A fórmula do “sedutor do TikTok” é antiga e já fez muito menino famoso

Você pode não ter reparado ou julgar ultrapassado, mas Mario Jr. não foge muito de um padrão que só muda de endereço, ou melhor, de plataforma

Por Isabella Otto - Atualizado em 18 jul 2020, 11h13 - Publicado em 18 jul 2020, 10h06

É muito louco pensar que não faz tanto tempo assim que o YouTube era “terra de ninguém”. As pessoas postavam vídeos em baixa resolução, muitos nem eram criações próprias e, quando eram, tinham mais o intuito de eternizar uma zoeira entre amigos que qualquer outra coisa. Assistir a lives dos ídolos também era coisa complicada e para poucos que tinham acesso a uma boa banda larga. Você consegue lembrar, por exemplo, quem foi o primeiro “famoso da internet”? O primeiro viral é um vídeo de 1997 [acho que você nem tinha nascido, né?], que começou a circular por e-mail. Ele mostra um homem, chamado Vinny Licciardi, surtando no trabalho e destruindo seu computador. Na época, é claro, ele não foi chamado de viral.

Em 2002, foi lançado o Fotolog, uma rede social em que os usuários podiam publicar fotos com legendas. Um Instagram menos moderno e com menos recursos. A apresentadora MariMoon se tornou famosa na plataforma e, consequentemente, na internet. De cabelo colorido, piercing e um visual meio emo, ela era considerada “A” e-girl da época! Daí, em 2006, surgiu o Twitter e algumas contas acabaram ganhando destaque, como a da atriz Giovanna Lancellotti, a Garota Radical do clipe da Banda Cine, que fazia o maior sucesso com seu rock colorido. A Nah Cardoso também ganhou destaque nessa rede. Ela era do rolê do Happy Rock e já falava naquela época sobre seu amor pelo John Mayer.

Eis que chegamos a eles, sim, os Colírios CH! Foi nessa mesma época que a Manu Gavassi ficou conhecida na Galera CH, em 2009, e bombou ao lado de Federico Devito, Caique Nogueira e Dudu Surita. O trio começou a fazer tanto sucesso online que ganhou milhares de seguidores e até uma série, a Vida de Garoto. Muito provavelmente foram eles que abriram portas para outros meninos ganharem fama na internet criando conteúdo para adolescentes que os achavam fofos e bonitos.

Mario Jr. se inspirou em garotos como Bryce Hall e Josh Richards, ambos com milhões de seguidores online e bastante parecidos em jeito e conteúdo Barbara Marcantonio/CAPRICHO

No dia 21 de fevereiro deste ano, Mario Jr., de 20 anos, brasileiro que mora atualmente na Inglaterra, postou seu primeiro TikTok. Alguns meses depois, ele acabou viralizando e ficando conhecido como “o sedutor” do aplicativo, por causa do conteúdo criado. No geral, o jovem faz vídeos curtos interagindo com meninas que estão do outro lado da tela, falando sobre primeiro encontro, jantar romântico, beijo, escola, cavalheirismo, etc. Este formato de interação se chama “Point of Vision” ou, se preferir, POV. “Vi algumas pessoas fazendo algo parecido na gringa e a única coisa que fiz foi adaptar e remodelar para a forma que eu gostaria de fazer“, disse em entrevista para a CAPRICHO.

Ele deixa claro que levou um tempo para chegar ao formato, mas diz que nunca estudou muito sobre como fazer sucesso online: “A única coisa que eu acho que todo mundo faz é olhar o horário melhor para postar, que é à noite”. Hoje, com mais de 1.5 milhão de seguidores no TikTok e mais de 500 mil no Instagram, Mario Jr. foi considerado “o artista mais relevante do Brasil atualmente” pelo Chico Barney, colunista especializado em entretenimento do UOL.

A fórmula do sucesso

Aos 22 anos, Gregory Kessey tem hoje 13 milhões de seguidores, sendo 6.5 milhões no YouTube, 5.6 milhões no Instagram e 1.7 milhão no TikTok. Lá por 2015, tinha pouco mais de 50 mil no total. O crescimento foi grande e, há pouco tempo, o mineiro se mudou para São Paulo, para uma casa de três andares, sendo que o primeiro será um QG de gravações chamado “GK HOUSE”.

Para o influenciador, existem caminhos que deram e continuam dando certo. “Muitos amigos e colegas próximos já seguiram esses caminhos e tiveram sucesso. Em breve, pretendo lançar um curso tentando ajudar o máximo de pessoas a alcançar sucesso nas plataformas digitais”, contou Gregory para a CAPRICHO. Da mesma forma que Mario Jr. se inspirou em garotos que estão fazendo o maior sucesso na gringa com o POV, que transforma meninos que são considerados atraentes pelos padrões de beleza em potenciais amores platônicos de quem os seguem, Gregory, no início da carreira, se inspirava em Christian Figueiredo, que bombava na época fazendo vlogs, a novidade do momento. 

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Na internet e fora dela, cursos são oferecidos ensinando as pessoas a fazerem sucesso online. Alguns são pagos, administrados em convenções e faculdades, e outros são gratuitos e estão disponíveis para quem quiser no YouTube, com criadores de conteúdo transformando a ânsia pela fama em um negócio rentável. As dicas dos especialistas são sempre as mesmas: conheça seu público – crie algo novo – divulgue seu trabalho usando as redes sociais (ferramentas do Instagram, melhores horários, hashtags, conexão entre redes, etc) – não poste demais, mas também não poste de menos – seja autêntico. Gregory também deseja traçar o caminho de empreendedorismo: “Ser original e fazer algo que ninguém fez é um caminho, mas dá para pegar algo que alguém já fez e mudar deixando ainda mais interessante, usando sua personalidade”, garante o futuro coach de redes sociais.

