Drik Barbosa: “Quero liberdade para nós. Que a gente possa existir em paz”

À CAPRICHO, um dos maiores nomes femininos do rap nacional reforça que meninas "não têm que querer ser outra pessoa, mas aprimorar quem elas são".

Por Bruna Nunes Atualizado em 21 jun 2022, 17h25 - Publicado em 18 jun 2022, 10h00
Fundo azul, moldura com estrelas, foto da rapper Drik Barbora. Negra, cabelos castanhos com uma trança longa
Drik Barbosa conversou com a CAPRICHO com exclusividade: “Você tem que acreditar o tempo todo. Muita gente vai achar que você não vai chegar lá.” Adidas Br/Divulgação

Foi aos 14 anos que a rapper Drik Barbosa começou a compor suas músicas. “Eu era uma adolescente negra falando sobre as coisas que eu via e sentia nos meus raps”, contou em entrevista à CAPRICHO. Nas batalhas de rima em que participava, ela já exaltava a liberdade feminina e expunha suas vivências enquanto mulher e preta. “Naquele momento era muito mais sobre me conectar com as pessoas através do que eu vivia”.

Hoje, aos 30 anos, ela conseguiu executar um de seus planos de menina: transformar em arte aquilo que no início poderia soar apenas como a expressão dos sentimentos de uma adolescente da periferia de São Paulo – e quer inspirar outras meninas que pertencem a um cenário majoritariamente masculino a fazerem o mesmo: colocar o pé na porta.

fotografia da cantora drik barbosa segurando um microfone
Adidas BR/Divulgação

Em um papo exclusivo com a CAPRICHO, a artista falou sobre sua experiência na adolescência, como vê o machismo no meio do rap e o que espera promover com suas músicas. Atualmente ela é um dos nomes femininos mais importantes do rap nacional e se apresentará no Festival Cena neste sábado (18), em São Paulo, um dos eventos de prestígio do estilo musical. 

Drik diz que, para ela, meninas e mulheres, ao invés de tentar se encaixar, devem entender que “são únicas, que elas são incríveis, são muito inteligentes, potentes e criativas. Que elas não têm que querer ser outra pessoa, mas aprimorar quem elas são”. 

“Sabe, se eu tivesse ouvido isso na época que eu era adolescente, eu não tinha passado por muitas crises, muitas coisas que hoje eu reconheço. É importante saber que não é culpa nossa”, afirma a artista. 

Apesar de Drik se aventurar em mais gêneros musicais – ela tem músicas com Emicida, Matuê, Rael e mas também já fez parcerias com Pitty e Péricles – seu carro chefe sempre foi o rap, onde ela enfrentou – e ainda enfrenta – o machismo até se tornar referência nesta cena. 

“Quero liberdade para nós. Que a gente possa existir em paz, sabe? Que a gente possa escolher os caminhos que a gente quer seguir e não ter essas barreiras que impedem a gente de ser quem a gente é no mundo, que pressionam, que oprimem.”

Leia a entrevista completa:

CAPRICHO: Você compõe músicas desde muito nova. Como foi o processo de ver isso como profissão?

Drik Barbosa: Eu era uma adolescente negra falando sobre as coisas que eu via e sentia nos meus raps. Então, naquele momento era muito mais sobre me conectar com as pessoas através do que eu vivia e elas conectarem comigo através do que elas viviam também. Foi um longo processo até eu pensar ‘Ah, tá, é possível. E como vai ser possível? O que é que eu tenho que fazer para que isso seja possível?’ E por conta do machismo, eu sabia que ia ter que botar os pés em algumas portas para que elas abrissem, junto com outras mulheres, para que eu conseguisse estar em alguns espaços, conseguisse ser ouvida, ter a minha opinião respeitada.

Como você lida com o machismo da cena do rap, que traz machismo até mesmo nas letras das músicas?

Olha, eu já entrei no movimento sabendo que existem pessoas, e existindo pessoas, existem várias questões sociais que a gente tem que lidar e transformar. Mesmo ainda muito nova, eu sabia onde eu estava pisando. Quando eu chegava nas batalhas de rima que eu frequentei, eu via (vejo até hoje) uma maioria masculina e naquele momento eu ficava pensando ‘Poxa, mas por quê? Cadê as mulheres, que eu conheço, que eu já ouvi a voz?’ Tantas mulheres incríveis dentro do rap eu não via naqueles espaços. E aí, com o tempo, eu fui entendendo que muito disso faz parte de toda essa estrutura que impossibilita que outras mulheres também se sintam seguras para estar ali, seguras para se expressar, sabe?

