‘Eu não vou abaixar a cabeça e optar pelo caminho fácil. Eu vou lutar pela minha escola!’

Adolescentes lideram movimentos e ocupações contra a reorganização do ensino no estado de São Paulo

Por Da Redação Atualizado em 2 ago 2016, 18h45 - Publicado em 12 nov 2015, 14h13

Imagine ter que, de uma hora para outra, mudar de colégio e refazer toda a sua rotina? E se você tivesse que se separar dos seus melhores amigos de muitos anos? E, pior, o que você faria se tivesse que ir para um colégio superlotado? Complicado, né? Pois é, essa é a situação que muitos adolescentes de São Paulo estão enfrentando.

Nós já falamos aqui sobre a reorganização de ensino, uma proposta do governo de São Paulo para que as escolas estaduais tenham foco em um único ciclo. É que, hoje, o ensino no Brasil é dividido em três ciclos: Fundamental I (do 1º ao 5º ano), Fundamental II (6º ao 9º ano) e Ensino Médio (1º ao 3º ano). A ideia é que, a partir do ano que vem, as escolas sejam mais específicas. A justificativa é que assim as escolas podem dar uma “atenção” especializada à faixa etária de cada aluno. Ou seja, uma escola que tenha Ensino Fundamental e Médio pode passar a ter só o fundamental, e vice-versa.


Foto: Escola Estadual Fernão Dias/Malu Pinheiro

Na terça-feira, a Escola Estadual Fernão Dias foi ocupada por alunos que são contra essa reorganização. Lá, o Ensino Fundamental será fechado e os alunos mais novos serão realocados em outros colégios. A Fernão Dias passará a ter foco apenas no Ensino Médio, recebendo novos alunos de outros lugares. Lizandra Lima, aluna do 1º ano, disse que o objetivo dessa ocupação é ter voz. “Minha escola já é superlotada, só de primeiro ano temos 14 salas, com mais de 40 alunos em cada. Nós não temos material suficiente nem para nós mesmo, imagina com uma escola nova aqui dentro. Ninguém falou sobre reforma ou melhorias”, disse Lizandra.

Já Daniele, que tem 16 anos, deixará de estudar na Fernão Dias. A reorganização prevê também mudança de alguns alunos para escolas mais próximas de suas moradias, mas isso nem sempre reflete algo bom, né Dani? “A minha situação é complicada, porque perto da minha casa as escolas não são tão boas – e até um pouco assustadoras. E eu, que quero ter um futuro melhor, preciso de um ensino melhor também. Eu escolhi estudar aqui”, desabafou.


Foto: Alunos continuam ocupando a Escola Estadual Fernão Dias/Malu Pinheiro

Fernão Dias foi a primeira escola a ser ocupada e logo a Polícia Militar já a cercou, impedindo mais alunos de entrar. A ocupação já dura três dias e cerca de 30 alunos permanecem acampados dentro da escola. Fora dela, professores e outros adolescentes manifestam seu apoio. “Eu entrei na terça-feira, quando teve a ocupação. Fiquei lá por 12 horas até que, por medo da Polícia Militar, eu preferi sair”, contou Daniele.

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#nãofecheminhaescola essa é, a meu ver, a manifestaçao mais bacana que ta rolando. Esses meninos e meninas estão mostrando e aprendendo como se luta, com propriedade e respeito.

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Enquanto isso, do outro lado da cidade, na Zona Leste, Stephanie Presutti, adolescente de 15 anos e moradora da região da Penha, está organizando uma manifestação contra o fechamento de duas escolas. “Aqui a comunidade inteira também está unida. O nosso movimento envolve a Escola Estadual Thereza Dorothea e a Escola Maria Aparecida de Castro Masiero, que estão tendo o Ensino Médio fechados. Todos os alunos do ensino médio serão realocados em uma escola chamada Escola Estadual Maria de Carvalho Senne “, explica a Stephanie, que está no primeiro ano do ensino médio.


Foto: Manifestação dos alunos da Escola Maria Aparecida de Castro Masiero

Todo o problema está na questão de que ninguém foi consultado antes dessa mudança. Segundo a adolescente, tanto alunos, quanto professores e funcionários souberam apenas por uma reportagem na televisão . A partir daí, alunos dessas escolas resolveram se mobilizar e organizar a primeira manifestação da região, que aconteceu na manhã de hoje e fechou a Radial Leste, uma das principais vias de São Paulo. “A nossa escola, Masiero, luta há décadas para conseguir reformas no prédio, já que ele é bem precário. Em meados de outubro, de uma hora para outra, nós recebemos uma grande reforma. Ninguém imaginava que isso tinha a ver com a proposta de reorganização estudantil do governo, até que, no começo de novembro, nós ficamos sabendo que o ensino médio iria fechar”.

A Stephanie e suas amigas buscaram ajuda e apoio de outros alunos e professores para começar essa movimentação. “Todo mundo se conhece, é uma grande família dentro da escola. Saber que isso tudo iria se perder, foi um choque” . Além disso, a jovem também contou estar muito triste por finalmente receber uma reforma no colégio e, então, ter que sair de lá: “A gente queria tanto uma reforma na escola e agora que tínhamos conseguido, não vamos desfrutar disso. Muito pelo contrário, ficaremos em uma escola superlotada . Tenho amigos que se antes demoravam meia hora para chegar na escola, agora vão demorar mais de uma hora . É muito triste tudo isso!”.


Foto: Alunos da Escola Maria Aparecida de Castro Masiero

Juliana Costa, de 15 anos, também é aluna do Fernão Dias e participou da Assembleia que teve antes da ocupação. “Estamos no final do ano, uma época bastante complicada, com provas e notas finais, mas acho que temos que lutar pelos nossos direitos. Agora, vê se o Governador visitou as escolas ou passou nas salas de aula para perguntar o que nós queríamos ou achávamos?”, questinou a aluna, que acredita não haver diálogo .

Ontem, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, afirmou que o Secretário de Educação, Herman Voorwald, está à disposição para receber pais e responsáveis e esclarecer todas as informações sobre o processo de reorganização. De acordo com o Governo, o plano tem dois objetivos: melhorar a qualidade da escola pública e acabar com a ociosidade de algumas escolas. Até o momento, seis colégios estão ocupados, três em São Paulo e as outras em Santo André, Osasco e Diadema. O plano de reorganização da educação do Governo do Estado pretende fechar 94 escolas, afetar 74 mil professores e 311 mil alunos até o início de 2016.

Mesmo com as explicações do Governo do Estado, alguns alunos, como a Stephanie da Escola Maria Aparecida de Castro Masiero, se sentem lesados com as mudanças propostas. “Eu vejo mais pontos negativos do que positivos”, conta a estudante, que desabafou: “eu não vou abaixar a cabeça e optar pelo caminho mais fácil. Eu vou lutar pela minha escola”.

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