‘Tive que aprender a domar o monstro que vive dentro de mim’

A estudante Amanda Veras desabafa sobre ser uma jovem que convive diariamente com a depressão desde a época da escola, em que sofria bullying.

Por Amanda Veras - 17 fev 2019, 10h01

Acredito que a depressão sempre andou lado a lado comigo, desde quando eu era criança e não entendia o que estava acontecendo. Tudo começou com as crises de pânico aos 6 anos de idade. Eu ficava desesperada, sentia angustia, boca seca, tremedeira, pensamentos ruins. Lembro que eu ia ao médico, fazia muitos exames, e nada. O tempo foi passando e as crises vinham com mais força. Então, por motivos de eu ser uma criança e ter muitas dificuldades com tudo, minha mãe decidiu me colocar na terapia, mas parecia que nada resolvia. Eu sempre fui muito tímida, sempre tive muita dificuldade no colégio. Eu estudava à tarde e minhas amigas iam começar a estudar de manhã. Quis ir com elas. Me recordo que, a partir do 6º ano, eu comecei a sofrer bullying. Foi uma época muito conturbada. Eu tinha algumas amigas que, do nada viraram a cara para mim e fizeram toda a sala virar também. Tinham episódios em que, na hora de fazer trabalho em grupo, eu era a que sobrava porque ninguém me queria. Eu comecei a ser uma pessoa sozinha, não vinha muito sentido em nada, até porque eu nunca tive as mesmas condições financeiras das minhas amigas para poder acompanhá-las. Eu tenho poucas lembranças felizes da minha infância. Acho que as coisas ruins me marcaram mais e fizeram com que eu me tornasse cada vez mais recuada. Sempre tive baixa autoestima, apesar de amar tirar fotos. Daí diziam que eu queria atenção, queria ganhar elogios. Que nada.

O que eu deixava os outros verem // como eu realmente estava. Arquivo Pessoal/Reprodução

Também sempre desisti das coisas antes mesmo de terminá-las. O bullying no colégio, ter que ir para o intervalo sozinha, os apelidos… Aquilo me devastou. Eu não queria mais nada, eu queria apenas ser invisível. O tempo foi passando e eu fui criando outro tipo de defesa: comecei a não abaixar a cabeça para quem me fazia mal. Em 2011, tive a oportunidade de ir para a Disney e lá fiquei doente. Não conseguia me sentir feliz e, novamente, eu não tinha ninguém para me apoiar. Me sentia sozinha a todo momento – até no lugar onde os sonhos se tornam realidade.

Em 2013, tive meu pior quadro de depressão, o mais devastador. Acho que juntou meu histórico com o fim do meu primeiro relacionamento. Comecei a ficar doente fisicamente: febre alta, dor no corpo, e acabei sendo internada por cinco dias. Foram dias de exames, de dores, de eu só querer ir embora – não apenas do hospital, mas da minha própria vida. Quando os resultados saíram, o veredito: eu não tinha nada, era tudo psicológico. E assim comecei uma nova luta. Cheguei a pesar 32 Kg e comecei a me sentir ainda pior. Tive uma amiga que não desgrudava de mim, ela fazia de tudo, eu ficava na cama sem ter força para levantar, ela vinha aqui, me incentivava a ir para o banho. Se eu ainda estou aqui, ela é uma das maiores razões. Mas teve um dia em que ela foi para a casa de outra amiga e enxerguei naquilo uma oportunidade para acabar com tudo o que estava sentindo: me tranquei no banheiro e tomei todos os comprimidos que o médico havia receitado de uma vez. Ninguém percebeu. Dormi por muitas horas. Achava que só seria vista como alguém que precisava de ajuda se tirasse minha própria vida. Sobrevivi. Fui de mal a pior no colégio, quase repeti o 3º ano, não quis viagens, formatura, não quis absolutamente nada. Então, eu conheci novas pessoas, novos lugares… E o álcool. Nele eu descontava tudo o que sentia. Eu amava aquilo. Comecei a me soltar, ia para baladas, conversar, dançar, fazer “amizades”… Essa fase durou uns dois anos.

