
Você precisa reconhecer beleza nas mulheres negras ao seu redor
Essa distância que o algoritmo faz parecer em relação às trends e nossos corpos, estilos e gostos... ela não existe.
ualquer scrollada nas redes sociais gritava que a moda era ser clean: unhas curtas e claras, cabelos bem baixinhos, make (quase) zero e muito foco em skincare. Vimos também esse estilo viralizar nas vitrines (marrom-nude-branco-cinza-preto), na estética das fotos e chegou até na decoração do quarto.
A proporção de garotas negras que aparecem como referência dessa estética fica bem abaixo daquela de garotas brancas, qualquer passeio pela hashtag denuncia. Um olhar mais desatento pode acreditar que há uma distância conceitual e que por definição só dá match o que for mais perto do branco, até a pele. Mas não.
Por mais que o algoritmo e a exploração do conceito clean dos últimos anos faça parecer, meninas negras circulam tranquilamente entre todas as trends. Aliás, na maior parte das vezes, elas criam e imortalizam tendências.
Quando a gente fala de clean girl, eu lembro da minha infância, quando muitas meninas negras usavam os cabelos lisos, ou prendiam bem justo; lembro de Alicia Keys no clipe de No One, até. No paralelo, as meninas brancas abusavam do rosa, dos pompons e salto alto. Não é regra, claro; tinha de tudo, para todas. Mas do meu lado, era o que eu via.
Meninas negras circulam tranquilamente entre todas as trends. Aliás, na maior parte das vezes, elas criam e imortalizam tendências.
Lola Ferreira, colunista da CAPRICHO
Lembro de uma tia querida que era super… extra. Saltos, unhas, cabelos. Não gostava de nada pouco! E hoje, décadas depois, me pego pensando que algum sapato, cinto ou roupa que vi no armário dela era bem similar a algumas das coisas que vejo nas redes sociais, em tendências que já começam a se consolidar internacionalmente, inclusive.
Com um pouco de paciência e pesquisa, vemos diversas tendências ancoradas na cultura negra, semeadas nos subúrbios e periferias. Dá até para ficar um pouco mais confortável em aderir sem parecer que estamos “invadindo” algum espaço; dá também para negar – apenas porque sim.
Tudo isso para dizer: fica tranquila. Não existe essa distância que o algoritmo faz parecer em relação às trends e nossos corpos, estilos e gostos. Quem adere não está deslocada, quem rejeita não está atrasada.
É muito mais gostoso observar tendências, referências e absorver dentro da nossa própria realidade. É autêntico, natural e bonito. Principalmente porque a história mostra que todo mundo está de olho em você, ou nas suas amigas. O salto temporal do início dos anos 2000 para cá talvez dificulte, mas é mais fácil se pensarmos na trend de camisas de time e o brazilcore. Tudo esteve tão perto sempre, né?
Talvez uma das faces mais poderosas do autoconhecimento em relação à nossa cultura é compreender que ela existe e vai existir muito forte nas ruas, independentemente de ser viral ou não. É reconhecer beleza no que vemos dentro de casa, nas nossas primas e vizinhas.
O que você rejeita em si hoje, com certeza, é uma poderosa herança da sua mãe, avó, tia ou outra mulher que também foi referência para você. E eu posso apostar: em pouco tempo vai surgir como novidade na tela do seu celular. O futuro é agora, e está bem do seu lado.