Thelma, a protagonista do Big Brother Brasil das reparações históricas

A final do BBB20 foi um acerto de contas com o Brasil que elegeu a campeã do BBB19

Por Isabella Otto - Atualizado em 28 abr 2020, 14h37 - Publicado em 28 abr 2020, 10h58

Protagonista: sm+f; (fig) Participante ativo ou de destaque em um acontecimento. (Fonte: Dicionário Michaelis)

Você já deve ter escutado a expressão “reparação histórica” por aí. Ela tem aparecido com mais frequência nos últimos anos. Em 2018, por exemplo, um bar em Portland, nos Estados Unidos, inaugurou o “Happy Hour da Reparação”. O evento foi organizado por ativistas locais e, no dia dele, os clientes negros e indígenas receberam cada um uma nota de US$ 10 para consumação. Toda a quantia arrecadada havia sido doada por clientes brancos. A iniciativa gerou polêmica, mas tem uma justificativa plausível por trás: Portland, no Oregon, é considerada “a cidade mais branca da América”, com um histórico latente de escravidão, segregação e racismo.

racismo, segregação
Cena do filme The Autobiography of Miss Jane Pittman, de 1974, que mostra uma senhora negra prestes a ser detida por beber água em um bebedouro destinado exclusivamente para brancos na época da segregação racial nos EUA CBS Photo Archive/Getty Images

Entre 1876 e 1965, vigoraram no Sul dos EUA as Leis de Jim Crow, medidas públicas que decretavam a segregação racial nos estados sulistas. Escolas e transportes públicos, como trens e ônibus, precisavam oferecer instalações diferentes para pessoas “de cor” (“coloured people”), como dizem os norte-americanos. Afinal, as pessoas brancas “não iam nem podiam se misturar”. Se o fim da escravatura no país foi decretado por Abraham Lincoln em 1865, as Leis de Jim Crow mostram que, na prática, a liberdade não foi uma opção.

É levando em conta todo esse histórico que o termo “reparação histórica” nasceu, da dívida que os homens brancos têm com aqueles que não são da mesma etnia que eles, principalmente com relação aos negros, por causa da escravidão. Com o tempo, o termo passou a ser usado por outros movimentos, como é o caso do feminismo, em especial o negro, para apontar determinadas atitudes e certos acontecimentos que são uma reparação histórica em relação ao machismo e à cultura patriarcal, que, ainda hoje, tem mulheres pobres e negras como as maiores vítimas.

Se em 2019 o Brasil elegeu Paula Sperling como campeã da 19ª edição do Big Brother Brasil, uma participante que escancarou o racismo estrutural brasileiro e fez tantos comentários problemáticos, neste ano o país acertou as contas e elegeu Thelma Assis como campeã do BBB20. O saldo foi positivo.

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Mulher, negra, médica, a única aluna negra da sua turma da faculdade, adotada, passista de escola de samba, nascida e criada na periferia de São Paulo, bolsista, feminista. Aos 35 anos, Thelma conquistou o prêmio máximo do Big Brother Brasil e ouviu o seguinte discurso de Tiago Leifert: “Uma vitória histórica em uma temporada histórica. Só você podia ganhar esse programa, Thelma. Você merece. Esse é o melhor final possível para esta temporada. Ocupa o seu lugar ali, Thelma, porque você merece o que sempre mereceu“.

Ocupar espaços era o que os negros justamente não tinham permissão para fazer durante os períodos de escravidão e segregação. Ocupar espaços é o que ainda hoje é negado a tantas pessoas negras:

  • se a taxa de feminicídio de mulheres brancas caiu em 10%, a de mulheres negras aumentou em 54% entre 2003 e 2013, de acordo com o Mapa da Violência de 2015;
  • estima-se que apenas em 2089 brancos e negros alcancem a igualdade salarial no Brasil, segundo a pesquisa recente “A distância que nos une: Um retrato das Desigualdades Brasileiras”, realizada pela ONG Oxfam;
  • se os negros são os principais protagonistas quando o assunto é desemprego, eles seguem como figurantes no cinema e na literatura, conforme aponta a pesquisa “A Cara do Cinema Nacional”, realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Para se ter uma ideia, na literatura nacional, estima-se que 80% dos protagonistas sejam homens brancos.
O abraço final de Rafa, Thelma e Manu, as finalistas do BBB20 TV Globo/Reprodução

E daí veio a Thelma e o BBB20, que levantou discussões importantes sobre feminismo, sororidade, racismo e machismo. No meio do caminho, tivemos alguns altos e baixos. Podemos chamar de surtos coletivos? Bateu uma preocupação. Alguns fantasmas do passado voltaram. Ainda hoje, basta fazer uma simples e breve busca nas redes sociais para ver que algumas pessoas estão em estado de negação: “resultado manipulado”, “Thelma planta”, “Prior é o campeão moral”, “El mago protagonista”, “sempre foi ele”, “o verdadeiro campeão”. Em uma edição em que, na sua reta final, as pesquisas no Google da expressão “macho escroto” foram alavancadas, o racismo estrutural foi mais uma vez escancarado, as mulheres provaram de novo que sexo frágil é invenção da cultura patriarcal, protagonizaram os principais momentos do reality, venceram a maioria das provas de resistência, se uniram para peitar um bando de homens que se achava muito esperto, mas cujo principal plano era continuar preso ao passado objetificando mulheres, a negação pode continuar à vontade – e é bastante significativa -, mas uma coisa não dá para mudar: o pódio do BBB20 e o primeiro lugar dele, ocupado por uma mulher brasileira, negra e feminista.

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