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Para Xamuel, o freestyle vai muito além das rimas: “É um estilo de vida”

Em entrevista à CAPRICHO, o rapper nos contou como usa a moda para se expressar e nos revelou alguns detalhes de seu próximos lançamentos

Por Arthur Ferreira 31 mar 2024, 10h00

Com apenas 18 anos, Xamuel é uma das personalidades em ascensão no cenário do rap brasileiro. Desde os onze anos, ele participa de batalhas de rimas, um mundo onde “o freestyle é um estilo de vida”. Em entrevista para a CAPRICHO, Xamuel contou que, para ele, sua arte não se trata apenas de rimar, mas sim de viver e respirar a cultura do rap, encontrando na improvisação uma forma de expressão artística.

“Eu costumo dizer que o freestyle, no geral, é um estilo de vida. Não é só uma rima que você faz na batalha e passa. Então muitas coisas na minha vida, eu faço de freestyle. Não gosto de planejar, gosto de sentir essa emoção, essa adrenalina. No meu processo criativo das músicas, não é diferente”, revela Xamuel.

 

A jornada de Xamuel nas batalhas de rua até os holofotes nacionais foi marcada por uma ascensão meteórica, impulsionada não apenas por sua habilidade nas rimas, mas também por sua autenticidade e consciência social. Xamuel é um porta-voz das questões que afligem a periferia, desde a resistência contra as injustiças sociais até a importância da aceitação e da conscientização coletiva.

“Eu acho que se impor sobre algumas coisas é uma obrigação de todo artista”, afirma. “O papel do artista é fazer o público pensar e refletir sobre esse tipo de coisa, porque são questões que já estão tão enraizadas e que a gente não pensa sobre.”

Mas não é apenas nas letras de suas músicas que Xamuel faz sua marca. Seu estilo autêntico também se manifesta na moda. Com seu próprio estilo de roupas, que une elementos do streetwear com uma expressão agênera, Xamuel reforça sua identidade e influência cultural.

Muitas vezes, a inspiração vem das coisas que a gente vê na rua, na quebrada e na favela. Sempre me inspiro no lugar de onde eu vim, na forma que as pessoas de onde eu vim se vestem ou na forma que as pessoas de onde eu vim sonham em se vestir.

Xamuel sobre usar a moda para se expressar artisticamente
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Além das ruas e dos palcos, Xamuel conquistou os corações e as telas dos jovens através das redes sociais, especialmente no TikTok, onde ele é seguido por milhões. Para ele, as redes sociais não são apenas uma plataforma de promoção, mas um meio de conexão direta com seu público.

“Eu vejo o TikTok e as outras redes sociais como uma maneira de você se conectar e se comunicar com muitas pessoas”, compartilha. “Isso sempre vai servir, principalmente para quem trabalha com arte, para apresentar o nosso trabalho.”

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Seu mais novo trabalho é o single, Mortal Pra Trás, em parceria com Sidoka e DJ Matt D. Ou seja, já podemos esperar rimas afiadas e um ritmo contagiante, né? Xamuel descreve a colaboração como uma “colaboração maluca de uma ideia que a gente teve e no final deu tudo certo, tá um trampo muito lindo.” A música chegou acompanhada de um videoclipe icônico, confira:

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Sobre projetos futuros, Xamuel nos revelou que está trabalhando em seu primeiro álbum de estúdio, Sangue, que contará com 12 faixas e deverá chegar ainda neste primeiro semestre. Sobre o nome do disco, ele explicou: “O nome, Sangue, é o grito das batalhas de rima. A gente sempre grita sangue antes do MC rimar. É o grito de guerra para incentivar os dois MC’s darem a vida dentro da roda”.

Confira nossa entrevista completa com Xamuel:

CH: Xamuel, sua jornada no mundo do rap começou muito cedo, aos 11 anos, em batalhas de rimas regionais. Como as batalhas de rima apareceram na sua vida? E como isso influenciou sua carreira até agora? 

Xamuel: As batalhas de rima sempre estiveram muito presentes na minha relação com o meu irmão e meu primo, que tinha mais ou menos a minha idade. A gente costumava praticar rimando um contra o outro, brincando, em casa. Em algum momento, a gente decidiu participar em uma batalha que era no nosso bairro. Desde então a gente não parou.