Em 2015, eu já estava cansada, aquela fantasia que eu criei da balada e do álcool não estava funcionando mais. As coisas estavam perdendo o sentido novamente. Aliás, esses anos todos elas não tiveram sentido, foi apenas ilusão. Entrei na faculdade, por puro impulso de ter ficado parada um ano, e aí tudo começou a desandar novamente. Eu não conseguia sair de casa, era uma luta pegar transporte público cheio, eu ficava no meio da rua sozinha chorando por não conseguir enfrentar isso.

Da época em que eu pesava 32 Kg. Arquivo Pessoal/Reprodução

Então, conheci uma pessoa e comecei a namorar. Ela me ajudava em tudo, mas também enfrentava alguns problemas difíceis e eu nunca me achei suficiente para ela. Me achava um peso, que eu deixaria ela louco, que tudo era culpa minha. Comecei a ter surtos. Uns surtos horríveis, surreais, algo que eu saía de mim. Quando eu pensava que tudo estava ficando bem, surgia algo ainda pior. Foi aí que minha família realmente percebeu que tudo aquilo não era frescura, não era preguiça, não era mimo, não era invenção. Passei por quatro psiquiatras e fui diagnosticada também com Transtorno de Personalidade Borderline. Ninguém aceitava, ninguém queria acreditar, mesmo eu me automutilando para aliviar as dores dos surtos.

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Estava me medicando direitinho quando fui assaltada dentro de casa. Fiquei 3h30 como refém. Foram dias sem dormir, dias querendo morrer, dias sombrios. Meu pai nunca foi muito presente, apesar de morar comigo, sempre trabalhou demais. Vim de uma gravidez indesejada, tenho um irmão mais velho que sempre vi ganhar toda atenção. E eu achava que eu não tinha atenção porque não era para eu estar aqui. Meu maior amigo dentro de casa era meu avô, que me amparava e me entendia. E, infelizmente, mais um episódio triste me aconteceu: meu avô faleceu. O coração dele parou de bater bem na minha frente. Quem iria me ajudar ? Eu não via mais motivos para continuar. Foi então que tentei suicídio pela 3ª vez.

Minha mãe me socorreu e, de repente, fui invadida por um sentimento estranho. Chorei muito. Vi que minha vida valia muito mais que aquilo tudo que estava passando desde criança. Que eu poderia superar. A dor da alma é mesmo a pior de todas. Ela me afastou do mundo, me destruiu, quase me matou por dentro. Mas eu percebi que sempre há um motivo para continuar. Tive que aprender a domar o monstro que vive dentro de mim, descobrir que eu sou mais forte que ele e que, mesmo que ele volte, eu vou conseguir superá-lo novamente. Meu grande erro foi me esconder, como se minha história fosse vergonhosa.

Eu estava bem mal nessa época e uma amiga quis me colocar para cima fazendo um ensaio fotográfico meu. Mas minha cara era nítida… Arquivo Pessoal/Reprodução

Eu ainda estou em luta. Aliás, para mim, sempre será uma grande luta. Não posso nem vou desistir. Por mais que eu caia, por mais que venham tempos difíceis, por mais que as crises aconteçam, eu vou me resolver. Nessa caminhada é preciso deixar muitas coisas para trás. Eu deixei pessoas, lugares, me afastei de tudo que me causava mal. Eu preciso me cercar de pessoas que me fazem bem e que queiram meu bem, não de “amigos de bebida”. O segredo é não desistir, se amar e achar um propósito, uma missão. Ah! E, é claro, entender que cada dia é uma batalha e que você nunca deve fugir dela. O segredo é não desistir, por mais difícil que seja.

 

Amanda Veras sonha em escrever um livro contando sua história: a de uma brava soldada na luta em prol da sua saúde mental. A jovem faz parte da corrente A.M.E. (autoestima, mental health e empoderamento) da CAPRICHO.

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