Mas dá para criar algo novo ou tudo já foi inventado? Especialistas acreditam na rotacionalidade das redes. Por exemplo, uma pessoa pode se tornar conhecida fazendo algo que já existe, mas, muito por uma questão de carisma e por ser um novo rosto, dá certo. “Nas lives do TikTok, se você é maior de idade, as pessoas podem te dar presentes, e esses presentes contêm dinheiro envolvido. Mas é algo bem orgânico. Eu não me preocupo em ganhar dinheiro com o aplicativo. Me preocupo mais com as publicidades e outros meios“, afirma Mario Jr., que já fez alguns #publis recentemente, como com a Nestlé, e tem até assessoria.

Um ponto de partida

No meio online, o principal lema do marketing é “o conteúdo é rei”. Significa que a marca, que pode ser inclusive uma pessoa, precisa saber qual é seu público alvo e oferecer um conteúdo que atinja ele. Mas, cada dia que passa, o conteúdo pelo conteúdo não dá mais resultado. Com o “boom” de contas no Instagram, canais no YouTube, aplicativos e famosos da internet, é preciso achar um nicho e criar algo que passe um serviço para o usuário, mesmo que esse serviço seja “seduzir”.

Da esquerda para a direira, os Colírios CH, Gregory Kessey e o modelo Karl Kugelmann, um dos famosos do momento nas redes Barbara Marcantonio/CAPRICHO

Atualmente, o fenômeno de pessoas que se tornam famosas na internet, criam uma base leal de seguidores e se sustentam apenas do online é cada vez maior. E nem sempre a fama vem como consequência do sucesso, como em casos de atores que se destacam primeiro pelos seus trabalhos e depois viram famosos. Em muitos casos, a fama acontece pela fama e é buscada racionalmente. A pessoa precisa ser perspicaz, conseguir transformá-la em algo duradouro, criando novos trabalhos online, como marcas, e expandindo o negócio, como deseja Gregory: “Há muitas formas de ganhar dinheiro nas plataformas. O importante é fazer um conteúdo diferente e procurar se destacar. Minha única fonte de renda é minha imagem com os seguidores que conquistei. Acredito que ser famoso nas redes sociais é o maior sonho dos jovens de hoje“.

E ele tem razão! No final da última década, a Cyberpsychology, uma renomada revista científica, publicou um estudo sobre aspirações de crianças norte-americanas entre os anos de 1997 e 2007. A maior vontade dos jovens no final dos anos 90 e início dos 2000 era se sentir parte de algo, fazer a diferença na comunidade, sem necessariamente ser notado. Conforme as redes sociais foram surgindo e as pessoas começaram a ficar famosas nelas, o principal desejo das crianças passou a ser ganhar fama. O sentimento da benevolência, ou seja, de fazer o bem para o próximo, apareceu apenas em 15º lugar.

Sucesso é relativo

Com a mesma velocidade que as redes sociais podem deixar alguém famoso, elas podem fazer com que essa mesma pessoa caia no esquecimento, seja porque outra pessoa viralizou e ganhou palco, seja porque ela foi vítima da cultura do cancelamento. Sem falar dos haters! Antes, se você não gostasse de um determinado ator, simplesmente não assistia aos filmes dele. Era difícil chegar até as celebridades e, muitas vezes, em um passado não tão longínquo assim, essa comunicação acontecia apenas por cartas. Hoje, é mais simples: basta entrar em um aplicativo, mandar uma DM ou comentar em alguma postagem. “[Os haters] me fizeram muito mal no início, cheguei a ter muitas crises de ansiedade, passei por momentos muito difíceis, mas com ajuda de amigos, família e profissionais, hoje estou ótimo. Meu jeitinho de lidar com eles é bloqueando”, explica Gregory Kessey. Apesar de ter virado meme em muitos momentos, Mario Jr. não se deixa afetar: “Para ser sincero, dentre 100 mensagens positivas, uma é negativa. Acabo nem vendo”.

Mesmo que muitas empresas estejam revendo esse conceito de fama, medido por números, a gente sabe que, na prática, são eles ainda que contam na hora de fechar um bom negócio, envolvendo dinheiro e não apenas permutas. Entretanto, por mais que muitos sigam a fórmula do sucesso, ela não dá certo pra todo mundo, causando frustração e danos à saúde mental daqueles que não entendem como, mesmo fazendo tudo certinho, não conseguem ir além. Talvez umas das falhas na matriz seja justamente o fato de que, a mesma internet que critica certos famosos online que são famosos sem a gente nem saber exatamente o porquê, é a mesma internet que os torna virais e contribui para sua fama – mesmo que essa seja tão passageira quanto um Story.

Em setembro de 2019, o El País publicou uma reportagem cujo título é “Hollywood há 100 anos conta as mesmas seis histórias, e você nem percebeu”. É provável que a gente tenha, sim, percebido, e continue consumindo porque gostamos ou porque fomos acostumados a gostar. A mesmo coisa vale para a internet. Nos últimos anos, vemos essas histórias serem protagonizadas por novos rostos, trazendo mais representatividade e reproduzindo menos antigos padrões sociais, mas o sucesso do “sedutor do TikTok” chega para mostrar que antigas fórmulas continuam atuais, se adaptando a novas plataformas e realidades, mesmo que, para muitos, estejam ultrapassadas.

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