Eu costumo dizer que o freestyle, no geral, é um estilo de vida. Não é só uma rima que você faz na batalha e passa. Então muitas coisas na minha vida, eu faço de freestyle. Não gosto de planejar, gosto de sentir essa emoção, essa adrenalina. No meu processo criativo das músicas, não é diferente. Então quando eu estou gravando alguma música, eu costumo usar o freestyle. Eu fico rimando em cima do beat e da melodia, treinando coisas diferentes e as ideias que eu mais gosto eu vou adicionando. 

Para você, qual é a importância das batalhas de rima e do rap para a cultura?

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Eu acho que é muito importante para os jovens, principalmente. Porque são pessoas que vão crescer aprendendo muito sobre cultura. Por exemplo, ver o MC que você admira rimando e usando alguma referência histórica sobre alguém que foi importante para o Brasil de alguma forma ou sobre alguém que tenha uma ideologia muito forte, você vai querer saber mais sobre e vai pesquisar. Isso acaba adicionando esse aprendizado no repertório dos jovens que acompanham as batalhas de rima e proporciona mudanças futuras.

Você se tornou uma sensação nas redes sociais, especialmente no TikTok, com milhões de seguidores. Como você vê o papel das redes sociais na promoção da sua música e na construção da sua base de fãs, que tem crescido muito por lá?

Eu vejo o TikTok e as outras redes sociais como uma maneira de você se conectar e se comunicar com muitas pessoas. Isso sempre vai servir, principalmente para quem trabalha com arte, para apresentar o nosso trabalho. O nosso trabalho é um trabalho que precisa ser apresentado. As redes sociais tem ajudado muito a poder trocar ideia diretamente com o público.

Você já viralizou e virou meme algumas vezes. Como você lida com toda essa repercussão sobre você nas redes sociais? 

Eu não sei, porque toda vez que acontece é uma sensação e uma situação diferente. É muito engraçado ver a forma que as coisas acontecem e repercutem. Vai criando muitos lados da história, muitas opiniões diferentes sobre a mesma coisa. Quando a gente cresce usando as redes sociais, vemos muitas coisas viralizarem e muitas pessoas tendo opiniões concretas sobre tudo,  mas a gente não se acostuma a ser esse centro das atenções. Eu acho que é sempre muito engraçado, muito divertido.

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Você é conhecido não apenas pela habilidade nas rimas, mas também pela consciência social e autenticidade. Como você equilibra a expressão artística com a responsabilidade de abordar questões sociais importantes?

Eu acho que se impor sobre algumas coisas é uma obrigação de todo artista. A gente tem algumas regras na sociedade, porém nem toda regra é uma coisa que é certa, né? Nem toda regra é obrigatória. Eu acho que o ponto de vista do artista é enxergar esse outro lado e mostrar para o público esse outro lado. No final das contas, é a gente que decide as coisas que são certas para a gente mesmo. Principalmente sobre os padrões que muitas vezes são impostos. O papel do artista é fazer o público pensar e refletir sobre esse tipo de coisa, porque são questões que já estão tão enraizadas e que a gente não pensa sobre.

Como você lida com as críticas de artistas de dentro do rap e das batalhas de rimas? 

Críticas nunca me abalaram, mas sempre me inspiraram mais. Pessoas que estão no meio do Rap, independente de elas terem uma opinião diferente da minha, ainda são meus irmãos. Ainda são pessoas que estão na mesma cultura que eu e que, no final das contas, ainda querem a coisa que eu. Quando eu discordo da opinião de alguém que é dentro da cultura das batalhas é como se fosse uma briga de irmão. Não é necessariamente sobre quem está certo e quem está errado, porque se alguém tem uma opinião diferente da minha, essa pessoa está certa para ela e, se eu tenho uma opinião diferente, eu estou certo para mim. A gente prega a liberdade de expressão acima de tudo, então eu acho que é um problema pequeno.

E como é quando essas críticas vêm de fora da sua bolha? De pessoas mais velhas que não conseguem entender o seu visual e a sua arte?

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Quando vem de alguém de dentro do rap, é como se fosse alguém participando comigo de um movimento que já vem gerando coisas grandiosas o tempo todo e que em algum momento vai revolucionar muito mais. Quando vem de fora, são pessoas que estão assistindo e não estão participando com a gente. Independente da opinião deles, não é como se eles fossem acrescentar na nossa luta. São pessoas que falam agora, mas vão ver os resultados daqui há alguns anos. Então eu prefiro só deixar que o tempo responda 

“Mortal Pra Trás” é sua nova aposta musical, com a participação de Sidoka e DJ Matt D. O que os fãs podem esperar dessa colaboração? E como foi trabalhar com esses artistas?

