Dia do Orgulho Crespo é sobre celebrar e sentir orgulho de nossas coroas

Você já parou para pensar que os termos "relaxamento" e "abaixar o volume" estão atrelados a um suposto problema que precisa ser corrigido?

Por Neomisia Silvestre* Atualizado em 26 jul 2022, 17h17 - Publicado em 26 jul 2022, 16h27
Orgulho Crespo
Mas, para alguns, que bobagem era essa de falar sobre cabelo quando outros assuntos mais importantes necessitavam atenção? nadia_bormotova/Getty Images

É isso mesmo: temos um dia inteirinho para celebrar e sentir orgulho de nossas coroas crespas e cacheadas. Afinal, cada um(a) de nós sabe o tempo que levou e o caminho que percorreu para chegar até aqui, um lugar autêntico e seguro onde o sentimento de vergonha deu lugar ao amor-próprio.  

Há exatos sete anos, centenas de jovens mulheres negras, homens, crianças e idosos se reuniram no vão do MASP, em São Paulo, para dar início ao que seria a 1ª Marcha do Orgulho Crespo, organizada a partir de um evento no Facebook e que ganhou projeção nacional e internacional por inspirar pessoas a se reconectarem com sua identidade e autoestima.

Desde 2018, a lei 16.682 institui o 26 de julho como o #DiadoOrgulhoCrespo no calendário oficial do Estado de São Paulo, fruto de um projeto realizado em parceria com a artista e deputada Leci Brandão para que pautas relacionadas à estética negra fossem visibilizadas. A data também passou a existir no Mato Grosso do Sul, no dia 7 de novembro, por meio da lei 5.206.

Aquele encontro geracional tinha em comum o desejo de exaltar e discutir questões acerca dos cabelos naturais, que podiam abranger desde histórias de preconceitos à astúcias sobre cuidados capilares. Como um dos motes do evento também era o de sair do espaço virtual e dar lugar ao olho no olho, ao acolhimento, à empatia e à escuta, uma grande roda foi formada durante a concentração e um megafone foi instrumento para reverberação daquelas muitas vozes e histórias.

Histórias que, independente da idade ou do gênero, repetiram-se por anos e anos. Histórias sobre infâncias e traumas. Histórias engraçadas se não fossem trágicas. Histórias para além das feridas físicas e cicatrizes não-visíveis a olho nu. Histórias de resiliência e afrontamento cotidiano. Histórias nascidas a partir do que a sociedade nos contou sobre nossos cabelos serem ruins e feios e sujos a ponto de nos submetermos a processos químicos – muitas vezes irreversíveis -, a ponto de nos escondermos e de nos odiarmos.

“O meu pai me dizia, Karol, você é linda. E eu respondia: não, eu sou feia, eu sou negra. E ele: você é linda. Acontece que tem gente com a visão estragada e não consegue enxergar a beleza que tem em você”, partilhou na roda a cantora curitibana Karol Conká que, para surpresa dos participantes, também compareceu ao ato.

De sua autoria, a música “Tombei”, lançada em dezembro de 2014, popularizou as gírias “tombar” e “tombamento”, em referência ao processo de empoderamento estético, político e cultural da juventude negra e periférica. Naquela tarde de domingo, os mais diversos tipos de tranças, black powers, coloridos, dreadlocks, twists, bantu knots, lisos, carecas, chavosos, turbantes, apliques, perucas e laces ocuparam uma das faixas da Avenida Paulista – que ainda não era fechada para pedestres – e desfilaram de forma festiva e afetuosa. Juntos, existindo e revelando o quão bonitos, diversos e potentes éramos. Somos. 

“Racista passa mal, meu cabelo é natural”, “Não é moda, é DNA” e “Brasil é crespo!” foram algumas das frases entoadas e repetidas durante a caminhada de dois quilômetros e meio pela Rua da Consolação, em direção à ocupação Casa Amarela. Ali, uma programação gratuita previa debates com intelectuais e pesquisadoras do tema, influenciadoras e ativistas; oficinas de tranças e penteados; discotecagem e afroempreendedores expondo e comercializando seus produtos.

No dia seguinte, a repercussão positiva veio de inúmeras fotos e vídeos partilhados nas redes sociais e da notícia sendo destaque em diversos veículos de comunicação. O que fez com que lideranças femininas de outros lugares do país entrassem em contato com a organização para saber como realizarem suas marchas locais. Nascia, então, o Movimento Nacional Orgulho Crespo, presente no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo e São Paulo. A ação também inspirou a primeira edição da Detroit Natural Hair Empowerment March, nos Estados Unidos, em 2016.

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Também vieram uma menção honrosa pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, na Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2015; uma participação no I Seminário Internacional Encrespando – Refletindo a Década Internacional dos Afrodescendentes (2015-2024), proclamado pela ONU e organizado pelo coletivo carioca Meninas Black Power; uma indicação ao Prêmio Governador do Estado de São Paulo, em 2017, na categoria Territórios Culturais; além de inúmeros debates e palestras; entrevistas e programas de TV; matérias em jornais, sites e revistas; teses acadêmicas; ensaios fotográficos; filmes e documentários. Em Porto Alegre, foi criado o programa de entrevistas “Orgulho Crespo”, transmitido online e semanalmente pela Rádio Reação FM.

