprender a imaginar, é a música. Ela estava ali antes mesmo que houvesse qualquer plano de transformá-la em trabalho. Sua mãe ouvia Elis Regina, Chico Buarque e, especialmente, Milton Nascimento. O pai, angolano, que viveu com a família até Kenya ter 6 anos, colocou Bob Marley, Fugees e Lauryn Hill em seu repertório desde cedo. No quintal, a avó fazia samba ao som de Jovelina Pérola Negra e Elza Soares. “Era uma casa que tinha música 24 horas”, resume.
Até o nome parecia anunciar alguma coisa. Kenya Sade não é um nome artístico: está na certidão. A referência à Sade, uma das cantoras que mais escuta até hoje, tornou a musicalidade parte de sua história desde o começo. E não à toa o ensaio da CAPRICHO buscou referências lá dos anos 80 e 90 para construir toda a narrativa junto com ela – depois de saber essa informação, repare no styling das fotos com mais atenção e descubra as referências escondidas nele.
“Essa formação musical começa antes de mim. Ela começa na minha casa, por essas mulheres que me criaram em um clima de leveza, musicalidade e muita alegria. Então, a música, para mim, é antes de mim e é depois de mim.”
Na adolescência, entretanto, Kenya começou a procurar um repertório que fosse só seu. Foi quando entrou o rock. Enquanto tentava compreender a própria identidade, frequentava festivais e encontrava nas músicas de Pitty mensagens sobre como bancar quem se é apesar do que esperam de você. Depois vieram Rita Lee e Cássia Eller.
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O rap também foi fundamental. Racionais MC’s fazia parte daquela formação e, hoje, artistas como Duquesa e AJULLIACOSTA ajudam Kenya a traduzir um momento completamente diferente da vida: o da ascensão social. Talvez seja por isso que falar de música nunca tenha se tornado apenas um trabalho. Mesmo depois de transformar artistas em entrevistados, ela continua sendo fã.
– Camila Tuon/CAPRICHO
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Kenya conta, por exemplo, que precisou se recompor ao encontrar Lionel Richie diante de si. O mesmo aconteceu com Demi Lovato. Existe um pequeno ritual: a fã reconhece quem está na sala, respira e dá espaço para a jornalista assumir. “O lado fã e o lado jornalista e apresentadora coexistem”, explica. “Fico muito feliz de hoje poder realizar os sonhos da Kenya fã e da Kenya jornalista.”
Uma entrevista, em especial, mostrou que os dois lados poderiam mesmo caminhar juntos. Em 2023, durante uma cobertura do aniversário de Salvador, recebeu uma missão que a fez duvidar da própria capacidade por alguns segundos: entrevistar, juntos e ao vivo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivete Sangalo e Luedji Luna.
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“Falei: ‘Não, gente, não sou capaz. Coloca outra pessoa, não dá’”, recorda, rindo. Deu. “Naquele momento, entendi que era isso que queria fazer. Que essa é a minha paixão. É por isso que preciso me entregar. As noites mal dormidas e as viagens valem a pena por conta disso.” Foi uma confirmação importante porque chegar até ali não havia sido uma linha reta.