Essa era uma música que a minha parte já estava pronta, isso não é uma coisa que eu costumo fazer. Tivemos a ideia de juntar o Sidoka no projeto porque é uma coisa que tinha muito a ver com ele e uma letra parecido com as coisas que ele faz. A gente entrou em contato e eles abraçaram a ideia. O DJ Matt D entrou porque a gente precisava de um beat e um instrumental que fosse a nossa cara. No geral foi uma colaboração maluca de uma ideia que a gente teve e no final deu tudo certo, tá um trampo muito lindo.

“Mortal Pra Trás” vai chegar acompanhada de um clipe, o que podemos esperar desse clipe? Como foi participar das gravações?

Foi muito tempo de gravação. A gente começou de tarde e acabou só de noite, então foi um processo bem cansativo para a gente. Por mais que estivesse cansativo, também estava sendo muito divertido. O divertimento supera muito facilmente o cansaço, então por mais que a gente tenha passado horas gravando, ficou tudo muito espontâneo.

Quais são seus planos futuros? O que podemos esperar dos seus próximos passos na carreira musical?

Em 2024, a gente está  trabalhando muito para poder soltar o meu primeiro álbum de estúdio. Já tem muitas faixas que estão prontas e algumas ainda estão passando pelo processo criativo. Vamos fazer uma peneira para selecionar somente as melhores e vão sair doze faixas no meu álbum, Sangue, que chega antes de julho. O próximo lançamento depois de Mortal Pra Trás provavelmente vai ser uma música desse álbum e vai apresentar um pouco mais sobre o repertório cultural que a gente está trazendo dentro dele.

O nome, Sangue, é o grito das batalhas de rima. A gente sempre grita sangue antes do MC rimar. É o grito de guerra para incentivar os dois MC’s darem a vida dentro da roda. Como eu comecei muito cedo, eu acredito que a minha vida mudou depois do primeiro grito de sangue que eu ouvi e é uma coisa que eu escuto até hoje em dia. Então é algo que é muito importante e tem um valor para mim.

Xamuel, você também é reconhecido por seu estilo autêntico na moda. Como você vê a relação entre a moda e sua expressão artística?

Eu acredito que a arte nunca se limita somente a uma profissão. Eu acho que arte é mais do que uma profissão, é algo que não tem como se explicar. Ser artista é conseguir expressar opiniões, ideias, nossa criatividade. E isso vai além do jeito que a gente fala, se porta, se veste e faz nosso trabalho. Eu acho que ser artista é tudo. A moda é parte disso, uma forma de se expressar usando os tons e peças que refletem o que está passando na sua cabeça.

E quais são suas maiores inspirações? Tanto na moda quanto artisticamente?

Minha inspiração artisticamente é sempre a música negra, que eu ouvia já na barriga da minha mãe. Desde criança, me lembro dos meus pais ouvindo muito samba, pagode, rap e música brasileira. Então eu sempre tive isso enraizado em mim no meu subconsciente, mesmo sem perceber.

Na moda, minha referência é sempre as coisas que a gente vê na rua. Coisas que a gente vê na quebrada e na favela, que a gente acaba adaptando e criando pro nosso modelo artístico. Tem roupas de clipes meus que são referências a pessoas que eu conheci há muito tempo atrás e que eu não vejo há muito tempo. Pessoas que andavam pelo meu bairro e que eu sempre pensava “mano, que pessoas estilosas”. Eu sempre me inspiro no lugar de onde eu vim, na forma que as pessoas de onde eu vim se vestem ou na forma que as pessoas de onde eu vim sonham em se vestir e sempre tento adaptar isso para a minha forma, para forma que eu vejo o mundo.

Sua ascensão no cenário do rap e hip hop estabeleceu você como uma grande personalidade para a nova geração. Como é para você ser essa influência para essa geração mais jovem?

Eu acho que eu não vejo como um fardo. É uma coisa que eu gosto, mas tem que ter sempre um cuidado na forma em que se  fala algumas coisas para não ser interpretado errado e incentivar pessoas que podem ser influenciadas. Quando a gente  tem esse papel de referência para o público jovem, tem que ter essa responsabilidade e saber o que transmitir e ajudá-los, de certa forma. Isso também vai nos ajudar porque ao conscientizar alguém que tem 10 anos hoje, essa mesma pessoa vai poder fazer coisas grandes no futuro.

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