Garotas denunciam casos de assédio que sofreram no trabalho

'Por que você acha que está sentada aqui comigo? Porque você é boa no que faz? Você só está aqui comigo porque é bonita.'

Por Amanda Oliveira - 24 set 2017, 20h15

No começo de setembro, o jornal Correio Braziliense publicou uma crônica sobre os dias de trabalho de uma nova estagiária na redação. Para quem não acompanhou a polêmica, o texto, escrito por Guilherme Goulart, era extremamente machista e tinha como foco principal comentar detalhes da aparência da jovem, especialmente em relação ao corpo dela, que os homens gostavam de olhar durante o expediente. “Desfilou pela redação, a balançar os quadris”, “tinha um único defeito: o namorado” e “decotinho perverso, coxas de fora, pezinhos docemente acomodados em sandalinhas” eram alguns trechos da publicação.

A fotógrafa Allaire Bartel criou um ensaio que mora as diferentes formas de assédio sofrido pelas mulheres diariamente. O profissional estava na lista. Allaire Bartel/Reprodução

O jornalista, que quis dar uma de Nelson Rodrigues, postou um pedido de desculpas no dia seguinte, reconhecendo o erro. “Criei uma personagem para mostrar que o problema do assédio às mulheres continua sendo uma realidade apavorante e assustadora. E é por isso que o problema deve, sim, ser abordado, apesar de eu tê-lo feito de forma totalmente equivocada“, escreveu Guilherme. Ele pode até ter tentado exagerar para chocar, mas o tiro saiu pela culatra. A crônica não só objetificou as mulheres como minimizou a capacidade profissional delas.

Infelizmente, nós, garotas, ainda somos vítimas de assédio no ambiente de trabalho. S. B., de 21 anos, conta que estava apresentando dados de uma tabela em uma reunião da empresa em que trabalhava, quando um dos conselheiros que estava na sala falou que queria marcar uma reunião particular para que ela “mostrasse a tabela toda” para ele. “Depois disso, minha chefe e outra moça que trabalha comigo falaram que a atitude dele foi ridícula e que eu não iria na reunião que ele propôs”, diz a estudante, que, obviamente, já tinha chegado à tal conclusão sozinha.

Reprodução/Reprodução

P.P., de 24, trabalhou em um banco de investimentos onde os funcionários e clientes eram, em grande maioria, exemplares do sexo masculino. Ela revela que, um dia, teve que faltar em uma reunião por um imprevisto e pediu que um colega fosse no lugar dela. “Quando ele chegou, um dos clientes soltou a caneta na mesa e falou: ‘ah, que m&rd@! Veio ele e não a gostosa’. Foi constrangedor sem eu nem estar lá”, afirma a jovem. Mais tarde, ela decidiu contar sobre o ocorrido para um cliente próximo e de confiança, que costumava almoçar com ela. “Fui conversar com ele e a resposta que recebi foi: ‘mas por que você acha que tá sentada aqui comigo? Por que é inteligente ou boa no que faz? Você está aqui porque é bonita e tem um corpo legal‘”, lembra. Percebendo a reação dela, ele ainda disse que só estava mostrando a realidade para que não se enganasse. A realidade em questão é o machismo tratado com tanta naturalidade.

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Algumas vezes, o assédio pode partir até mesmo das próprias mulheres – o que é ainda mais triste. A.P., de 20 anos, decidiu ir trabalhar vestindo uma saia. Fazia 30ºC no dia, então nada mais justo. A estudante, sabendo como algumas pessoas são, passou o dia inteiro se preocupando em “sentar direito”, até que, no final do expediente, uma das sócias da empresa a chamou para conversar. “Ela disse que minha saia estava curta e que nós, mulheres, temos que ter cuidado com as roupas que usamos. Ainda deu uma risada e disse: ‘você sabe como são os homens, né?‘”, conta, como se o assédio masculino fosse motivo de piadinhas. A funcionária se sentiu tão constrangida que ficou quieta, correu diretamente para o banheiro e abaixou a saia o máximo que conseguiu.

Reprodução/Reprodução

A.P. não deveria ter abaixado a saia, P.P. não está empregada só porque tem um ~corpo legal~ (mas porque é extremamente competente) e S.B. não deve mostrar sua “tabela” para ninguém que ela não queira. Esses casos de assédio no ambiente de trabalho, denunciados para a CAPRICHO, representam apenas parte da dura realidade que muitas mulheres enfrentam, independentemente do cargo. Relate o caso para um superior, faça uma denúncia formal e, o mais importante, não fique calada nem acredite que você é menos capaz profissionalmente que um homem. 

 

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