Quem ganha com os conflitos identitários que acontecem no BBB?

Outra vez, questões relacionadas a racismo, homofobia e misoginia tornam acompanhar o programa uma experiência violenta para determinados grupos sociais

Por Vand Vieira 24 jan 2026, 13h44

Eu era pré-adolescente quando assisti, no BBB5, a um homem gay ser perseguido por um grupo liderado por homens heterossexuais. Lembro de ficar apreensivo em muitos momentos porque era como ver na televisão o que passava diariamente na escola por ser afeminado. Algo parecido aconteceu no BBB10, só que daquela vez o participante que teve falas e atitudes homofóbicas saiu da casa como o grande vencedor.

Mas essas edições têm outro ponto em comum: ambas foram sucesso de audiência e são consideradas históricas. Pedro Bial, inclusive, declarou em uma entrevista relativamente recente que o BBB5 foi o primeiro a gerar uma comoção digna de Copa do Mundo.

O tempo passou, surgiram as redes sociais, e isso ampliou o alcance e a exposição do público ao que acontece no Big Brother Brasil. E eu poderia citar diversas situações em que mulheres (sejam cis ou trans) e pessoas pretas tiveram experiências parecidas com a que dividi acima. Minha melhor amiga, uma mulher preta, chegou a me dizer que já não aguentava acompanhar o reality show por causa das tensões raciais — algo que marcou de diferentes maneiras o BBB19, o BBB23 e o BBB24, por exemplo.

Chegamos ao BBB26. Em apenas duas semanas, vimos um homem importunar sexualmente uma mulher, um homem preto acusar uma mulher branca de tratar uma mulher preta como empregada, e um homem gay apontar homofobia no comportamento desse mesmo homem preto. A internet, é claro, está inflamada e o engajamento da nova temporada já superou o da anterior. Parece que temos um padrão.

Continua após a publicidade

Continua após a publicidade

A questão é: será que todo esse debate realmente vai gerar alguma mudança ou está servindo apenas para nos desgastarmos ainda mais enquanto a TV Globo fecha cotas milionárias de publicidade? E o que a emissora poderia fazer para que o BBB seja um espaço mais seguro de estar — e agradável de assistir — para todos? Será que a alta cúpula estaria disposta a arriscar esses números estratosféricos? Tenho minhas dúvidas.

Passou da hora de a direção do programa não esperar o limite para interferir nesse tipo de caso. Mais do que isso, o primeiro passo é tentar evitá-los desde o extenso processo seletivo que envolve os aspirantes a brothers e sisters. Do contrário, não terá como negar que a escolha de determinados perfis é propositalmente conflitante, pensada mesmo para provocar quem está em casa a fim de gerar repercussão — e mais dinheiro.

Publicidade