Conheça o designer brasileiro que deu vida ao imaginário de J.K. Rowling

Brasileiro no mundo bruxo, Eduardo integra estúdio 'MinaLima' e é um dos designers criadores do Mapa do Maroto e Profeta Diário.

Você já imaginou como seria trabalhar dentro dos bastidores das produções cinematográficas do mundo de Harry Potter? Às vezes, isso pode nem passar pela nossa mente quando estamos assistindo aos filmes, mas milhares de pessoas se empenharam diariamente para garantir que cada detalhe saísse perfeito para nós, fãs. Entre muitos departamentos diferentes, por exemplo, estão Eduardo Lima e Miraphora Mina, criadores do estúdio de design gráfico MinaLima. Durante a CCXP 2018, a CAPRICHO teve a oportunidade de conhecer e conversar com o Eduardo, que veio à convite da Editora Rocco.

Eduardo é um dos designers por trás dos filmes do mundo bruxo de J.K. Rowling.

Eduardo é um dos designers por trás dos filmes do mundo bruxo de J.K. Rowling. (MinaLima/Divulgação)

Brasileiro natural de Caxambu, Minas Gerais, Eduardo não imaginava que iria acabar trabalhando no mundo bruxo de J.K. Rowling algum dia. O designer já havia morado em Londres por um tempinho, mas quando voltou ao Brasil trabalhou com uma diretora que passou a ele o contato da Miraphora. De volta a Londres em 2001, ela foi a primeira pessoa que Eduardo procurou. “Quando eu cheguei lá, sabe quando você conhece uma pessoa e rola um ‘click’? Parecia que a gente já se conhecia de outras vidas“, ele lembra.

Ela me ofereceu uma semana de estágio no segundo filme e eu nunca mais saí. Dezoito anos depois, ainda estamos aqui falando de Harry Potter“, Eduardo brinca. Além de trabalharem em parceria, os dois também se tornaram melhores amigos muito rápido. Juntos, formaram a marca MinaLima – junção dos sobrenomes de ambos. “Se você tem uma pessoa que você trabalha bem, mantém aquela pessoa. Não deixa ela ir embora”, diz.

Foi no terceiro filme, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, que o Eduardo trabalhou do começo ao fim. E por coincidência, é o preferido dele entre todos os outros. “O terceiro começa a ficar mais tenso, mais misterioso, tem o Sirius Black, o Voldemort começa a aparecer mais. Dá um outro ritmo ao filme. E eu gosto de falar que foi o filme que o Afonso virou diretor, então quando os latinos chegaram, a gente mudou todo o projeto!”, comenta.

Você, potterhead, pode até não conhecer o Eduardo assim pelo nome, mas conhece muitas das criações dele. “Lembra que, no segundo filme, tem a cena do Gilderoy Lockhart na livraria? Eu ajudei a criar os objetos gráficos, aqueles livros que se mexiam. No terceiro, comecei a assinar junto com a Mira o departamento de graphics“, conta. A partir daí, vieram vários outros objetos mágicos que conquistaram o coração de milhares de fãs: o Mapa do Maroto, as várias edições do Profeta Diário e até mesmo a incrível loja dos gêmeos Weasley.

É claro que trabalhar por trás dos filmes possibilita um contato, embora mínimo, com parte do elenco. Eduardo comenta que uma das pessoas que eles mais se aproximaram foi Helena Bonham Carter, que interpretava Bellatrix Lestrange. “Ela aparecia vestida [como a personagem] para ficar olhando e falava ‘Por que eu não vim para cá antes? Eu podia ter vindo ajudar vocês, sou boa em desenho”, narra. Além disso, ter o reconhecimento do elenco também era uma sensação incrível, especialmente porque o departamento de Eduardo e Mira sempre fazia o máximo que podia para caprichar nos detalhes, mesmo que a cena fosse rápida e não mostrasse muita coisa. “Eu lembro uma vez que os dois atores que faziam os gêmeos Weasley pegaram o jornal, olharam página por página e falaram ‘Nossa, todas as páginas têm conteúdo, têm detalhes, então o mínimo que a gente pode fazer é atuar o melhor possível também’“, Eduardo lembra.

