Retrospectiva: o que rolou dentro da militância asiática em 2018?

Que tal relembrar ou conhecer alguns projetos produzidos por asiáticxs que fizeram a diferença e contribuíram para gerar reflexão e visibilidade?

Por Melissa Ery - Atualizado em 21 dez 2018, 17h50 - Publicado em 21 dez 2018, 14h25

“O ano passou voando e eu não consegui fazer nada”. Esse era meu pensamento corriqueiro nos últimos dias de dezembro. Acho que sempre temos a sensação de que estamos fazendo pouco, mas, quando paramos para pensar, na verdade, só precisamos olhar por outro ângulo. Eu não tenho palavras para agradecer o quanto este ano foi incrível! Tantas coisas boas aconteceram comigo. Foram tantas mudanças, internas e externas, vários aprendizados e muitas conquistas. Também foi em 2018 que eu entendi o verdadeiro significado de ter voz. E é muito incrível ver o quanto nós estamos cada vez mais nos conscientizando e entendendo sobre a nossa individualidade sendo “asiáticxs brasileirxs”!

Resolvi fechar o ano com uma retrospectiva. Selecionei alguns projetos produzidos por “asiáticxs” que contribuíram para gerar reflexão e visibilidade. Olha só:

1. Coluna ‘Garotas Asiáticas’
Começar a escrever na CAPRICHO foi uma das coisas mais legais que aconteceram comigo! Eu estou em um processo de descoberta enquanto mulher amarela, e ter um espaço que me permite compartilhar minhas experiências, vivências e me dá oportunidade de conhecer histórias de pessoas que estão passando pelo mesmo processo é algo muito especial.

Reprodução/Reprodução

2. Coletivo Asiáticos pela Diversidade
O coletivo realizou diversos eventos legais: teve roda de conversa, grupo de estudos, encontros e até Sarau. Para quem não conhece o Asiáticos pela Diversidade, vale a pena curtir a página no Facebook para ler matérias importantes e ficar por dentro desses eventos.

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3. Projeto “Olhos Abertos”
A Rossana e a Fernanda criaram um projeto de fotografia que é feito por mulheres asiáticas (amarelas e marrons) e que tem o intuito de criar espaço de autoaceitação e desabafo para outras mulheres da diáspora asiática no Brasil. Elas realizam ensaios curtinhos com mulheres que queiram dividir suas histórias e sentimentos. O trabalho é lindo e nos faz refletir muito com cada relato! Para acompanhar no Instagram: @olhosabertosproj.

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4. Selo Pólvora
“O Selo Pólvora surgiu da necessidade de trazer uma narrativa interseccional, inicialmente sob um recorte asiático por meio das publicações independentes. O projeto surgiu entre 7 artistas de origem latino-americana com ascendências asiáticas diversas, com o objetivo de apresentar e disseminar nossas produções gráficas que tecem as experiências e vivências de cada artista. O nome Pólvora vem da referência direta ao conhecido explosivo, que foi descoberto na China durante a Dinastia Tang, e que se espalhou pelo mundo por meio da Rota da Seda, perpassando por grande parte do continente asiático e suas grandes civilizações. Já publicamos dois títulos: Manifesto Pólvora (Pólvora) e Máquina de Fazer Massacre (Ing Lee & Lucas Ero).
Hoje, o Selo Pólvora conta com a participação de 10 artistas, sendo: Ing Lee, Fernanda Kissy, Tamy Gushiken, Patricia Baik, Lígia Santiago, Tami Tahira, Akina Arakaki, Caroline Ricca Lee, Flavia Kitasato e Mayumi Amaral. Nossa meta para 2019 é ampliarmos nossa abordagem, tendo em vista a conjuntura política vigente, trazendo publicações que abracem não somente autores de ascendência asiática, como também outros grupos racializados e marginalizados estruturalmente, pois acreditamos no potencial revolucionário de coletivos artísticos da cena de arte independente”. Para conhecer este projeto: @selopolvora.

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5. Timbre +
O Alex e a Marina, criaram um projeto de confecção de bandeiras LGBTQIAP+: “A ideia surgiu dos anos de ativismo no movimento bi/pansexual, a partir da percepção da necessidade de discutir a invisibilidade que muitas identidades e orientações ainda sofrem. O que começou como costura de bandeiras para colegas e amigos da militância, hoje é um projeto ampliado que visa fortalecer o ativismo e apoiar a vocalização das orientações afetivas sexuais e identidades de gênero minorizadas – dar bandeira é fincar nossa existência em um mundo que insiste em nos apagar. As bandeiras produzidas atualmente são a arco-íris/LGBTQIAP+, transgênero, bissexual, pansexual, polissexual, lésbica, assexual, não-binário e genderqueer. É um projeto que tem como ponto de partida o amor, a representatividade e a empatia. Na vivência que tivemos durante nossa atuação na militância bi/pansexual, no coletivo Primavera Bissexual, vimos que a invisibilidade desta orientação era tão grande que, por exemplo, não conseguíamos sequer encontrar em território nacional uma bandeira que pudéssemos levar para as atividades”. Você pode acompanhar o trabalho deles na Página do Facebook Instagram @timbre.mais.

