m um Brasil que registrou mais de 1.500 vítimas de feminicídio só em 2025, sendo este o maior número da última década, a rapper Ebony, aos 25 anos, transforma música em discurso político e se consolida como uma das vozes mais urgentes da juventude e que se conecta com ela. Não à toa, em fevereiro deste ano, a artista foi convidada para o evento oficial de assinatura do Pacto Nacional “Brasil Contra o Feminicídio”. Ali, ela viralizou ao dar uma entrevista para a TV Globo, afirmando que o melhor caminho para combater a violência é a educação. “Eu fico pensando muito em como viver sob risco constante afeta a gente. A gente já entende isso com violência urbana, mas não fala o suficiente sobre o impacto da violência contra mulheres”, afirma em entrevista à CAPRICHO, durante o ensaio de fotos para a capa da edição digital de abril de 2026.
Foi assim, com uma posicionamento firme e contundente, que ela se tornou viral no início do ano. Nesse momento, ela furou a bolha e muita gente passou a conhecer a rapper carioca. Mais do que ocupar espaços institucionais, ela vem tensionando o que eles significam e para quem eles existem já há um tempo. E ela faz isso com música. A carreira dela começou cedo: aos 17 anos, publicando faixas no SoundCloud e fazendo som autoral na internet. Hoje, soma projetos como Visão Periférica (2021), Terapia (2023) e KM2 (2025), além de músicas que viralizaram e atravessaram a internet, como Bratz, Pensamentos Intrusivos e Espero Que Entendam.
Agora, no início do mês de abril de 2026, ela lançou a versão “de luxo” (uma tradução literal do termo deluxe, em inglês) de seu álbum KM2, que aparece em uma nova roupagem. CAPRICHO ouviu em primeira mão e pode afirmar que o álbum mistura memórias, interlúdios sobre sua infância e adolescência em Queimados, na baixada fluminense, e novas camadas sonoras. A versão “de luxo” chega ainda mais lapidada, mas mantém o coração da artista exposto. “Eu sempre senti que o KM2 foi um parto pra mim. É a primeira vez me abrindo sobre coisas mais íntimas”, conta. “É [também] sobre o quanto a minha mensagem pega essas pessoas, bota fé? Isso é um grau de conexão que está muito além da música.”
E o novo momento também é estético. Se a capa anterior do KM2 remetia a um desenho infantil, agora Ebony posa ao lado de uma obra de arte assinada pela artista Hester Landim – de 22 anos, natural de Mauá, em São Paulo – apontando amadurecimento, sem deixar sua essência e raízes de lado. “É como se eu retomasse a narrativa. E também tem um diálogo com esse imaginário da era vitoriana e do iluminismo, que consolidou nomes de homens brancos europeus. Parte do gesto de se colocar como artista nesse lugar. É isso: eu também sou artista”, afirma.
Se, do lado daí, você ainda acredita que política e música não se misturam, ela desmonta esse argumento com a própria trajetória. Em gêneros historicamente marginalizados, como o hip-hop e o funk, ela faz da música uma ferramenta de leitura de mundo e de transformação.
“Entendo que muitas pessoas não têm tempo pra pensar nisso porque estão sobrevivendo. Para essas, eu tenho todo o amor do mundo. Mas qualquer pessoa que tenha algum tipo de privilégio e diga que política não importa… a gente tem um problema.” Direta, sem rodeios, ela resume: “Para mim, não existe achar que política não é importante.”