Mas, além de ter contato com o elenco, o estúdio também está muito próximo da criadora de tudo: a própria J.K. Rowling. “A coisa que eu acho mais especial é que a J.K. Rowling sempre fala que o nosso departamento é muito querido por ela. Então eu adoro saber disso, que pelo menos as coisas que a gente está criando, ela carimba com o apoio dela”, afirma.

Quando a saga Harry Potter chegou ao fim, Eduardo conta que não sabia se ficava feliz ou triste. “Foi uma mistura de alívio, do tipo ‘missão completa’, porque até o terceiro ou quarto filme as pessoas da equipe ainda não sabiam se todos os filmes iriam ser feitos. Foi no quarto filme que a gente pensou ‘com certeza agora vai até o final’. Mas, ao mesmo tempo, foi triste porque foram 10 anos trabalhando com as mesmas pessoas“, diz.

A tristeza passou em parte quando a equipe se reuniu novamente com um novo trabalho muito especial em mãos: Animais Fantásticos e Onde Habitam. Apesar de ser bom voltar ao mundo bruxo, a nova saga tinha alguns desafios bem complicados, como não ter mais os livros para seguir. Mas, por outro lado, alguns desafios novos e diferentes deixavam o trabalho ainda mais especial. “O mundo dos trouxas em Animais Fantásticos é incrível, que é em 1927. É incrível recriar aquele momento da história e fazer uma homenagem a esses artistas incríveis que tinham na década de 20 e 30“, Eduardo opina. Já em Harry Potter, o universo trouxa não era nada desafiador, por ser exatamente o mundo moderno que conhecemos hoje. “O mundo moderno é mais simples, não tem o mesmo acabamento manual. Por exemplo, todas as sinalizações de lojas nos anos 20 eram pintadas a mão, era um trabalho artesanal incrível que, infelizmente, a gente está perdendo isso. Mas, ao mesmo tempo, a gente está ganhando coisas bacanas, como a internet e as tecnologias”, complementa.

Na CCXP, Eduardo deu autógrafos e conheceu muitos fãs que se inspiram nas criações dele e desejam seguir a área do Design Gráfico. Para eles, o designer já adiantou qual é o maior obstáculo da profissão: o bloqueio criativo. “Tem dia que você olha para a tela do computador e nada sai, fica tudo branco. A única coisa que você tem certeza é que você conseguiu ter uma solução antes, você já passou por aquele momento de ficar só olhando para a tela branca, mas alguma coisa aconteceu e você conseguiu sair. Então quando você está na tela branca, você sabe que vai sair dela”, conta.

Além disso, outro conselho do Eduardo para os futuros estudantes da área é se libertar da tecnologia. “O que eu gosto de falar para as pessoas que querem fazer Design Gráfico é para não se preocuparem em ser o melhor do Photoshop. Esquece o computador e desenha, se suja com tinta, esse é o momento para isso“, aconselha. Até hoje, inclusive, ele faz desenhos a mão e só depois passa para o digital.

É claro que a CH não podia perder a oportunidade de perguntar se existe alguma chance de um dos filmes da franquia ser filmado aqui no Brasil, como a própria J.K. Rowling já deu dicas. “Não foi confirmado, mas eu estou enlouquecido para saber também. Imagina para mim a responsabilidade imensa que seria?!“, Eduardo brinca, sendo o único brasileiro da equipe. Segundo ele, a equipe já começa a trabalhar no próximo filme em fevereiro deste ano. “É um período muito tenso, porque você fica sabendo de tudo e ninguém sabe de nada. Então você não pode falar nada, aí você fica tenso e com medo de soltar alguma coisa”, diz. Mas embora tudo pareça estar apenas na mente de J.K. Rowling por enquanto, Eduardo reforça que, de qualquer forma, a primeira regra do cinema é não poder falar nada sobre o roteiro. A gente sofre com isso, mas entende que não tem jeito, né? Só nos resta esperar!

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