Estas histórias provam que o único “pai padrão” é o que se faz presente

Não importa se existe ou não parentesco, se é homem ou mulher, gay, hétero ou transexual; o que importa é se fazer presente e criar vínculos de respeito

Por Gabriela Junqueira Atualizado em 16 ago 2020, 11h25 - Publicado em 9 ago 2020, 10h01

Idade, gênero, orientação sexual e, às vezes, até mesmo sangue não definem o conceito de família, que vai muito além: é amor, troca, relação saudável, é estar presente. Neste Dia dos Pais, Fernanda, Tamires, Ana Paula, Thayná, Lara e Nathália mostram na CAPRICHO que as figuras paternas não devem ser pautadas em cima das ultrapassadas propagandas de margarina, famosas por reproduzirem padrões heteronormativos.

Fernanda Sant’Anna, de 14 anos, tem dois pais: o Cézar e o Leandro. “Brincamos bastante um com o outro e conversamos sobre tudo”, conta. Cézar é um homem transexual e a adolescente revela que essa nunca foi uma questão para ela, que sempre se preocupou com a felicidade dele em primeiro lugar. “Quando meu pai me contou sobre a transição, eu chorei um pouco, confesso, porque achei que ele deixaria de ser minha mãe. Agora sei que ele sempre vai ser a pessoa em que eu mais confio no mundo! Ele sempre fez tudo para que eu fosse feliz e ele precisa ter esse direito também”, garante Fernanda.

Fernanda ao lado do pai Cézar Sant’Anna Acervo pessoal/Reprodução

Para Fê, o momento mais emocionante foi quando ela viu a barba do pai crescer. “Estávamos em um restaurante e, quando vi uns pelinhos, fiz uma festa! Sabia que isso deixaria ele muito contente”, lembra. Juntos, eles gostam de assistir a filmes e andar de patins. Com o pai Leandro, Fernanda costuma passar as férias e fazer muitos passeios, já que hoje os pais estão divorciados: “Essa semana mesmo nós fomos a uma fazenda e eu ordenhei uma vaca. Foi bem diferente!”

Aos 6 meses, Tamires Pisciotta foi adotada por Márcio e Kátia. “Meu pai sempre foi meu grande herói, referência em muitos aspectos, principalmente por ser uma pessoa batalhadora”, diz a jornalista. Sobre a infância, a jovem conta que o pai era seu melhor amigo e que sempre a deixou livre para viver e ser. “Ele, por exemplo, deixava eu brincar como eu quisesse: de carrinho, bola, com os meninos…”, lembra.

Quando era mais nova, Tamires adorava ver filmes com o pai. O favorito dela é Esqueceram de Mim, por causa do pai. “Nós só tínhamos o VHS em inglês e ele traduzia para mim. Eu achava o máximo!”, afirma ao falar sobre as memórias da infância.

“Entre tantas crianças do orfanato ele me escolheu e eu o escolhi”, diz Tamires sobre o pai Acervo pessoal/Reprodução

Apesar de trabalhar muito, Tamires garante que Márcio é um pai presente e se dedica muito às filhas. Com a rotina da quarentena, eles começaram a se aproximar ainda mais, passando a assistir a mais filmes juntos, conversando, escutando música e até fazendo as compras do mercado. “O que eu mais amo nele é que, entre tantas crianças do orfanato, ele me escolheu e eu o escolhi. Não poderia ter pedido pai melhor“, conclui.

A história da estudante de Psicologia Thayná Correa é bem diferente. Aos 13 anos, seu pai biológico acabou falecendo e, apesar de a mãe fazer parte da sua vida, ela encontrou na avó materna a figura paterna que deixou de existir. “Estamos acostumados a ver e até identificar a família apenas como o pai, a mãe e os filhos, e nos esquecemos de como é amplo esse conceito e que, dentro dele, não importa quem ou em qual fase, o amor dedicado ao outro prevalece”, analisa.

Thayná ao lado de Dona Therezinha, de 88 anos Acervo pessoal/Reprodução

Thayná relata que foi Tereza, conhecida como Dona Terezinha, mãe de 16 filhos, quem a criou, sempre incentivando uma educação baseada em respeito e amor. “Mesmo sem concluir os estudos, quem ajudava nas tarefas era ela. Até quando não sabíamos o que comer, ela aparecia com alguma coisa que com certeza queríamos”, conta Thayná.

