Será que existe mesmo essa história de “ciúme saudável”?

Todo mundo sente, só que com intensidades diferentes. Será que todo ciúme é ruim? Ou existe ciume bom?

Por Isabella Otto - 29 jun 2019, 10h01

Ele está presente em músicas, filmes, seriados, novelas, livros e poesias. Também está presente no nosso dia a dia. Às vezes, mais. Outras, menos. Depende da pessoa e da situação. Mas não importa suas motivações, e se elas são ou não justificáveis, ele sempre surge por causa do nosso medo de perder alguém – e, vez ou outra, alguém que ainda nem temos…

“Quando sente ciúmes, o homem usa partes do cérebro ligadas a comportamentos agressivos e sexuais”, afirma o neurologista japonês Hideshiko Takahashi. CSA Images/Getty Images

Aliás, será que a gente realmente pode “ter” alguém? Esse verbo não passa um sentimento de posse muito forte, como se estivéssemos falando de um objeto e não de um ser humano? Fato é que todo mundo já sentiu ciúme na vida, seja de uma amiga, de um namorado, ou até do pai ou da mãe. Mas quando ele deixa de se tornar um sentimento inofensivo e passa a ser nocivo? Será que ele, algum dia, já foi de fato romântico, algo que representa carinho e amor?

De acordo com Wanessa Moreira, terapeuta transpessoal e master mentoring em coaching corpo e mente, o ciúme saudável é um cuidado com quem se ama, sem que haja a interferência nas decisões e atitudes do outro. “Pode ser entendido como um interesse por alguém, com o que esse alguém faz. É uma vontade de participar da vida do outro”, afirma.

 

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O ciúme pode, por exemplo, ser um aliado em questões do coração. Sentir essa inquietação interna por uma pessoa pode significar um interesse amoroso, um querer que ela divida momentos da vida com você. Agora, ele também pode ser nocivo para quem o sente. Sabe quando stalkeamos aquele @ platônico e vemos o que não queremos? A gente fica pra baixo, com a autoestima abalada, se questionando várias coisas. Aline Melo, psicóloga do Grupo São Cristóvão Saúde, alerta que sentir ciúme excessivo pode ser um indicativo de baixa autoestima. “Nesse caso, é possível que haja situações de maior carência emocional, projeções e exigências ao qual o outro não poderá suprir, pois pode haver o desejo de que o amor que não consigo dar a mim eu busque no outro ou exija do outro, mesmo não sendo essa a função do parceiro em nossa vida”, salienta. A coach Wanessa complementa a fala da doutora: “se essa pessoa passar a confiar mais nela, pode sair do ciúme patológico”.

Se o ciúme pode ser perigoso para quem sente, pode ser ainda pior para quem é alvo dele. “Ele pode indicar que uma pessoa está vivendo um relacionamento abusivo, em que o outro não pode ter sua identidade, seus gostos e suas atitudes sem que passe pela validação do parceiro, perdendo sua essência e passando a viver com medo. Esse ciúme que leva a proibições e controle não faz bem. A pessoa deixa de ser ela mesma e passa a ser uma pessoa vivendo dentro da paranoia do outro”, explica Wanessa Moreira.

Quando sentimos ciúme, uma parte do cérebro chamada córtex anterior cingulado é ativada, mesma área que é despertada quando sentimos dores físicas. CSA Images

Há quem confunda esse sentimento nocivo com excesso de cuidado, ou te convença de que, na verdade, é isso o que o ciúme significa. Não pode sair com essa roupa nem com essa make, não pode sair com as amigas, não pode sair sem elas, não pode bloquear o celular, não pode ter assuntos privados, não pode conversar com outras pessoas. Ser vítima do ciúme maléfico de alguém pode fazer com que você se isole do mundo, e esse é outro indicativo de que um relacionamento abusivo pode estar rolando. “Nunca, por ninguém e por nenhum motivo, abra mão da sua independência: só abre a porta da vida quem tem a chave da decisão”, dá a dica Valéria Scarance, promotora de justiça que criou a campanha #NamoroLegal.

 

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Então, quer dizer, que quando o Nick Jonas canta “I still get jealous” ou o John Lennon fala que “I’m just a jealous guy”, eles estão compactuando com algo que está longe de ser saudável? Não é bem assim. Existem níveis de ciúme, e vamos combinar que é bem difícil sairmos ilesos da vida sem sentir essa “coceirinha interna” algumas vezes. O ciúme só não pode se tornar obsessivo, impositivo ou violento. Em todos esses casos, falamos de um ciúme patológico, que é justamente aquele que indica que a relação está longe de ser sadia e benéfica. “O ciúme só é saudável quando não tem validação de atitudes machistas”, esclarece a terapeuta.

Para não ter erro, é importante entender o ciúme como um movimento reflexo. Se ele afeta uma das partes, pode crer que vai afetar a outra também; e possivelmente em uma intensidade tão destrutiva quanto. Saúde mental e relacionamento saudável caminham lado a lado, de mãozinhas dadas, bem amorzinho mesmo. Não se engane!

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