“Enxergam corpos trans e com deficiência como a escória da sociedade”

Mulher transexual, deficiente física, feminista, escritora, militante e CEO: conheça a potência de Leandrinha Du Art

Por Isabella Otto 25 nov 2020, 16h08
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CAPRICHO/Sestini/Divulgação

Foi em 2017 que Leandrinha Du Art ganhou destaque nas redes sociais, ao trazer visibilidade para as causas PCD e LGBTQIA+. Mas a existência política da mulher transexual, que nasceu com Síndrome de Larsen, é muito mais antiga e vai além do espaço online. “A gente vive paralelos. O mundo da pessoa trans é o da marginalidade. A sociedade enxerga corpos trans como escória e, num país como o Brasil, o corpo com deficiência é visto e olhado com preconceito também. Em cima desses corpos, a gente tem o olhar de pena, de piedade, de cuidado excessivo e de retirada de autonomia. Então, quando qualquer pessoa olha para o meu corpo, vai enxergar esses dois momentos, e é aí que eu as convido para refletirem comigo e criarem uma nova possibilidade de corpo”, conta a ativista para a CAPRICHO.

Juliana Dias/CAPRICHO

Uma vez feito esse convite, não poderíamos recusar. Neste ano, presenciamos mais uma vez uma polêmica envolvendo a escritora J.K. Rowling, que usou declarações transfóbicas para deslegitimar a existência de mulheres. “Conheço e amo pessoas trans, mas apagar o conceito de sexo remove a habilidade de muitos discutirem suas vidas de forma significativa. Não é ódio dizer a verdade”, escreveu em junho no Twitter. Leandrinha pode não ter acompanhado a tour, mas é impossível não fazer relação sobre o posicionamento da escritora inglesa, que defende que mulheres trans não são mulheres, e o da escritora brasileira, que se considera uma mulher feminista. “É importante olhar para qual feminismo a gente está falando, uma vez que o feminismo não consegue abraçar mulheres com deficiência nem mulheres transexuais. É um desafio fazer essa narrativa contra a corrente. Sem dúvida nenhuma esses enfrentamentos virão em forma de ódio. Trabalhando na internet, tenho que estar preparada para receber esse hate 0800, única e exclusivamente por conta da minha existência. É bem complexo e delicado”, garante a ativista.

  • Se falta corpos e vivências dentro das vertentes do feminismo, nas eleições de 2020 tivemos uma maior representatividade, pelo menos em comparação aos anos anteriores. 25 transexuais e travestis foram eleitos no Brasil, de acordo com levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais. O resultado histórico é comemorado por Du Art: “É a continuação de uma avalanche! A cada dia mais, mais pessoas trans, pessoas negras, com deficiência e LGBTQIA+ vão ocupar seus lugares na política, que são seus por direito. Isso só mostra o quanto corpos plurais e diversos estão articulados também para fazer política, uma vez que esses corpos são políticos. A gente tem uma ideia muito errônea de que fazer política é ocupar uma cadeira dentro de um Parlamento, Câmara ou Senado, mas vai além! Seu corpo já é plural por si só. O fato de você reivindicar qualquer direito, reivindicar sua existência, já é um ato político”, dá o papo.

    Além de ter concorrido em 2018 ao cargo de deputada federal, Leandrinha Du Art usa hoje outras formas de fazer política, ocupar espaços e mostrar a potencialidade de seu corpo. Participar de eventos é uma delas! A ativista, que é estudante de Teologia, é uma das convidadas do evento internacional “UNIDAS: Mulheres em Diálogos”, que começa nesta quarta-feira, 25, em Salvador, na Bahia, e termina no próximo dia 28. A iniciativa, que é possível acompanhar online pelo YouTube, é uma realização da UNIDAS (Rede de Mulheres entre a Alemanha, América Latina e Caribe) em parceria com o Goethe-Institut e o Ministério Alemão das Relações Exteriores, que patrocina o projeto através do seu ministro Heiko Maas, e com apoio da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia (SPM-BA).

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    “Não é para as pessoas me tratarem como exemplo de superação, não é para as pessoas me tratarem como exemplo de força, como totem. Muito pelo contrário! Eu tinha todos os motivos para desistir, mas eu decidi mostrar para o mundo a potencialidade do que eu represento, e a partir daí ser ponto de partida para outras histórias, não simplesmente inspiração ou símbolo de determinação e coragem. As pessoas precisam entender que a Leandrinha Du Art não é forte o tempo todo. Ela também tem suas fraquezas e fragilidades”, finaliza Du Art a entrevista.

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