As mulheres pretas que me deram força para eu ser quem sou hoje

Roberta Gurriti, nova colunista da CAPRICHO, sobre a (re)construção diária da mulher negra

Por Roberta Gurriti Atualizado em 3 abr 2022, 08h59 - Publicado em 3 abr 2022, 08h00

Acho que, assim como eu, a maioria das mulheres pretas já se sentiu inferior e insegura por grande parte da vida. No meu caso, começou na infância, quando meu cabelo, meus traços e minha cor eram diferentes da dos meus colegas.

Na escola, estive sempre presente na lista das “mais feias da sala”, não curiosamente um apanhado apenas de garotas pretas. Eu não entendia na época, mas hoje entendo. Ainda no colégio, essa foto me marcou muito:

Foto de uma criança negra, com os cabelos trançados e vestindo uma coroa de princesa. Ela está triste.
Minha foto de princesa do anuário Arquivo Pessoal/Reprodução

A famosa foto do anuário escolar não me traz boas lembranças. Dá pra ver na minhas cara a tristeza sentida quando a mulher responsável por fotografar todas as crianças disse que eu não poderia ser princesa, pois “não combinava” comgio e a coroa não encaixava no meu “cabelo duro”. Insisti e a foto aconteceu. Porém, eu já não estava mais feliz e animada como inicialmente.

Então, eu cresci, alisei meu cabelo e fiz por anos fotos apenas com a metade do rosto aparecendo, porque meu nariz era grande demais. Eu era uma criança ainda, mas a necessidade de me encaixar me tirou anos de uma vida mais tranquila.

No entanto, tudo isso me tornou a mulher autêntica que sou. Claro que hoje eu me sinto insegura (quem não?), ainda assim, acredito que faça parte da desconstrução que estamos aprendendo a cada dia. Ouço que meu cabelo é lindo, que eu sou linda, que meus traços são lindos… Mas se amar, na prática, é bem mais difícil que na teoria.

O importante é continuar exercendo o amor próprio a cada dia que passa. Eu não vejo mais o meu nariz como algo que estraga o meu rosto e sim como um complemento das minhas raízes. Eu tenho orgulho da mulher forte e determinada que sou, que se ama e se respeita. Tenho mais orgulho ainda de ter tomado a decisão, há 8 anos, de fazer a transição capilar e recomeçar. Hoje, o volume que eu via como um problema, está cada vez maior e tomando espaço por onde passo.

À esquerda, foto de uma bebê negra com o cabelo black power. À direita, foto dessa bebê adulta, ainda com seu cabelo black power
Meu antes e depois. Algumas coisas mudam, mas continuam iguais Arquivo Pessoal/Reprodução

Há muitas mulheres pretas que tenho orgulho de seguir e que me inspiram. Elas fazem parte da minha jornada, e me lembram todos os dias que é possível, que podemos sonhar e ser o que quisermos. O que seria de nós sem referências, afinal de contas? Pessoas que chegaram antes de nós, conquistaram espaços até então tido como impossíveis e que nos dizem em alta e clara voz: você também consegue!

Por isso, quero te apresentar as quatro mulheres pretas que me inspiraram a ser quem eu sou:

1. Taís Araújo

Eu sempre quis ser atriz. Já verbalizei isso várias vezes e sempre ouvia: “Você não tem o perfil”. Eu me questionava, já naquela época, qual seria esse perfil? Ter talento para isso não é o bastante? Quando vi a Taís nas telinhas pela primeira vez, eu soube que era sim possível. Ela é uma mulher incrível, usa sua voz e alcance para ajudar outras mulheres e lutar pelas causas que acredita. Ela é um exemplo de perseverança e resiliência.

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2. Octavia Butler

Octavia revolucionou a ficção científica e mudou para sempre a forma de contar histórias. Ela escreveu personagens que gostaria de ler, se identificar, e isso me encanta porque era exatamente o que eu fazia com 8, 9 anos. E faço até hoje. A paixão com que ela escreve cada livro, as histórias que conta[KD6] … Ela inspira e motiva a escritora que sou até hoje. Octavia anotava em cadernos textos motivacionais para si mesma e queria que as pessoas sentissem os mesmos que os personagens dela e sentimos em cada linha.

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3. Viola Davis

Ela se tornou a primeira mulher negra a conquistar a “tríade máxima” dos prêmios de atuação, uma vez que ela já tinha conquistado um Tony Awards em 2001, um Emmy em 2015 e o Oscar em 2017. Viola é uma fonte de inspiração, determinação e coerência. Seus discursos me arrepiam, ela é o exemplo de uma mulher forte e frágil ao mesmo tempo. Não se cala nunca e sempre defende o que acredita. Eu olho para ela e digo: “É esse tipo de mulher que eu quero ser.”

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4) Dona Joelma (vulgo minha mãe)

Não há como não citar minha mãe nesse texto. Eu agradeço a Deus todos os dias a mulher que ele colocou na terra para ser minha mãe. Uma mulher que sempre fez de tudo para cuidar de mim, me ver feliz e com tudo que eu precisava ter. Doméstica desde os 14 anos, ela sempre lutou para conquistar tudo que tem e ainda luta. Ela acordava às 4 horas da manhã e ia para a fila do colégio adventista para garantir, durante 9 anos, que eu teria uma bolsa para estudar em um colégio particular. Fez questão de me matricular no inglês, e sempre deixou claro o quanto correr atrás dos sonhos e estudar eram importantes.

Foto de uma mulher negra com sua filha na piscina. Elas estão felizes!
Minha mãe e eu há algum tempo Arquivo Pessoal/Reprodução

Sempre trabalhou na casa de outras pessoas que nunca a valorizaram e, tudo isso, engolindo vários sapos, para garantir que eu tivesse uma boa educação e nada me faltasse. Ela é um exemplo de mãe e mulher. Se eu for falar todas as suas qualidades e o quanto me orgulho da minha mãe, esse texto não terá fim. Mas, quero deixar enraizado nesse espaço[KD8] tão importante para mim, o quanto a amo e a admiro.

E para você? Quem são as suas inspirações?

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