Com clichês e furos no roteiro, After é um filme que desmerece seu público

Gêneros dramáticos: Drama, Romance
CAPRICHO
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Depois de muita espera por parte dos fãs, After chegou aos cinemas nesta quinta-feira (11). Como o nome sugere, a trama, baseada no livro de Anna Todd, é um romance adolescente daqueles em que as vidas dos protagonistas mudam completamente depois que eles se conhecem e se apaixonam.

O longa conta a história de Tessa Young (Josephine Langford, irmã de Katherine Langford), uma adolescente certinha e obediente que, ao entrar na faculdade e sair de casa, encontra Hardin Scott (Hero Fiennes-Tiffin), um rebelde sem causa que a faz repensar toda a sua vida e personalidade. Essa fórmula a gente já viu diversas vezes tanto no cinema quanto na TV (alô, Crepúsculo! Pode entrar também, Malhação!), mas de alguma maneira inexplicável After consegue trazer ainda mais clichês e termina sem mostrar a que veio.

A começar pelos personagens, que são completamente estereotipados. Ela, a garota estudiosa de rabo de cavalo que usa roupas angelicais, brancas e rosinha, e fica possessa se uma mísera coisinha sai do planejado. Ele, o bad boy tatuado que só veste camiseta preta e calça rasgada, mas que tem um bom coração, embora exploda facilmente. Isso sem falar nas amigas que levam Tessa para ~o mau caminho~ (Pia Mia e Khadijha Red Thunder), um casal lésbico cujas partes têm cabelo colorido, usam meia calça rasgada e piercing no nariz. Por que não quebrar esses estereótipos de vez em quando, hein? Nem todo tatuado é mau, nem toda lésbica é punk, e nem toda garota que estuda e usa blusinhas floridas é a santa Virgem Maria.

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(Diamond Films/Reprodução)

Mas se fosse só isso ok, o filme ainda seria aceitável. Afinal, a gente shippava Bella e Edward, vai! Mas daí entramos na questão do roteiro. Os fãs de Anna Todd logo perceberão que diversas cenas do livro ficaram de fora da adaptação. Mas nem o fato de transformar um relacionamento abusivo em um não-abusivo (provavelmente uma das poucas qualidades da versão de After para as telonas) parece ajudar a trama.

Nada do que acontece faz sentido e o filme ficou com cara de fanfic barata cujos capítulos foram colocados em qualquer ordem. São muitos os fatos que acontecem aleatoriamente e sem nenhuma explicação. Um deles, por exemplo, rola quando Hardin deixa Tessa em casa e vai à lanchonete encontrar os amigos após uma semibriga. Antes de sair, ele faz um discurso sobre confiança que ninguém entendeu de onde veio nem para onde foi.

O longa até tenta fazer a relação entre os protagonistas acontecer e, embora ainda bem crus, podemos dizer que os atores têm química. Mas não passa disso. Com diálogos fracos, cheios de frases batidas e citações de romances clássicos tipo Orgulho e Preconceito e O Morro dos Ventos Uivanteszzzzzzzz, é difícil criar empatia por eles. Para falar a verdade, a gente mal consegue entender quando o ódio que Tessa sentia pro Hardin vira paixão. No começo do longa, ela diz não suportar o boy. Então ele tenta uma amizade e ela recusa, mas logo volta atrás quando ele diz que quer mostrar a ela um lugar especial. Hardin pega seu ~possante antigo~ e a leva para um passeio no meio da floresta, onde eles decidem nadar juntos em um lago. Hã? Se você não curte a pessoa, por que, para início de conversa, toparia se embrenhar na mata com ela?! Ainda mais se for com um homem cheio de mistérios em quem não confia, né? #AcordaMenina

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(Diamond Films/Reprodução)

A relação de Tessa com a mãe (Selma Blair) também é mal explorada. Primeiro elas se amam e parecem se dar superbem. Mas após uma discussão, a mãe decide parar de financiar a garota, e como ela se mantém a partir daí, já que aparentemente não trabalha e não teria dinheiro para comer, pagar a faculdade e muito menos tentar uma vida ao lado de seu amor, é uma dúvida que fica no ar.

Em uma época com romances adolescentes inteligentes e cativantes, como Para Todos os Garotos que Já Amei e Dumplin’, After vem quase que para desmerecer seu público, assumindo que para deixar os jovens felizes é só misturar atores bonitos e padrãozinho com frases batidas e cenas com vibe de soft porn, quando na verdade o que a gente quer são diálogos espertos, personagens com representatividade e pessoas (e tramas) com pelo menos um pingo de personalidade.

Por Gabriela Zocchi

    info
  • Direção: Jenny Gage
  • Duração: 106 minutos
  • Recomendação: 14 anos
  • País: EUA
  • Ano: 2019