Precisamos falar sobre filhos que estão em quarentena com pais abusivos

A relação abusiva familiar é difícil de ser identificada e mais ainda de ser enfrentada, causando danos sérios à saúde mental de crianças e adolescentes.

Por Isabella Otto - 25 Maio 2020, 10h15
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CAPRICHO/Divulgação

Não é fácil viver em isolamento. Por mais que você seja uma pessoa caseira, uma coisa é você gostar de ficar em casa e optar por isso sabendo que pode sair tranquilamente quando bem entender, outra bem diferente é saber que não pode, ou não deve, sair de casa porque tem uma pandemia rolando. Esse cenário se torna ainda mais tóxico quando você precisa conviver 24h com pessoas abusivas. Por exemplo, dados mostram que, desde o começo da quarentena em São Paulo por causa do coronavírus, as denúncias de violência doméstica cresceram. Muitas mulheres que vivem um relacionamento abusivo estão presas em casa com seus abusadores. Mas as relações abusivas são várias, como, por exemplo, as familiares. Neste exato momento em que você lê esta matéria, há no Brasil filhos enfrentando o distanciamento social com seus pais abusivos, e é preciso falar sobre isso.

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São duas as principais dificuldades com relação a esse tipo de relação tóxica: como identificá-la e como superá-la, já que, diferentemente de namoros que podem ser terminados, mesmo que com dificuldade, não dá para simplesmente terminar um relacionamento com os pais. De acordo com a psicóloga Fernanda Pompermayer, existem diferenças entre pais abusivos e pais controladores. “Pais controladores costumam dar pouca autonomia aos filhos, não permitindo que os mesmos tomem suas próprias decisões e gerando grande dependência. Podem não respeitar a privacidade dos filhos, pois receiam que, se não estiverem à par de tudo que acontece, algo de ruim poderá ocorrer. Podem ser caracterizados também como pais excessivamente zelosos. Já os pais abusivos extrapolam o limite do respeito e podem apresentar comportamentos de punição excessiva [física e/ou verbal], intolerância extrema ao comportamento que considera inadequado no filho, críticas severas e constantes, invalidação frequente dos sentimentos e emoções dos filhos, dentre outros”, explica.

 

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Relações abusivas afetam a saúde mental das pessoas de diversas maneiras, e crianças e adolescentes são mais suscetíveis a desenvolver traumas, principalmente quando essa relação é familiar e ocorre dentro de casa, um lugar que, na teoria, deveria ser seguro, neutro e de respiro. Estudos indicam que relações abusivas de poder vêm e vão como heranças: filhos aprendem esse comportamento tóxico com os pais, que aprenderam com seus próprios pais. Não significa, porém, que todo filho de pai abusivo será abusivo. “Os filhos de pais abusivos podem se tornar adolescentes e adultos fragilizados emocionalmente, com dificuldade de confiar nas pessoas com quem se relacionam, com sentimentos de menos valia [baixa autoestima], predisposição a patologias de ansiedade e depressão. Podem, por outro lado, assumir comportamentos agressivos semelhantes aos do abusador, pois este foi o padrão de comportamento aprendido em casa. Ambas as situações ocorrem por uma questão de sobrevivência, pois nos adaptamos aos pais que possuímos e isso gera a formação de esquemas mentais que determinam a forma com que nos relacionamos, pensamos e agimos“, relata a psicóloga.

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O abuso nem sempre vem de ambas as partes, do pai e da mãe, e eventualmente uma delas costuma ficar submissa – principalmente por causa do lance da desvalidação do poder. Essa omissão, contudo, não deixa de ser um abuso também. “Se o filho não encontra no seu lar amparo diante de situações que ameaçam a sua integridade, deve buscar ajuda e sempre relatar o que acontece a alguém de confiança”, alerta a Dra. Fernanda Pompermayer.