Em 2015, Thereza teve dois AVC, que fizeram a senhora precisar mudar sua rotina ativa. “Muitas vezes, não entendemos o porquê das coisas, mas eu não poderia ter sido criada de outra forma”, garante Thayná, que defende que, para a criança, não importa quem cria, se existe ou não parentesco, se é homem ou mulher. “O que vai impactar no seu desenvolvimento é o vinculo estabelecido com o responsável”, garante a psicóloga.

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A estudante de Medicina Ana Paula Macedo contou para a CAPRICHO que o pai é um grande amigo Acervo pessoal/Reprodução

Ana Paula Macedo, de 21 anos, é estudante de medicina e tem como melhor amigo seu pai! “Até para desabafar sobre minhas desilusões amorosas – e ouvir que ia passar – conto com ele. A verdade é que nenhum presente material conseguiria traduzir o amor e a gratidão que sinto pelo senhor Glicio. De fato, sou privilegiada por ter um pai tão presente, amigo e confidente fiel“, conta a universitária.

Aliás, foi Glicio, seu pai, quem mais comemorou quando Ana passou no vestibular que desejava. “Não gosto de clichês, mas meu pai é realmente um exemplo para os três filhos. Eu admiro como ele leva a vida com tanto bom humor e leveza. É difícil vê-lo bravo. Ele é o porto seguro, que me ampara nos momentos mais difíceis. É a voz que me aconselha quando não sei o que fazer, é o abraço que me acolhe quando eu erro e o grito que vibra comigo a cada conquista”, emociona-se.

À esquerda, Lara ao lado do pai Osmar e da irmã Débora, À direita, o padrasto Régis À esquerda, Lara ao lado do pai Osmar e da irmã Débora, À direita, o padrasto Régis/Reprodução

Lara Palma, de 20 anos, também tem dois pais: um é o biológico e o outro é o padrasto. “Eu gosto de dizer que tenho dois pais, porque a minha relação com meu pai biológico é perfeita, mas minha relação com o namorado da minha mãe, que considero meu padrasto, é tão incrível quanto”, conta a estudante de Terapia Ocupacional.

“Acho muito engraçado como as minhas amigas também veem ele como um segundo pai. A relação que ele tem com elas e as pessoas próximas de mim é muito boa“, diz. Os dois gostam de fazer tudo juntos, principalmente ver filmes, comer e viajar. “Nós amamos ir ao cinema! Inclusive, com a quarentena, estamos sentindo muitas saudades desse passeio”, lamenta.

Com o pai biológico, Lara também ama viajar, programa que costuma estar presente na rotina dos dois. Além disso, descobriu na quarentena que também curtem cozinhar juntos e aproveitar o tempo para testar receitas diferentes. Se com o padrasto ela gosta de ver filmes, com o pai ela curte maratonar séries.

Nathália Paracatu, de 17 anos, ao lado dos pais Acervo pessoal/Reprodução

E olha só mais dois pais chegando na área! Nathália Paracatu, de 17 anos, é filha de Manoel e Wellington. “Eu tenho pai em dose dupla! Eles são meus companheiros, meus melhores amigos. Sem eles, nem sei o que seria de mim. São exemplos na minha vida! São mais que pais, são professores. Eu tenho completa admiração por quem eles são. Eu os amo mais que tudo e ninguém vai destruir isso”, afirma a jovem.

Ser filha de um casal homossexual nem sempre é fácil no mundo em que vivemos, principalmente no Brasil, um dos países mais homofóbicos do globo, mas Nath nunca se importou com a opinião alheia. Há muita família “tradicional” que parece incrível, mas, na verdade, é toda desestruturada, e continua atacando outras famílias que não se encaixam no padrão imposto pela sociedade patriarcal sem ter moral nenhuma para isso.

Eu só tenho que a agradecer por tudo que esses dois homens fazem por mim. Eu nunca vou conseguir agradecer totalmente, mas espero que eles saibam que sou grata por tudo. E a única certeza que tenho na vida é que, enquanto eu existir, eles não vão estar sozinhos”, finaliza Nathália.

Pai é pai… Mas é tão mais! Ao mesmo tempo em que é simples. Ou deveria ser. 

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