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Sabe, se eu tivesse ouvido isso na época que eu era adolescente, eu não tinha passado por muitas crises, muitas coisas que hoje eu reconheço. É importante saber que não é culpa nossa

Na música “Liberdade”, você diz no refrão que “não é à toa que liberdade é no feminino”. Afinal, para você, o que é ser uma mulher livre? 

Menina… acho que é ter uma vida plena, assim como qualquer outro ser humano, sabe? Ter relações saudáveis, ter o nosso tempo com nós mesmas e gostar desse tempo, porque até isso é colocado  dentro dessas violências contra nós. Acho que a liberdade parte, primeiramente, da ideia de poder existir nos nossos corpos, existir na nossa potência, né? A música, “Liberdade”, fala muito sobre isso também. Ela começa falando: ‘a primeira coisa é gostar de si’. Autoestima também é você reconhecer esse poder que você tem, reconhecer seus direitos, correr atrás deles. E a gente sabe o quanto é complicado. Eu estou falando isso bem por cima, porque existem várias camadas extremamente violentas, que muitas mulheres são, infelizmente, obrigadas a viver até hoje.

Qual conselho você daria para uma jovem que quer ser livre, mas não se sente assim? 

É muito delicado falar sobre liberdade nesse lugar. Mas eu aconselharia essas meninas a entenderem que elas são únicas, que elas são incríveis, são muito inteligentes, potentes e criativas. Que elas não têm que querer ser outra pessoa, mas aprimorar quem elas são. Sabe, se eu tivesse ouvido isso na época que eu era adolescente, eu não tinha passado por muitas crises, muitas coisas que hoje eu reconheço. É importante saber que não é culpa nossa. A gente vive nesse sistema que infelizmente nos coloca nesse lugar, em que a gente se sente impotente e pequena, né? Então eu aconselharia isso, sabe? Procure ouvir pessoas, estar com pessoas. Consumir arte boa que vai te fazer colocar isso na cabeça e lutar contra esse sistema.

Qual a sensação quando os (as) fãs contam o quanto se identificam e se inspiram com suas letras? 

É uma grande responsabilidade, mas eu fico extremamente feliz, porque é por isso que eu divido a minha arte. Eu costumo falar que se não fosse para minha arte chegar em outras pessoas, e motivá-las a pensar e refletir sobre questões tão importantes, eu estava com as minhas letras e todos os meus cadernos aqui escondidos, não subindo palco para cantar. São as respostas dessas mulheres que me trazem mais motivação para continuar. E isso é extremamente especial para mim. Mostra muito que eu escolhi o caminho certo.

Se organizar pra fazer essa coisa acontecer e acreditar que isso vai rolar, sabe? Você tem que acreditar o tempo todo, porque muita gente vai dizer que não vai dar certo, mas você vai chegar lá.

Além de suas vivências cotidianas, o que inspira suas composições?

A vida no geral. Existem muitas pessoas que me inspiram artisticamente, tenho uma lista imensa de artistas que me inspiram, uma família que é muito inspiradora, amigos que são muito inspiradores, pessoas que eu acompanho… e a gente tem esse mundão gigante com tanta gente fazendo coisa legal. Tudo isso me inspira muito pra escrever. Há também as questões políticas que a gente está vivendo. Todo esse cenário pesado que a gente vive também me inspira a escrever no sentido de fazer com que a minha música possa agir de alguma forma dentro disso, pra gente mudar isso. Eu acho que a arte sempre teve essa potência de fazer a gente também olhar para questões sociais, raciais…

O que você diria para meninas que querem usar a sua voz no rap mas não se sentem seguras para isso? 

Eu acho que começa, primeiramente, com um entendimento. Por que você quer fazer isso? E não interessa a resposta, você só tem que saber o porquê. É esse propósito que vai fazer com que você passe por essas barreiras, que você enfrente as dificuldades para continuar fazendo o que você está fazendo. Isso é um ponto de partida. Crie um plano. Qual é o seu plano? Se você pensar ‘ah, eu quero fazer uma primeira música’, então, como fazer isso? Se organizar pra fazer essa coisa acontecer e acreditar que isso vai rolar, sabe? Você tem que acreditar o tempo todo, porque muita gente vai dizer que não vai dar certo, mas você vai chegar lá.

Assista um trecho do vídeo da entrevista:

@capricho @Drik Barbosa um dos principais nomes femininos do rap nacional, bateu um papo exclusivo com a #CAPRICHO! Seu objetivo é inspirar a liberdade feminina através da arte. Confira a matéria completa lá no site da CH 💖 #EntretêNews ♬ Chill Vibes – Tollan Kim

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