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6. “O que você vê em mim?”
O projeto de conclusão de curso da Camila Aya e Yumi Muranaka foi feito com a temática “A representação do nipodescendente como parte inerente da cultura brasileira” visa retratar o nipodescendente quebrando estereótipos que são impostos em nós e qualquer outras pessoas de ascendência asiática por conta de uma representação falha da mídia que traz, por exemplo, um mito de uma minoria modelo e de mulheres asiáticas fetichizadas e submissas. Para isso, tomamos como base duas mulheres fortes de ascendência japonesa que quebram esse estereótipo e representamos elas e suas histórias de vida através das estampas.
As estampas, que são um dos meios de comunicação e de expressão gráfica, além de cumprirem uma função estética e ornamental, nos permitem analisar e compreender gostos, crenças, cenário político e histórico de quem criou. Assim, ela nos possibilitou desenvolver uma identidade visual para a pessoa e, como um material de apoio, uma zine biográfica contando como a sua ascendência influenciou no seu ser e na sua vivência”. Para acompanhar o trabalho delas é só seguir no Instagram @somarudesign.

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7. Mitchosso
A Julia Park e a Yara Hwang criaram um Coletivo Feminista Coreano: “Mitchossó” é uma expressão coreana que se traduz para o português como
“perdeu o juízo?/ enlouqueceu?” e é utilizada para confrontar comportamentos transgressores de uma convenção social. O coletivo feminista tem como objetivo trazer em pauta a resistência contra um único padrão de individualidade dentro da comunidade coreana. Abordamos temas que são considerados como tabus, pois vão contra a ideia da mulher coreana comportada, pura e submissa. Além dos encontros que fazemos, buscamos registrar nossas narrativas em mídias que traduzam nossos depoimentos. Assim, convidamos outras pessoas a dialogar conosco com a intenção de construir pontes de tolerância e cumplicidade. Nossa primeira edição abordou a tatuagem no corpo feminino, que resultou numa zine fotográfica com previsões de lançamento para o começo de 2019″. Instagram @mitchosso.

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8. IdentidadesImportadasCompactadasDemarcadas.zip
O projeto de conclusão de curso da Viviane Lee: “Identidades demarcadas são aquelas que foram negadas a amplificação, dilatação, expansão, indeterminação, extensão. Demarcado é aquilo que foi limitado, tracejado, restringido, designado, apontado, assinalado. Assim como um produto importado, nossa identidade foi sempre trazida pelo outro, pelo exterior, um movimento de fora para dentro que culmina em identidades construídas visceralmente por estereótipos internalizados ou impostos. Compactado como aquilo que foi esmagado, comprimido, resumido quando os outros apontam o dedo e nomeiam, resumindo diversas identidades em uma, presumindo que sabem o que somos, o que fazemos, do que gostamos, com quem andamos, etc.
Identidades leste-asiátiques e não branques em um geral, são aquelas que, na visão de outres, podem ser ou estar somente em lugares que já foram designadas a tal. São aquelas que, perante milhares e milhões de indivíduos, são condensadas a uma ou outra identidade e perante esses lugares mínimos que as foram concedidas, vive-se o mito de ser quem não é”. Para ver o projeto completo pode ir lá no portfólio cyshimi.tumblr.com

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9. WABI-SABI – BELEZAS TRANSITÓRIAS
A Sabrina Suemy fez um projeto de conclusão de curso de Design de moda lindo: “Uma coleção inspirada nas indumentárias e visões estéticas japonesas, tendo como foco principal a filosofia Wabi-Sabi. Este pensamento conceitua a apreciação de uma beleza não convencional, cujo tripé essencial baseia-se em três pilares: da imperfeição, da incompletude e da impermanência. Seguindo este pensamento, os looks foram confeccionados em tecidos de fibras naturais, que demonstram melhor a ação do tempo sobre a matéria; além do reaproveitando de calças e resíduos provenientes do jeans, transformando-as em novas peças, ressaltando seus desgastes por meio de diferentes técnicas e experimentações artesanais. Desta forma, devemos aprender a aceitar nossas falhas e defeitos, e não as esconder como na maioria das vezes tentamos fazer, pois são nelas que carregamos as experiências da vida”. Para ver mais do trabalho dela é só seguir no Instagram e no Facebook: @miamoto.suemy.

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Mas e no mundo do entretenimento? O que aconteceu?

1. Para Todos os Garotos que já Amei
Eu não poderia deixar de mencionar o quanto foi importante ver a Lana Condor como protagonista de uma comédia romântica adolescente. Foi muito legal saber que as adolescentes asiáticas conseguiram se identificar e se envolver ainda mais com a história pelo fato da personagem ser uma asiática americana.

2. Podres de Ricos
O filme trouxe um longo debate sobre a importância da representatividade em Hollywood. É muito louco pensar que faz 25 anos desde que o último filme composto majoritariamente por asiáticos foi lançado. O filme recebeu 92% de aprovação da Rotten Tomatoes na semana de estreia lá nos Estados Unidos, além de render duas indicações ao Globo de Ouro por Melhor Filme de Comédia/Musical e a Constance Wu sendo indicada como Melhor Atriz de Comédia/ Musical.

3. K-pop
Algo que também não saiu das nossas cabeças foi, sem dúvidas, o K-pop. Não podemos negar o boom que rolou no mundo da música, né?

Bom, 2018 foi um ano intenso demais. Assim como esta matéria. Sei que deixei passar alguns acontecimentos, mas se eu continuasse teria que separar em várias partes. Eu espero que a gente continue se descobrindo e conhecendo pessoas incríveis que fazem a diferença. Se quiser me indicar algum projeto ou contar a sua história, pode me mandar um e-mail no (melissaery@gmail.com) ou me chamar para conversar no Facebook ou Instagram, ambos @MelissaEry.

Um beijo,
Melissa Ery

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