Quais são os principais riscos que uma gravidez na adolescência traz

O risco de mortalidade materna dobra entre jovens gestantes com menos de 15 anos e de baixa renda.

Por Isabella Otto Atualizado em 8 fev 2020, 11h01 - Publicado em 8 fev 2020, 10h01

Desde 2019, no início de fevereiro, acontece a Semana Nacional de Gravidez na Adolescência, instituída pelo Governo do Brasil. Neste ano, rolou uma polêmica quando a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, divulgou que aproveitaria a semana para lançar a campanha “Tudo Tem Seu Tempo”, que pretende combater a gravidez precoce incentivando a abstinência sexual entre jovens, no melhor estilo “quem não transa, não engravida”.

Adolescente grávida em comunidade do Rio de Janeiro. Igor Alecsander/Getty Images

O Brasil é um dos países da América Latina com maior índice de gravidez na adolescência e é também um dos países em que a taxa de casamento infantil é mais alta, princialmente em estados de baixa renda. Nada disso é coincidência, o que já quebra de antemão o discurso óbvio da ministra. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a mortalidade materna é uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 24 anos nas Américas e o risco dobra entre meninas com menos de 15 anos e de baixa renda.

Conversamos com a Dra. Karina Tafner, ginecologista, obstetra, especialista em Endocrinologia Ginecológica e Reprodução Humana pela Santa Casa e especialista em Reprodução Assistida pela FEBRASGO, para entender quais são os principais riscos para a saúde que uma gravidez na adolescência traz, lembrando que toda gestação adolescente é precoce.

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    A especialista explica que a realização tardia do pré-natal é um dos principais fatores de risco. Karina lista os porquês dessa demora: “as alterações fisiológicas dessa faixa etária, como os ciclos menstruais irregulares nos dois anos pós-menarca, e a falta de conhecimento do funcionamento do próprio corpo e/ou a não aceitação“. Ou seja, nem sempre a garota sabe que está grávida ou, quando sabe, prefere esconder ou negar sua condição por medo ou insegurança.

    Para a ginecologista e obstetra, “outros fatores, como raça, estado civil, baixa escolaridade e pobreza também influenciam no risco final, pois estão diretamente relacionados com o comprometimento na procura e realização de um pré-natal”. Entre as maiores complicações da gestação na adolescência, temos a Pré-eclâmpsia (que é o aparecimento da pressão arterial alta no início da gestação, que pode levar a complicações na gravidez e no parto), a Rotura Prematura de Membranas Ovulares (o RPMO predispõe ao parto prematuro e pode levar a complicações como infecção na mulher, no neonato ou em ambos, apresentação fetal anormal e/ou descolamento prematuro da placenta), a ITU (Infecção no Trato Urinário), doenças cardíacas e da tireoide, síndromes hemorrágicas e depressão pós-parto.

    Adolescente segurando um teste de gravidez, que deu positivo. Image Source/Getty Images

    É importante ressaltar que o feto também pode correr grandes riscos, o que chamamos de complicações neonatais, como prematuridade, BPN (baixo peso ao nascimento) e crescimento intrauterino retardado. “Nem toda gravidez na adolescência é de alto risco. Para que ela transcorra sem maiores complicações, é importante que a captação para o início do pré-natal seja realizada o mais precocemente possível”, alerta a Dra. Karina. Entretanto, é mais indicado que uma gestação ocorra após os 19 anos, quando, de acordo com a OMS, a adolescência chega ao fim e a menina entra na idade adulta, física e mentalmente falando. Afinal, além de a adolescência já ser uma fase em que a garota passa por diversas mudanças corporais e hormonais, ela também enfrenta mudanças sociais muito grandes, envolvendo estudos e trabalhos que, na maioria das vezes, precisam ser interrompidos por causa da gravidez.

    No Brasil, segundo o Sinasc (Sistema de Informação Sobre Nascidos Vivos), a gravidez na adolescência teve uma queda de 17% entre 2004 e 2015 – mas ainda está aquém da taxa de outros países da América Latina, como Chile e Argentina, conforme destaca a ginecologista Karina. Para a especialista, mais acesso a métodos contraceptivos, a informações e a consultas ginecológicas com orientação adequada são as principais armas na guerra contra a gravidez precoce, um problema que pode ser considerado de saúde pública no país. “O binômio informação e acesso a centros de saúde é que dita as regras da contracepção, pois a maioria das adolescentes não sabe se prevenir de forma adequada, não compreendendo o funcionamento de cada método, utilizando-o de maneira errônea ou, simplesmente, abandonando seu uso por questões pessoais“.

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