Sabia que as mulheres já foram proibidas de jogar futebol no Brasil?

Os argumentos usados pelo governo para impedirem mulheres de praticarem esportes eram inacreditáveis - e isso não faz tanto tempo assim, viu?

Por Amanda Oliveira 8 jun 2019, 10h02

Não é novidade para ninguém que o futebol feminino no Brasil, assim como em outras partes do mundo, sofre diariamente com a falta de apoio, de patrocinadores e até de público, respeito e valorização. Tudo isso, aliás, é proveniente de um preconceito enraizado de pessoas que ainda acreditam que lugar de mulher não é no campo ou nas arquibancadas. O que pode ser novidade para algumas pessoas, contudo, é o fato de que todos esses obstáculos que as atletas e meninas que gostam de jogar bola por lazer precisam lidar são resquícios de uma época – não tão distante assim – em que as mulheres eram proibidas por lei de praticar esportes no Brasil.

Das grandes potências do futebol mundial, o Brasil foi um dos últimos a permitirem a modalidade feminina. Estadão/Sidney Corrallo/Reprodução

Por volta da década de 20, surgiram as primeiras referências de partidas de futebol disputadas entre mulheres no Brasil, normalmente em periferias. A prática foi crescendo aos poucos e, em 1940, o Estádio do Pacaembu, em São Paulo, foi palco para um jogo feminino polêmico, entre as equipes Cassino Realengo e Sport Club Brasileiro. Apesar de ainda não ser proibido por lei, o futebol era uma modalidade considerada masculina e violenta; e ver mulheres jogando em um estádio não agradou boa parte da população.

A proibição veio oficialmente em 1941, com um processo de regulamentação da modalidade no Brasil. Foi instituído o decreto de lei nº 3199, Art. 54, que determinava que mulheres não deveriam praticar esportes que não fossem “adequados a sua natureza”, sem citar nenhum especificamente, mas deixando claro que rolou um incômodo generalizado de ver mulheres jogando bola. Os detalhes da proibição vieram logo depois, em 1965, durante a Ditadura Militar. Dentre os argumentos usados para proibir a modalidade feminina na época, esses eram os principais:

  • Preservação da moral e dos bons costumes
    Ou seja, a ideia de que a mulher tinha o papel de “bela e recatada” não combinava com a figura feminina disputando partidas de futebol, que eram consideradas violentas.
  • Preservação de uma estética de feminilidade
    Havia quem acreditava que jogar futebol poderia, de certa forma, “masculinizar” o corpo da mulher, o que era inaceitável para uma sociedade que valorizava os traços femininos e a delicadeza da estética feminina.
  • Preservação da função reprodutiva da mulher
    Sim, também existia o pensamento de que praticar esportes poderia prejudicar a função reprodutiva da mulher, visto que a sociedade da época também valorizava a “responsabilidade” da mulher de poder gerar filhos.
  • Preservação dos valores da mulher
    Também consideravam que o espírito competitivo e a vontade de vencer, que são características em qualquer esporte, poderiam transformar a personalidade feminina.

Não existem muitos registros de futebol feminino durante esse período de proibição, mas o que se sabe é que circulavam muitas notícias sobre mulheres jogando futebol escondido. Em 1979, a lei que proibia as mulheres de praticarem esportes foi revogada, mas foi apenas em 1983 que o futebol feminino foi oficialmente regulamentado como modalidade esportiva. Isso significa que faz apenas 36 anos que o governo brasileiro permitiu o futebol feminino em competições, estádios e escolas. Mas, apesar da grande e demorada conquista, o futebol feminino não recebeu o mesmo incentivo e apoio dos clubes e federações que o masculino recebia. E é assim até hoje.

Araguari Atlético Clube, uma das equipes pioneiras do futebol feminino no Brasil. Acervo Araguari Atlético Clube/Museu do Futebol/Reprodução

A primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino aconteceu só em 1991, 61 anos depois da primeira edição da masculina. A primeira Olimpíada demorou ainda mais: somente em 1996. Uma Libertadores feminina? O mundo só pôde ver isso, pela primeira vez, em 2009. Dez anos atrás. Falar sobre o futebol feminino é isso: não apenas dos incríveis gols de Marta ou dos recordes inacreditáveis de Formiga, mas também dos longos anos de repressão, proibição, preconceito, barreiras, atrasos, retrocessos e a trajetória repleta de resistência que o futebol feminino carrega. Coisas que quem só conhece e assiste ao futebol masculino, apesar de também ser maravilhoso, jamais entenderá.

Vai que é tua, mulherada! O Brasil inteiro está olhando e torcendo por vocês <3 #CHnaCopa

Continua após a publicidade

Publicidade