Síndrome de Tourette: entenda a doença de Billie Eilish

Conversamos com um especialista para entender mais sobre os tiques e movimentos involuntários da cantora causados pela doença.

Você sabia que a cantora Billie Eilish tem Síndrome de Tourette? Nem todo mundo conhece essa doença e os sinais dela podem passar despercebidos, principalmente quando a pessoa não costuma falar sobre o assunto. Mas, se você parar para notá-los, eles estarão lá. Em sua participação no programa da apresentadora Ellen DeGeneres, a cantora de 17 anos disse que a doença é algo com que ela teve que aprender a viver. “Todo mundo na minha família, todos os meus amigos e todas as pessoas mais próximas de mim sabem que eu tenho. Não é nada diferente. Eu só nunca falei sobre isso porque não queria que a Síndrome definisse quem eu sou. Não queria que fosse algo como ‘Billie Eilish, a artista com Síndrome de Tourette, está na Ellen’”, Billie disse. Mas, afinal, o que é a Síndrome de Tourette?

 (Reprodução/Facebook)

Para entender mais sobre o assunto, a CAPRICHO conversou com o Dr. Daniel Costa, psiquiatra especialista em TOC do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Segundo ele, a síndrome é uma doença neuropsiquiátrica caracterizada pela presença de tiques motores e vocais. “Os tiques são gestos, movimentos ou barulhos que nos parecem esquisitos e sem propósito. Eles podem aparecer como parte do comportamento normal (como piscar os olhos, virar a cabeça ou encolher os ombros) ou como algo estranho, às vezes até bizarro (como expressões faciais ou gestos com a mão ou a cabeça)”, explica.

Já os tiques vocais, como o próprio nome sugere, estão relacionados a voz. Podem variar desde um pigarreio até sons, palavras e frases mais complexas ditas sem propósito. De acordo com o Dr. Daniel, os tiques possuem duração curta e acontecem de forma repetitiva e súbita. Ou seja, surgem de repente e com frequência. “Os tiques costumam desaparecer durante o sono, diminuem com a ingestão de álcool e durante atividades que exijam concentração. Por outro lado, são exacerbados (agravados) por estresse, fadiga, ansiedade, excitação e substâncias estimulantes, como café, chocolate e refrigerante com cola ou guaraná”, diz.

A maioria dos tiques costuma ser apenas desconfortável, mas uma pequena parte também pode chegar a causar dor. “Aproximadamente 5% dos pacientes tem tiques auto-agressivos, como bater, golpear, arranhar a face, morder o punho, friccionar os olhos ou cutucá-los com os dedos. Há relatos de que esses tiques podem ser graves a ponto de causar cegueira”, afirma o psiquiatra.

Não é classificada exatamente como uma doença hereditária, mas familiares de primeiro grau de portadores de TOC ou Síndrome de Tourette possuem maior risco de apresentarem a doença. De acordo com o Dr. Daniel, também é comum haver associação com outros transtornos psiquiátricos, como o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

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Os sintomas da Síndrome de Tourette costumam surgir na infância, com tiques motores mais simples nos olhos, rosto ou cabeça, podendo progredir para os ombros, troncos e extremidades. “A maioria dos casos começa entre 2 e 15 anos de idade. No início do quadro, os tiques podem desaparecer por dias ou semanas. Com a evolução da doença, passam a ser mais duradouros”, explica o psiquiatra.

De acordo com o Dr. Daniel, pode ocorrer remissão completa dos tiques em 30% dos casos mesmo sem tratamento. Não são todos os pacientes que precisam de tratamento específico que diminua a intensidade ou frequência dos tiques. “O tratamento é indicado quando os tiques são intensos a ponto de causarem algum tipo de prejuízo para o paciente“, explica. Entre as opções para tratar a síndrome estão o uso de medicamentos, como a clonidina e os antipsicóticos típicos e atípicos, além da psicoterapia, especialmente a terapia comportamental envolvendo técnicas de reversão de hábitos. Já nos casos muito mais graves, pode ser indicada a realização de neurocirurgia.

“Um aspecto importante a ser considerado no tratamento dos portadores da Síndrome de Tourette é a psicoeducação. Informar o paciente e familiares que os tiques são incontroláveis, e não intencionais, pode ajudar”, Dr. Daniel acrescenta. Ele também destaca a importância de reforçar que mais da metade dos casos da síndrome melhoram no final da adolescência ou início da idade adulta.

Billie Eilish possui apenas tiques físicos, mas já contou que aprendeu a disfarçá-los. “Eu tenho jeitos para fazer os tiques desaparecerem dos meus vídeos. Normalmente, se é algo que foi filmado anteriormente, eles editam. É assim que eles ficam de fora”, afirmou durante sua participação no programa da Ellen. Segundo ela, saber que muitos dos fãs também tinham a Síndrome de Tourette fez com que ela se sentisse mais confortável em falar sobre o assunto. “Senti uma conexão. Senti que, quando falei sobre isso, eles estavam postando ‘Meu Deus, eu sempre tive isso! Agora que ela tem também, é uma pessoa em quem eu posso me inspirar!’”, disse. A cantora de 17 anos revelou o diagnóstico em novembro do ano passado e, desde então, prefere não falar muito sobre o assunto.

Dr. Daniel Costa está recrutando pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo para um projeto de pesquisa no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Saiba mais: https://global-ocd.org/sao-paulo-brazil/

Para saber mais sobre a doença, confira um curto documentário da HBO em parceria com a Associação de Síndrome de Tourette:

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