A moda que você veste é uma imposição ou realmente expressa quem você é?

A moda é objeto de manifestação, de reflexo e identidade. Ou, pelo menos, deveria ser. E é justamente sobre isso que quero refletir com você!

Por Blog da Galera Atualizado em 18 jun 2021, 15h43 - Publicado em 18 jun 2021, 15h40
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Barbara Marcantonio/CAPRICHO

Para início reflexivo, me conta uma coisa: o que você veste expressa quem você é? Me chamo Verena Sena e abrindo alas minha participação aqui no Blog da Galera, começo com uma matéria cuja temática tem super a ver com o que manifesto: a arte que é a moda ou, se preferir, a arte modelística!

Pessoas estilos diferentes de roupas, desde mais românticas até mais rocker
Os amigos estilosos que ajudaram Verena. Da esquerda para a direita, @bwatista, @xjamillyx, @modacronica, @annemodeloficial, @eutheusouza e @annabarros3 Arquivo Pessoal/Reprodução

Como dito no título, a manifestação de identidade na moda é sobre expressar sua personalidade no que você veste, compra e expõe. Nutrir a sua imagem! Para desenvolvimento do tema, convidei a consultora de estilo Sara Brunelli e alguns amigos, que me ajudaram com a reflexão (fica aqui meu agradecimento virtual a todos eles!).

É importante você saber que a Sara trabalha com a moda para além da vestimenta. Ela é consultora de imagem e estilo, e une moda à comunicação de uma forma revolucionária. Criadora do Moda Crônica, ela presta consultorias online e passou por uma forte transição de encontros e desencontros nesse processo de manifestação de identidade, estudando e se transformando sempre!

Inclusive, ela me contou que acompanhou a CAPRICHO durante sua transição e que amou o convite para participar desta matéria, que escolhi como ponto de largada e afirmo: o conceito da moda não é (apenas) sobre vestimentas, exposições fotográficas, desfiles e tutoriais “de como se vestir”. É preciso refletir sobre como há grandes impactos na forma como consumimos e a imagem que queremos transmitir, podendo, a partir da sua origem e posição, ser mira de uma sociedade altamente preconceituosa. “É uma briga constante entre querer ser quem a gente é, mas também ter que mostrar pro mundo quem a gente quer/precisa ser”, relata Sara.

Imagem de uma mulher olhando para a câmera. A mão está próxima do rosto e ela está com uma make preta carregada.
Sara Brunelli, da @modacronica @modacronica/Reprodução

Seguindo essa linha reflexiva, fiz quatro perguntas para consultora de estilo, sobre como a moda ganha força para além da vestimenta, e as vivências dessa expressão. Vamos lá:

Verena: Como você caracteriza a relação entre Sara Brunelli e a construção de identidade?
Sara: Para Sara Brunelli, construir identidade é um processo. De descoberta, de alegria, de choro, de experimentação. Mas eu falo de um lugar muito privilegiado. Pra muita gente, construir uma identidade significa esconder quem realmente é, e só criar uma identidade pro mundo. Isso não contempla, sabe? Não é o suficiente. Eu entendo a construção de identidade na moda por dois pontos: aquela que a gente constrói pra gente mesma e a que a gente constrói pro mundo. Óbvio que elas conversam entre si, mas nem sempre é amigavelmente. É uma briga constante entre querer ser quem a gente é, mas também ter que mostrar pro mundo quem a gente quer/precisa ser (e nessa segunda necessidade, a leitura do mundo é completamente pré-moldada, preconceituosa, padronizada, etc).

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Verena: Para você, o que é se manifestar?
Sara: É usar de algum recurso pra se expressar: em vontades, gostos, medos, dúvidas. A gente pensa muito em expressão quando lembra de coisas felizes e bonitas, mas a gente precisa expressar o que não é muito feliz e bonito também. Faz parte. Manifestar é justamente saber juntar isso tudo numa forma de expressão que faça sentir, e não necessariamente sentido sabe? A manifestação é sempre muito nossa, mesmo que vá para o mundo.

