‘America’s Next Top Model’ deixa novas gerações em choque

Redescoberto durante a pandemia, o reality tem sido criticado por exigir padrões irreais e normalizar comportamentos controversos.

Por Victor Evaristo 18 mar 2026, 17h23 • Atualizado em 25 mar 2026, 15h38
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reprodução de diversos comportamentos tóxicos considerados comuns em sua época tem sido veementemente criticada pelas gerações mais jovens desde a redescoberta do reality show America’s Next Top Model durante a pandemia do coronavírus.

A resposta da produção veio na nova série documental da Netflix, America’s Next Top Model: Choque de Realidade, que revê as principais fases do programa e tenta justificar muitos dos crimes cometidos no decorrer dos episódios – mas acaba falhando miseravelmente em praticamente tudo ao que se propõe.

Como nasceu o America’s Next Top Model

Durante a década de 90, Tyra Banks já era uma referência de sucesso. Uma das primeiras top models negra a furar a bolha, seu nome estava estampado em várias capas de revista, ao lado de uma incursão no audiovisual, ao estrelar o sucesso televisivo A Boneca que Virou Gente ao lado da iniciante, Lindsay Lohan – que havia protagonizado o remake de Operação Cupido no ano anterior, também produzido pela Disney – e emplacar o hit Be a Star (conhecido por aqui como Vou Brilhar, por muitas crianças que assistiram o filme na sessão da tarde).

Tentando se reinventar com a chegada do novo milênio, Tyra se uniu ao produtor Ken Mok  e conseguiu convencer a United Paramount Network – a UPN, que precisava urgentemente de um sucesso em sua programação – de produzir um novo reality-show que tinha a proposta de mostrar a indústria da moda por dentro e ajudá-la a se reinventar, unindo elementos de produções de sucesso, como Survivor (versão original de No Limite, da TV Globo, com colegas de elenco traiçoeiros e intrigas) e Fear Factor (com modelos posando em ensaios fotográficos com batatas, cobertas de vísceras de peixe e vestindo carne como roupa).

Nasce então, em 2003, o reality America’s Next Top Model, comandado pela própria Tyra, ao lado de jurados influentes no mundo da moda, como o maquiador e diretor criativo Jay Manuel, o coordenador de passarela Jay Alexander e o fotógrafo Nigel Barker.

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O programa explodiu rapidamente e logo já estava sendo exibido em mais de 150 países e recebendo suas próprias edições internacionais. Para manter a audiência lá em cima, não demorou para a produção do ANTM começar a introduzir narrativas e a desenvolver polêmicas que mexiam com a cabeça das participantes, ultrapassando o limite ético por diversas vezes.

Separamos alguns dos principais pontos que viraram pauta de reflexão sobre a atração.

Cultura da magreza extrema

A pressão estética imposta pelo ANTM reforçava padrões corporais extremamente restritos, nos quais a magreza era tratada como requisito básico para o sucesso. Comentários dos jurados frequentemente exploravam inseguranças físicas das participantes, chegando a situações emblemáticas, como a famosa cena da vencedora do décimo quinto ciclo, Ann Ward, que foi elogiada por ter “a cintura mais fina do mundo”, refletindo um ideal corporal praticamente inalcançável.

Além disso, o programa normalizava práticas prejudiciais e raramente oferecia suporte psicológico adequado, mesmo diante de sinais de sofrimento. A pressão estética não é benéfica para ninguém, em especial quando falamos de adolescentes ou de jovens adultas até 25 anos, quando o cérebro ainda está em formação, principamente nas áreas ligadas à identidade, comparação social e regulação emocional. Isso as torna mais vulneráveis a discursos visuais e simbólicos, como os que circulam sobre o corpo, aparência e sucesso.

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Jay Alexander medindo a cintura de Ann Ward
Jay Alexander medindo a cintura da modelo Ann Ward com as mãos durante a seleção de participantes. UPN/Reprodução

Assédio moral

Ao longo do reality, a condução de Tyra Banks frequentemente se apoiava na exposição emocional das participantes como forma de entretenimento. Um dos momentos mais marcantes envolve o confronto com Tiffany Richardson, participante que havia retornado ao programa após um histórico conturbado.

Ao demonstrar desânimo em um desafio, Tiffany foi duramente repreendida por Tyra no episódio que originou o famoso “I was rooting for you! How dare you?” (“Eu estava torcendo por você! Como você pôde?”, em tradução livre), evidenciando a humilhação pública como ferramenta narrativa.

Além disso, há casos ainda mais graves, como o da participante Keenyah Hill, que relatou estar sendo assediada por um modelo durante um ensaio fotográfico e decidiu interromper a sessão por se sentir desconfortável. Em vez de acolhimento, ela foi repreendida pela equipe por “atrapalhar” a produção e, posteriormente, teve sua postura questionada pelos jurados e pela própria Tyra, que chegaram a sugerir que ela deveria ter lidado melhor com a situação — inclusive selecionando uma foto que evidenciava seu desconforto, como a melhor do ensaio.

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@svvvccc02 When Tyra Banks yelled at Tiffany in America’s Next Top Model #tyrabanks #antm #americansnexttopmodel ♬ sonido original – Josué ValCe – Josué VC

Racismo

Além da pressão psicológica, o programa também foi alvo de críticas por episódios envolvendo discriminação racial e tratamento desigual entre participantes. Em um caso marcante, a modelo Dani Evans, vencedora de sexta temporada, foi pressionada a fechar os espaços entre seus dentes da frente, enquanto, em outra situação, a competidora Ebony Haith, do primeiro ciclo, também negra, sofreu críticas relacionadas ao seu cabelo, além de ser desacreditada por Tyra Banks.

Em contraste, quando participantes brancas adotavam elementos estéticos semelhantes, essas escolhas eram valorizadas, evidenciando um padrão desigual de julgamento. Somam-se a isso dinâmicas que incentivavam conflitos e levavam ao limite emocional, reforçando estereótipos por meio da edição.

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Keenyah Hill posando em meio a três homens. Um deles está acariciando a sua perna.
A “melhor foto” do ensaio de Keenyah Hill flagrou o momento exato do assédio sofrido pela atriz. Nigel Barker/Reprodução

A redescoberta de America’s Next Top Model evidencia mais do que mudanças no entretenimento: revela uma transformação no olhar do público. O que antes era consumido como drama televisivo hoje é questionado sob a ótica da ética, da saúde mental e da responsabilidade midiática. Nesse cenário, o reality deixa de ser apenas um produto de sua época e passa a funcionar como um retrato dos limites ultrapassados da indústria do moda e do entretenimento.

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