Rússia vs. Ucrânia: há chances reais de uma 3ª Guerra Mundial ocorrer?

Conversamos com professores de História e Relações Internacionais para entender mais sobre a questão

Por Isabella Otto Atualizado em 18 Maio 2022, 18h24 - Publicado em 18 Maio 2022, 14h01

Na tentativa de enfraquecer o exército russo, Finlândia e Suécia apresentaram um pedido formal de adesão à Otan na manhã desta quarta-feira (18), que tirou Vladimir Putin do sério, uma vez que essa movimentação significaria o fortalecimento dos Estados Unidos, com quem a Rússia não se bica há anos

Além disso, a expansão da Oganização do Tratado do Atlântico Norte é um problema para o presidente russo, tanto que a aproximação da Ucrânia ao tratado – e, consequentemente, sua “ocidentalização” – foi o estopim para o conflito entre Rússia e o país comandado por Volodymyr Zelenskyy.

Vladimir Putin durante parada militar que aconteceu em maio de 2022. Ele veste um sobretudo preto, é um homem branco e com cabelo grisalho. Está cercado de soldados.
Vladimir Putin durante parada militar que aconteceu em maio de 2022 Sefa Karacan/Anadolu Agency/Getty Images

Durante a cúpula da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que ocorreu na última segunda-feira (16), em Moscou, o presidente Putin disse que a expansão militar da Finlândia e Suécia em território russo é preocupante e exigiria uma movimentação por parte das forças armadas do país.

Serguei Riabkov, vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, também se manifestou e falou sobre o flerte desses novos países europeus com a Otan ser um “grave erro adicional, cujas consequências terão um longo alcance”.

 

O conflito entre Rússia e Ucrânia parece estar longe do fim, mas será que existe a possibilidade dele evoluir para uma 3ª Guerra Mundial, como alguns especulam por aí? Para entender essa questão, a CAPRICHO conversou com historiadores, que, analisando o contexto global atual e o passado histórico, opinam sobre o assunto.

Bruna Auad, professora de História no Colégio Joseense, diz ser difícil fazer afirmações quando falamos em política internacional, porque os fatos mudam de um dia para o outro, mas que não acredita na eclosão de uma 3ª Grande Guerra. “Ela compreenderia no envolvimento das mais poderosas potências do globo, como Estados Unidos, Rússia, China e União Europeia. Envolver-se em um conflito como este significaria imensuráveis perdas humanas e econômicas. Afinal, não pode haver vencedores em uma guerra nuclear. Contudo, infelizmente, sabemos que o risco existe e não deve ser subestimado”, garante.

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O professor de História, Geografia, Sociologia e Filosofia da Escola Luminova Interlagos, Celso Diorio, concorda com a colega: “A ideia de uma 3ª Guerra não pode ser descartada, pois Putin pode não estar blefando, ainda que soe apenas como ameaça, uma vez que ele se recusa a dialogar com outras potências”, explica.

Ilustração de bobas nucleares apontadas umas para as outras
Peter Zelei Images/Getty Images

Para Diorio, só a diplomacia pode responder se o presidente russo está mentindo ou não a respeito de uma grande guerra. “Tanto a União Europeia quanto os EUA precisam compreender que o cenário mundial é outro, que não somos mais o mundo de 1945. A globalização é uma realidade, a troca de informações, de tecnologia, de processos industriais multinacionais, tudo isso deve ser levado em consideração. Agir por impulso ou vingança, por causa de conflitos antigos, não levará a lugar nenhum”, analisa.

A historiadora Thais Duarte também acredita ser precipitado cravar algo, por mais que o cenário de uma guerra nuclear pareça bastante improvável, uma vez que ele resultaria no fim do mundo. “Entretanto, há grande potencial para o desenrolar de uma guerra com consequências ainda mais severas do que já se tem”, sinaliza.

Pedro Costa Júnior, professor de Relações Internacionais e pesquisador da USP, complementa a fala de Thais. Ele explica que um conflito entre Rússia e EUA seria capaz de destruir o mundo dezenas de vezes, já que esses dois países controlam cerca de 6 mil ogivas nucleares cada, segundo levantamento do Federal American Scientist. “Como se trata de algo muito sensível, provavelmente a Otan vai tentar desgastar ao máximo o exército russo e continuar punindo o país com sanções”, aposta.

Em 2019, o artigo “Novo estudo descreve o Inverno Nuclear que teríamos se EUA e Rússia explodissem suas bombas”, publicado no Science Alert, mostra que uma guerra nuclear entre essas duas potências faria com que a Terra mergulhasse em um Inverno Nuclear intenso, com tempestades de fogo tomando conta do globo, casos de cegueira coletiva por flash, radiação sendo transportada pelo vento por quilômetros, etc.

Volodymyr Zelenskyy durante coletiva de imprensa que rolou em Kiev capital da Ucrânia
Volodymyr Zelenskyy durante coletiva de imprensa que rolou em Kiev capital da Ucrânia Volodymyr Tarasov/ Ukrinform/Future Publishing/Getty Images

Exatamente por esse cenário catastrófico, Pedro Costa considera nula a chance de uma 3ª Guerra. “Ela implicaria pura e simplesmente no fim do mundo como concebemos, o fim da humanidade, do planeta Terra”, pontua.

Além disso, para que a 3ªGM acontecesse, a Otan, mais precisamente os EUA, teria que enviar tropas para a Ucrânia, e isso Joe Biden [presidente norte-americano] já deixou claro que não vai acontecer. “Então, eles agem com sanções econômicas e sobre agentes individuais russos, como magnatas, fora da Rússia. Por outro lado, eles vão respaldando o governo ucraniano e enviam armas, mas não enviam soldados – assim como fazem países da Otan”, explica o pesquisador da USP.

O professor Carlos Gregório dos Santos Gianelli, doutor em História e professor do Marista Escola Social Lucia Mayvorne, também acredita que o conflito entre Rússia e Ucrânia não se transforme na 3ª Grande Guerra. “O principal motivo é que vários países da parte ocidental da Europa, como a Alemanha, seriam muito afetados por uma crise de abastecimento energético, já que dependem da Rússia para o fornecimento de gás natural. Outro motivo é que não seria vantajoso economicamente para a maioria dos países da OTAN se envolver mais diretamente nesse conflito. O principal interessado politicamente nessa história seria os EUA, pois ele ganharia peso político liderando uma ofensiva contra a Rússia. Enfim, acho difícil, mas, assim como todo início de conflito, as coisas são meio imprevisíveis”, liga o alerta.

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