M.S. Fayes fala sobre inspirações, histórias e a carreira de escritora

Conversamos com a autora de "Rainbow" <3

Durante muito tempo, a figura feminina era associada à ingenuidade e serventia. Mas, felizmente, esse cenário vem se modificando. Atualmente, as mulheres se reinventam todos os dias, ganhando cada vez mais espaço, voz e quebrando paradigmas.

Martinha Fagundes, mais conhecida como M.S. Fayes, é o exemplo perfeito disso. Autora de 12 livros, sendo o mais recente Ghosts, Martinha é um ícone na literatura nacional. Para ela, Rainbow é um marco. O livro foi inspirado na sobrinha da escritora, uma adolescente que sofreu de depressão profunda. De certa forma, escrever a história foi uma forma que Martinha encontrou de ajudá-la. Incrível, né?

Tive a oportunidade de entrevistá-la para falar um pouco sobre inspirações, dificuldades, experiências e a carreira de escritora em geral. Confira:

Qual trabalho você mais se orgulha de ter feito? Por que?
Martinha:
Cada livro é uma história. Ter que escolher entre eles é quase como ter que escolher qual é o seu melhor filho (risos). Mas, é claro que somos tendenciosas a achar que um livro teve mais emoção que outro. Rainbow foi um marco para mim, porque foi escrito exatamente para a minha sobrinha. Ao longo dos capítulos, eu ia mandando para que ela lesse e acompanhasse a criação da personagem. Ela ficava espantada em como eu conseguia colocar no papel os pensamentos que assombravam e a definiam como pessoa.

Outro livro que me marcou muito foi DangeRock 3 – Phil, o terceiro e último livro de uma trilogia de roqueiros, onde empenhei todo o meu sentimento e soltei o meu “Nicholas Sparks” interior. O último e mais recente, Ghosts, eu explorei uma faceta minha que nunca imaginei ser capaz de soltar: livros com uma temática mais dark e uma carga dramática mais intensa e cheia de suspense. Quase um thriller psicológico.

Estou escrevendo um YA (Young Adult), cujo o tema é depressão mesmo, onde a personagem principal realmente tem que lidar com todos os aspectos da doença desde o início, ao tratamento e seu processo de aceitação e melhora. Este, possivelmente, talvez se torne meu melhor trabalho. Viu? Você me pediu um e eu não consegui escolher (risos).

Você sempre gostou de escrever ou a escrita foi algo que acabou te conquistando aos poucos?
Martinha: Na verdade, eu sempre gostei de criar roteiros de romance. A diferença é que eles eram em forma de desenhos, tirinhas de quadrinhos. Mas, os elementos do romance estavam lá. O gosto pela leitura surgiu desde a adoles
cência e acho isso primordial para que o amor pela escrita possa se desenvolver.

Até que, no final de 2009, depois de ler uma entrevista de uma autora, percebi que eu vivia o mesmo dilema que ela. Meus dois filhos ainda eram pequenos e eu havia perdido um pouco da minha identidade criativa para ficar com eles. Decidi que se ela pôde sonhar e conceber uma história fantástica de um vampiro brilhante, então eu também poderia dormir e tentar sonhar com algo sensacional. Daí, nasceu meu primeiro livro: Tapete Vermelho. Usei a fantasia que toda menina, adolescente (e por que não, mulher?) já teve na vida… Se encontrar com um astro de cinema (poderia ser um rock star também) e se ver alvo do amor desse mesmo cara.

Depois disso, evoluiu para os livros que escrevi em temas variados. Eu amo explorar os universos juvenis e adultos. Acabei me descobrindo nesse universo fantástico de criar meus próprios finais felizes.

Você tem algum “ritual de preparação” para começar um texto?
Martinha: Acredita que não tenho? Deveria ter, porque aí eu seria mais organizada, porém sou uma bagunça épica. Muitas vezes, eu simplesmente abro o programa do Word e começo a teclar uma linha de história que surgiu aleatoriamente na minha cabeça ou que meu marido tenha dado ideia (ele adora me dar plots geniais). Já tive estalos de brainstorming com músicas, no meio do trânsito, ouvindo a conversa de alguém, lendo alguma entrevista, assistindo algum filme. No meu computador, tenho inúmeros arquivos “começados” para serem continuados em algum momento, quando a inspiração vier… Isso pode levar dias, semanas, meses… Até anos!

