Brasil diz não para acordo que pretende diminuir produção de lixo plástico

"Foi uma surpresa para nós, porque no início do governo havia uma determinação em cuidar do tema lixo marinho", garante especialista.

Por Isabella Otto - Atualizado em 4 jun 2019, 20h12 - Publicado em 4 jun 2019, 14h00

Ativistas ambientais têm se mostrado bastante preocupados com o governo de Jair Bolsonaro, que vem tomando atitudes trágicas com relação ao meio ambiente. Entretanto, nem tudo parecia estar perdido, já que, nos primeiros dias de governo, foi dada prioridade à criação do “Plano de Ação Nacional de Combate ao Lixo no Mar”. Seriam investidos R$ 40 milhões para a medida, que, infelizmente, foi contrariada por uma atual decisão governamental.

Na última terça-feira, 21, foi confirmado que o Brasil não assinou o acordo global que visa diminuir a quantidade de lixo plástico. Quem validou a notícia foi Anna Carolina Lobo, gerente do “Programa Marinho e Mata Atlântica” do WWF Brasil, à jornalista Amélia Gonzalez, colunista de natureza do portal G1. “Foi uma surpresa para nós, porque no início do governo havia uma determinação em cuidar do tema lixo marinho”, disse Anna. Em 2018, António Guterres, secretário-geral da ONU, já havia alertado sobre a preocupante realidade em que vivemos: “O mundo está sendo inundado por resíduos plásticos prejudiciais”.

Poluição do rio no entorno da comunidade Dharavi Slums, em Mumbai, na Índia. País também é um dos maiores produtores de lixo plástico do mundo! Thomas Young/Getty Images

Atualmente, 187 países fazem parte do tratado da ONU e se comprometem a encontrar ações que diminuam o descarte de plástico no mundo, desde a criação de programas efetivos de reciclagem até a vistoria do lixo, que engloba o descarte seguro e legal. Infelizmente, o Brasil e os Estados Unidos, dois dos países que mais produzem lixo plástico, se recusaram a assinar o acordo.

O posicionamento do país contra o tratado “Planeta Limpo, Pessoas Saudáveis: Boa Gestão de Produtos Químicos e Resíduos” mostra que talvez todas aquelas promessas de governo a favor do meio ambiente não saiam do papel tão cedo – ou não saiam nunca. No final de 2018, especialistas em ecologia e sustentabilidade já haviam se posicionado contra a possível fusão do Ministério da Agricultura com o do Meio Ambiente. Depois de muitos posicionamentos contrários, o governo voltou atrás, mas é visível que o Ministério do Meio Ambiente perdeu força nos últimos meses, assim como programas de proteção a indígenas.

Recentemente, Flávio Bolsonaro, filho do Presidente da República e senador do Rio de Janeiro, escreveu um projeto de lei que pede o fim das Reservais Legais, alegando que a “ecologia radical, fundamentalista e irracional” está dificultando o desenvolvimento do Brasil. Antes de Bolsonaro anunciar o bloqueio de verbas na educação, estudos para avaliar a proposta foram feitos e pesquisadores chegaram à conclusão de que, se aprovada, a lei pode destruir 30% de toda a vegetação nativa do país que ainda existe. Fala-se no afetamento de uma área total de 167 milhões de hectares.

Art-skvortsova/Getty Images

Seguindo nessa onda anti-ecológica, e ignorando a realidade do planeta em que vivemos, Jair Bolsonaro manifestou interesse em transformar a Estação Ecológica de Tamoios, uma reserva da Baía de Ilha Grande que serve de refúgio para várias espécies, atua como berçário natural e garante o sustento da comunidade local de pescadores, em uma “Cancún Brasileira”. Tempos antes, o presidente havia sido multado por usar equipamentos de pesca proibidos nessa mesma reserva. José Augusto Morelli, o então chefe do Centro de Operações Aéreas da Diretoria de Proteção Ambiental do Ibama, que aplicou a multa, foi afastado do cargo na sequência. O afastamento foi justificado como uma decisão administrativa e nada pessoal.

É triste, mas que, pelo menos, o “Plano de Combate ao Lixo no Mar”, dividido em 30 ações para os 100 primeiros dias de governo, não seja descontinuado – já que, visivelmente, não ganhou a atenção e o apoio que merecia.

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