‘Pensei que morreria’, diz jovem que perdeu tudo na tragédia de Mariana

Adolescente conta como foi ver a lama invadindo a sua cidade, uma das mais antigas de Minas Gerais, e como está a vida após a tragédia.

Por Da Redação Atualizado em 25 jan 2019, 15h47 - Publicado em 17 nov 2015, 14h07

“O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

(…)

A dívida eterna.”

Lira Itabirana, Drummond (1984)

É sempre muito difícil conversar sobre perdas. Você usa meias palavras, dá um riso tímido para tentar aliviar a tensão. Você pergunta se está tudo bem, por força do hábito, quando sabe que não está. Eu sabia que não estava tudo bem quando conversei com a Eliziane Salgado, de 14 anos, que viu a sua vida ser levada junto com a lama proveniente do rompimento das barragens Fundão e Santarém, em Mariana, Minas Gerais, no dia 5 de novembro.

Cenas aéreas logo após o rompimento das barragens. (Foto: Reprodução)

Eliziane morava em Bento Rodrigues, região mais afetada pela tragédia. “Eu estava na escola. Era por volta das quatro horas quando a diretora chegou falando que a barragem tinha estourado. Todo mundo saiu correndo”, lembra a adolescente, que nem pensou em voltar para casa: “não tinha como. Eu só conseguia ver lama. Ela era meio grossa e vinha muito depressa. Junto com ela, vinha tudo. Casa, árvore, carro… Não sobrou nada da minha escola, só algumas paredes”.

O distrito de Bento Rodrigues está inabitável. Eli precisou dormir em uma estação de ônibus, em um ponto mais alto da cidade, região menos atingida, pois a única ponte que servia de saída estava destruída. “O resgate chegou umas cinco e meia da manhã, para ajudar a gente a atravessar o que restava da ponte”, conta a jovem, que estava com a mãe e os irmãos. Mas nem todo mundo que a estudante conhecia conseguiu se salvar. “Conheço um menino que morreu. Ele era amigo do meu primo. Ele estava na casa da avó e a lama levou os dois “.

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Até o momento, sete mortes foram confirmadas pela Prefeitura e alguns moradores de Mariana seguem desaparecidos. A Samarco, empresa de mineração responsável pelas barragens, cuja Vale é acionista, está prestando assistência às vítimas da tragédia, que não pode ser tratada como acidente. As barragens já apresentavam graves rachaduras há anos! “Minha família e eu estamos em uma pousada, com outras pessoas que perderam tudo, e a Samarco está cobrindo nossas despesas”, explica Eliziane, que afirma que a empresa, apesar de tudo, é importante para a economia da cidade.

Um peixe morto, um cavalo sendo resgatado e um tartaruga repleta de lama no “deserto de Mariana”. (Fotos: Reprodução)

Entretanto, o importante apoio financeiro não tem o poder de apagar o estrago. Quando perguntei o que Eli faria de agora em diante, essa foi a sua resposta: “eu nem imagino mais nada… Não sei para onde vou… Minha casa não existe mais. Minha escola também não. Estou estudando em um colégio provisório, junto com outras vítimas. É um filme de terror. Eu pensei que fosse morrer “, fala a adolescente, de um jeito quieto, ainda em choque com a repentina e injusta mudança de vida.

Talvez o grande problema do ser humano seja achar que nunca vai acontecer com ele e, enquanto isso, com certo descaso, ele torce para que não aconteça mesmo. Mas será que isso basta? Será que se torcermos bem forte, acendermos velas online e enviarmos correntes por mensagem, Mariana volta à vida?

QUER AJUDAR?

– Acesso o site juntos.com.vc e veja as formas contribuir.

– Confira se há algum ponto de arrecadação de roupas e mantimentos na sua cidade.

– Caso queira fazer uma doação em dinheiro, acesse o site da Prefeitura de Mariana .

– Contribua com a disseminação da verdade nas redes sociais.

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