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Mas como conversar com pais abusivos se o diálogo nem sempre é uma opção? A psicóloga Fernanda diz que é muito importante compartilhar os sentimentos com pessoas de confiança, porque assim outro adulto da família poderá intervir se o diálogo com os pais estiver muito difícil. Os abusos psicológicos podem ser potencializados pelo distanciamento social, que por si só já é maléfico para a saúde mental dos seres humanos, acostumados e motivados pela tal liberdade e pelas interações sociais. “Procure se ancorar em adultos saudáveis para se sentir seguro emocionalmente. Outra forma de alívio é agir na direção de sua independência e liberdade. Buscar alguma atividade que não interfira nos estudos e possa gerar algum ganho financeiro que poderá te deixar mais próximo de ter condições de, no momento certo, deixar a casa dos pais. O abuso físico deve sempre ser reportado às autoridades“, ressalta a especialista. A denúncia pode ser feita pelo Disque 100 ou pela e-mail disquedireitoshumanos@sdh.gov.br.

Relações abusivas familiares podem ser potencializadas pela quarentena e por crises, como financeira, que ela possa eventualmente resultar, mas não se restringe apenas a esse período. “Neste momento em que estamos vivendo, as emoções estão naturalmente mais desreguladas. Então, a sugestão é que esses filhos concentrem seus esforços naquilo que podem controlar. Técnicas de respiração e meditação são extremamente eficazes quando feitas com frequência e ajudam a regular a ansiedade do confinamento e da proximidade forçada e constante com a família [vários vídeos no YouTube estão disponíveis e podem ajudar]. Cuidar da própria saúde mental, ocupando-se de atividades prazerosas, estudando, lendo, fazendo algum tipo de exercício físico, são algumas medidas que podem ser tomadas independentemente do outro. Manter contato com pessoas em que confia e te fazem bem é imprescindível. Esteja sempre se comunicando com amigos e familiares de confiança através de vídeo-chamadas, ligações, etc. Em resumo, faça o que está ao seu alcance para se manter equilibrado”, a psicóloga dá a dica.

 

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Vale ressaltar que algumas relações se tornam ainda mais preocupantes porque esses pais abusivos infantilizam ou adultificam seus filhos em troca de algo, aproveitando-se ainda mais dessa posição de poder e autoridade. Assim como é difícil para mulheres identificarem e aceitarem que vivem um relacionamento tóxico, pode ser delicado para filhos entenderem e admitirem que têm pais abusivos – e que precisam fazer alguma coisa, mesmo que essa coisa tenha que esperar até os 18 anos. Em situações extremas, como as que envolvem abusos sexuais, após a denúncia, casos de relações familiares abusivas podem chegar à Justiça e os pais podem perder a guarda dos filhos. Neste caso, entretanto, é preciso ficar atento à lei sobre a alienação parental.

Muitos pais abusivos acabam usando a lei contra mães que denunciam o abuso. Se a Justiça considerar que ele não pode ser comprovado por falta de provas, o pai, muitas vezes, vence o processo e acaba ganhando a guarda do filho, que passa a conviver em casa apenas com seu abusador. “O pai fala que a mãe está querendo separar a criança dele e entra com o pedido de destituição do poder familiar(…) Isso acontece bastante e tem alguns grupos feministas pedindo a mudança e a revogação da lei, porque, quando mal aplicada, ela é extremamente perigosa”, explica a advogada Marília Scriboni.

Uma coisa curiosa é que essa lei de alienação parental só existe no Brasil e é baseada numa teoria dos anos 80, do psiquiatra norte-americano Richard Gardner, que ao que tudo indica não tem comprovação científica. “O psiquiatra norte-americano afirmava a existência da SAP [Síndrome de Alienação parental] sem, contudo, apresentar dados obtidos por meio de pesquisas científicas que embasassem o conceito por ele criado(…) Aliado a isso, Gardner utilizava-se de consenso com outros profissionais que pensavam de forma similar a ele, como garantia de evidência científica de suas proposições(…) Tem-se a impressão de que esse autor baseou-se, sobretudo, em suposições que construiu a partir de atendimentos clínicos e casos em que atuou como avaliador para a justiça”, diz trecho de artigo publicado por Analicia Martins de Sousa, psicóloga, mestre em Psicologia Social e especialista em Psicologia Jurídica, no site da Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e apresentado no VI Fórum de Debates sobre Paternidade da Maternidade Escola de UFRJ.

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