Me diz aqui que você nunca parou para pensar no fato dos termos “relaxamento”, “controle do frizz” e “abaixar o volume” estarem atrelados a um suposto problema que precisa ser corrigido?

Mas, para alguns, que bobagem era essa de falar sobre cabelo quando outros assuntos mais importantes necessitavam atenção? Aquela não era uma discussão exclusiva e inerente ao Movimento Orgulho Crespo. Aquela temática, por assim dizer, era o reflexo de um legado histórico e político, resultado de uma luta ancestral que teve como vanguarda mulheres negras, atuando também por meio de seus cabelos e reivindicando o direito de suas existências e liberdades. Uma vez que esses corpos diaspóricos sendo lidos, interpretados, julgados e alvo de uma política genocida ainda em curso no Brasil, talvez a última razão da Marcha acontecer fosse o cabelo em si ou o modo como cada um deseja usá-lo.

Dentre as inúmeras violências físicas e simbólicas causas pelo processo de escravidão de povos africanos trazidos para as Américas no final do século XV estavam o apagamento de suas identidades e memórias, ao forçá-los a rasparem os cabelos. Já que o penteado, a forma e os adereços podiam denotar suas etnias, religiões e mesmo o status social. Procedimento que minava qualquer noção de pertencimento étnico, territorial e identitário.

Havia também, segundo o jornalista Laurentino Gomes em seu livro “Escravidão” (Editora Globo, 2019) a chamada “Árvore do esquecimento” ou “A lei das sete voltas”, procedimentos pelo qual africanos eram forçados a darem voltas ao redor de uma árvore para que, assim, seu passado e suas origens fossem extintos antes de embarcarem nos navios negreiros e serem submetidos à travessia transatlântica. 

Ardiloso, o racismo quer nos paralisar de muitas maneiras. Logo, ele também perpassa essa ideia de aprisionamento estético-capilar. Me diz aqui que você nunca parou para pensar no fato dos termos “relaxamento”, “controle do frizz” e “abaixar o volume” estarem atrelados a um suposto problema que precisa ser corrigido?

Não criar referências positivas e que respeitem a maneira de existir de cada indivíduo pode extinguir toda uma possibilidade de corpos, estéticas e belezas plurais e únicas. Quando só se tem parâmetros negativos sobre determinada cultura ou povo, não há desejo de se parecer ou se conectar. E, sim, por mais que o Brasil tenha metade da população autodeclarada negra e parda, cabelos afro ainda carregam estigmas da barbárie que foi a tentativa de desumanizar corpos negros.

Se, por um lado, a pandemia nos impossibilitou de ir às ruas, por outro, no âmbito do privado, impulsionou diversas mulheres a iniciarem o processo de transição capilar – quando paramos os alisamentos e os procedimentos químicos para deixar os cabelos crescerem tal como são. Uma decisão que demanda coragem e entendimento de si. E que, mais do que uma aparente mudança de visual, suscita uma mudança de postura para com o mundo e a forma como nos relacionamos.

Ainda que a internet tenha sido – e seja – uma ferramenta democratizadora, ela pode ser um território absolutamente perverso e tóxico no sentido de nos levar de volta a um padrão

Ainda que a internet tenha sido – e seja – uma ferramenta democratizadora, ela pode ser um território absolutamente perverso e tóxico no sentido de nos levar de volta a um padrão: quando nos libertamos da chapinha, entramos no modo cacho perfeito. Ou quando já passamos por transições e sabemos amar nossos cabelos com são, ainda encontramos pequenas frestas de autossabotagem e autocobranças decorrentes de um tipo de comparação com o outro.

Por isso, se couber aqui um conselho, lembre-se da metáfora da árvore. Não a do esquecimento, mas a da memória. Aquela que não vê motivos para se envergonhar das próprias raízes expostas. É pela raiz que uma árvore ramifica, se conecta e brota pro mundo.

A ideia de marcha, seja a de um passo de cada vez, de descoberta dos próprios caminhos e/ou de criação de movimento, segue viva, contínua e representada por uma geração que inspira os mais velhos e os mais novos, e não teme desfilar seu Orgulho Crespo, seja no 26 de julho ou nos outros 364 dias do ano. 

*Jornalista e escritora brasileira radicada na França, tem contribuições em projetos artísticos e socioculturais a partir de atuações em ONGs, revistas, rádio, televisão, fotografia, assessoria de imprensa e produçāo de eventos. É autora da biografia Esumbaú, Pombas Urbanas! 20 anos de uma prática de teatro e vida (2009) e uma das criadoras do Orgulho Crespo, movimento independente de valorização do cabelo crespo/cacheado iniciado em 2015 com a 1ª Marcha do Orgulho Crespo. A iniciativa integra o calendário oficial do Estado de São Paulo com o #DiaDoOrgulhoCrespo, celebrado todo 26 de julho por meio da Lei 16.682/2018.

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