Quais as maiores dificuldades que você encontrou para desenvolver o tema da depressão em Rainbow?
Martinha:
Talvez a maior dificuldade tenha sido criar um enredo que mantivesse a ideia que eu queria passar, o objetivo que eu precisava atingir, sem que a ficção e a realidade se misturassem. Rainbow foi escrito para tentar afastar minha sobrinha adolescente da depressão. Eu precisava atingir seu coração, sua alma adolescente, tocá-la de alguma forma, para que a mensagem chegasse à sua mente e ganhasse vida.

A personagem Rainbow tem a personalidade da minha sobrinha, reclusa, fechada, antissocial, mas eu precisava que ela soubesse diferenciar os fatos reais do que aconteceria no livro. Que não criasse
expectativas irreais. Eu queria que ela internalizasse os conselhos. Que soubesse que todas as adolescentes passam por dificuldades, por vivências duras e por momentos difíceis. Queria que captasse meus conselhos, tentando entender que se prender em sua própria bolha faria mal a ela mesma, como estava fazendo. Que se deixar tornar vítima do bullying que estava sofrendo, caindo na depressão culminante, poderia ser o fim derradeiro. Eu queria que ela visse que a primeira pessoa que precisava lutar era ela, mas que, na batalha, ela nunca estaria sozinha.

E o livro mostra isso. Rainbow se descobre através das páginas. A força que guarda dentro de si e não imaginava possuir. E ela compreende que precisava sair da redoma que ela mesma havia construído ao redor. Lidar com temas assim é bem complexo, porque nunca sabemos como o leitor do outro lado pode lidar, mas acredito que eu, já tendo passado por depressão e tendo que lidar com isso diariamente, mostrando ao meu corpo que a força precisa sair de mim, posso ser compreensiva e sensível aos sintomas que muitos jovens apresentam hoje em dia. O isolamento sendo o primeiro deles.

Quais ferramentas e aplicativos são essenciais para o seu trabalho? Elas te ajudam no processo criativo?
Martinha:
Spotify (risos). Sempre. YouTube para alguns clipes embaladores de emoções. Músicas são ótimos catalisadores para cenas emblemáticas. Cada livro meu tem uma playlist própria. Às vezes, a música não tem nada a ver com o tema, a cena, mas a balada serviu para alguma coisa.

Caderno! Anoto tudo, absolutamente tudo num caderno. E uma das maiores curiosidades sobre mim: eu escrevo de trás pra frente. Juro! Nunca consigo dar sequência nas anotações seguindo o padrão normal do caderno. Eu começo da última folha e venho anotando para o começo. O caos reina no meio. Aí tenho que passar a limpo. Esse é o processo criativo mais louco que alguém poderia ter, mas é bem real. Preciso anotar os nomes e sobrenomes dos personagens, porque em algum momento ao longo da caminhada do livro, eu esqueço.

Além disso, a M.S. Fayes fez uma lista com 3 dicas de leitura:

1. Minha Vida Mora ao Lado, de Huntley Fitzpatrick: “É um YA maravilhoso que mostra a diferença entre dois estilos de famílias. A vizinha da família comportada se vê fascinada pela dinâmica familiar da casa ao lado, onde os vizinhos barulhentos não escondem em momento algum quem são. É um romance fofo, cheio de verdades e descobertas. Lindo para quem ama um livro Young Adult!”.

2. Química Perfeita, de Simone Elkeles: “Esse YA mostra que estereótipos e preconceitos podem, muitas vezes, cair por terra quando se descobre o amor”.

3. Mil Beijos de Garoto, de Tillie Cole: “Embora eu tenha odiado esse livro (porque chorei litros
e litros), é uma história linda que te faz sentir o amor puro entre os personagens, especialmente pela forma como a personagem feminina, Poppy, lida com as adversidades da vida. O livro acaba trazendo certo significado à sua leitura quando você começa a se questionar do porquê reclama tanto das pequenas coisas, quando poderia aprender a lidar com as situações com o olhar de Poppy e Rune. O amor adolescente dos dois é enternecedor.”

 

 

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