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    Verena: Atualmente, por que a questão da identidade alcança um grande questionamento e ascensão?
    Sara: Porque nunca antes tivemos tanto acesso a tudo o que temos hoje. E isso é lindo, e faz com que cada vez mais pessoas possam criar! Só que a gente se perde nisso, se deixa levar muito pela vontade de estar no mundo pertencendo a grupos e papéis sociais, sendo aceitos em tribos. E aí a gente se vê consumindo coisas que todos consomem, repetindo coisas que todos repetem, mesmo que não seja nossa essência. E a graça da identidade, pra mim, está nisso: buscar a nossa essência em tudo. Não querendo ser diferentão, único, exclusivo, mas se entendendo no meio de tudo. “Quem eu sou? Como eu quero me expressar? O que eu quero consumir? O que eu quero vestir? O que eu quero criar?” Pensar identidade começa por aí.

    Verena: Na sua biografia, tem escrito “Conhecimento, construção e diálogos”. Analisando o mercado nacional, hoje, as marcas de moda que você trabalha, estão atuando com esses propósitos?
    Sara: Sim. Hoje trabalho com marcas recém criadas e com propósitos magníficos, ideias fervilhando, inclusão e diversidade como pautas cruciais, dispostas a fazer moda de um jeito completamente novo. E é um processo. Eu sinto como um movimento, sabe? E convoco todo mundo a pensar novos jeitos de fazer moda, seja na produção ou no consumo.

    Uma modelo negra posando com um colete de pelinho preto e uma lingerie. À direita, modelos negros em editorial com roupas verde neon.
    Verena, da Galera CH, posando em ensaio para @dieegoficial. À direita, @ednei_william, @thmontteiro, @edurochan e @adilsonsantt para Editorial Prezentysmo Diego Rodrigues e Editorial Prezentysmo/Divulgação

    Consegue observar que palavras como “construção”, “propósito” e “privilégio” são citadas? Esses pontos são diretamente influenciados nos processos da identidade – para além da moda – e de como lidamos com eles. Uma moda que manifesta de forma rica e extensa a sua cultura é a Africana! Através de recortes e estampas, pode-se ver a história e a influência de um povo. Roupas e penteados hoje mostram como nossa forma de consumo e escolhas sofrem alterações de identidade. Pensamentos que “roupa boa é roupa de grife”, só que isso não existe. A realidade é mutável e questionável. A moda também! Você usa vestido midi por que se identifica com ele ou porque a família Kardashian mostra que ele é aceitável e um hit? Influências e falas não conduzidas podem ter acesso ao esconderijo da identidade. Ditar que “uma mulher não pode vestir x, porque pode parecer y” é verbalizar imposição social e preconceito, coisas que continuam sendo combatidas arduamente. E esse debate não é acessível! A informação não chega a todos. Quando se coloca o contexto histórico da moda no Brasil, há poucas décadas era somente válido na vida da sociedade elitista homens brancos e ricos, mulheres brancas e magras. As outras identidades da moda foram cruelmente apagadas. E ainda hoje a vivência modelística de forma expressiva é processual ou não vívida!

    Estamos estagnados ou caminhando em passos lentos? A moda é diversa ou nos inverte? Fazer com que essas perguntas se tornem ações inclusivas é o meu propósito! A moda é objeto de manifestação, de reflexo e identidade. Ou, pelo menos, deveria ser. Buscamos nos ver, ganhar grandes espaços, potências, mídias, escutas! Estamos caminhando de degrau em degrau, é um trajeto árduo, mas resistente. A quantidade de pessoas que querem e fazem a diferença, produzindo ações revolucionárias diante da moda, têm crescido nos últimos tempos. O dia a dia pandêmico influencia o aumento dos questionamentos e expressões. Eu estar aqui escrevendo para você ler é também um passo!

    Entenda a moda para além do conceito comum e pense em como você se relaciona com ela. Você já havia pensado através dessa ótica? Para mais manifestações modelísticas, me acompanhe também nas redes!

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