Racismo: aluna que denunciou professora de faculdade conta o que aconteceu

A CH conversou com a estudante da Faculdade Cásper Líbero que passou por um episódio de preconceito racial com um docente da instituição

Por Thais Varela - Atualizado em 28 abr 2018, 11h14 - Publicado em 26 abr 2018, 17h05

Para começar esta matéria, separamos alguns dados importantes sobre a população negra brasileira: de 100 pessoas que sofrem homicídio no Brasil, 71 são negras. 65,3% de todas as mulheres assassinadas no país em 2016 eram negras. O percentual de mulheres brancas que completaram o ensino superior (23,5%) é o dobro de pretas e pardas (10,4%). As informações foram retiradas, respectivamente, do Atlas da Violência 2017 publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e do estudo da Pnad Contínua 2016, do IBGE.

Números alarmantes, né? Em pleno 2018, com toda a informação que possuímos sobre a disparidade social da população branca em relação a negra e os problemas que o preconceito racial acarreta, ainda existem pessoas que afirmam que ‘não existe racismo no Brasil’. Foi com essa frase, inclusive, que uma professora do curso de Publicidade e Propaganda da faculdade paulista Cásper Líbero tentou se justificar após ser questionada por alunos sobre comentários racistas que havia feito em sala de aula.

B.S, de 20 anos, é uma estudante negra da instituição e estava na turma da professora. Foi ela, junto com alguns colegas, que questionou a docente sobre os comentários preconceituosos. À CH, ela contou que não foi a primeira vez que percebeu falas racistas da professora: “No primeiro dia de aula, ela começou a se apresentar e contou que tinha feito pós-graduação na Europa e que no começo do curso os alunos ficaram curiosos quando souberam que tinha uma brasileira na sala. Mas, quando viram que era ela, ficaram decepcionados, porque esperavam uma mulata e viram que era uma pessoa normal. Achei esse comentário racista, mas conversei com alguns amigos e ninguém percebeu, então deixei para lá porque ela poderia ter apenas escolhido mal as palavras”.

Porém, um novo episódio de preconceito racial com a mesma pedagoga fez B.S decidir tomar uma atitude: “Um mês atrás, mais ou menos, antes da aula começar, a professora se aproximou de uma aluna que estava mexendo no álbum da Copa. A menina estava com a página da Nigéria aberta e a professora pediu para ela mostrar o time da Croácia e disse que só tinham pessoas bonitas lá. Em seguida, ela falou para a aluna voltar na equipe nigeriana e ao ver um jogador branco disse que achava que só haviam negros na Nigéria. Depois, ela ainda apontou para um jogador com um black power e falou que não sabia como ele mexia no cabelo, porque ele não deveria conseguir pentear e os fios deveriam formar ninho”.

iStock/Reprodução

A aluna que a professora conversou ficou perplexa com os comentários, mas, na hora, não soube o que fazer. Quando a B.S chegou na sala, ela contou o episódio e elas combinaram de falar com a docente no final da aula. “Na hora da conversa, minha amiga começou o assunto – porque a situação aconteceu entre elas – e disse que achou os comentários dela preconceituosos, mas, por ser branca, ficou insegura de falar algo e então comentou comigo – que sou negra – e que eu também achei preconceituosos. A professora se fez de desentendida e disse que não sabia do que a gente estava falando, então nós mostramos de novo o álbum da Copa e ela falou que nós havíamos entendido errado. Eu passei a conversa toda tentando explicar porque eu estava ofendida e ela apenas nos tratava com ironia e dizia que não existe racismo no Brasil. Ela não pediu desculpas em nenhum momento, então eu decidi sair da sala”.

“Fiquei no corredor esperando meus amigos, que ainda estavam tentando explicar para ela a situação, quando a professora saiu da sala e me disse que estava triste de saber que eu tinha me magoado com ela. Eu disse que não era mágoa, mas decepção por ver uma pessoa com estudo, uma professora e formadora de opinião tendo esse tipo de atitude. Então ela disse que queria fazer uma coisa faz tempo e pegou no meu cabelo antes mesmo de eu dizer não. Eu fiquei revoltada e fui embora. Depois que eu saí, a professora ainda falou para uma amiga minha que eu tinha complexo de inferioridade e que várias pessoas já pegaram no cabelo dela e ela não achou ruim”.

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Após essa discussão, a B.S decidiu comunicar à faculdade o ocorrido e procurou o coletivo negro da instituição e membros da coordenação. Depois de algumas semanas de apuração, a faculdade demitiu a professora. “Eu comecei a conversa com ela apenas para informar mesmo, porque nem sempre a gente percebe quando faz ou fala algo preconceituoso. Mas, a partir do momento que alguém fala que se sentiu ofendido por algo que você fez ou falou, é preciso rever sua postura. Eu queria que ela entendesse que não podia externar o preconceito dela para a sala, porque as pessoas poderiam achar que aquele discurso é aceitável”, disse B.S.

Racismo é crime e, infelizmente, ainda é uma triste realidade para as pessoas negras no Brasil. Esse tipo de ação não deve ser tolerada em nenhum lugar, seja na escola, faculdade ou trabalho. Dizer que se sentiu ofendida, conversar com a pessoa que fez um discurso preconceituoso e tomar uma atitude sobre a situação é o seu direito. Não podemos deixar para lá!

Em contato com a Faculdade Cásper Líbero, a instituição confirmou a demissão da professora e disse que não irá comentar sobre o assunto.

 

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