Por que a estátua da manifestante negra foi removida de Bristol?

No lugar onde antes estava a estátua do escravocrata Edward Colston foi colocada uma em homenagem ao #BlackLivesMatter - mas ela durou poucas horas

Por Isabella Otto Atualizado em 17 jul 2020, 21h16 - Publicado em 16 jul 2020, 13h40

No dia 7 de junho, durante ato antirracista do movimento #BlackLivesMatter, em Bristol, no Reino Unido, manifestantes derrubaram a estátua que homenageava Edward Colston, um famoso traficante de escravos inglês, como forma de protesto. Na época, a prefeitura da cidade recuperou o monumento e informou que ele seria levado para “um lugar seguro antes de se tornar parte da coleção do museu local”.

Imagem erguida em homenagem à manifestante Jen Reid Matthew Horwood/Getty Images

Na madrugada desta quinta-feira (16/7), no lugar onde antes estava erguida a estátua do escravocrata, foi colocada uma outra em homenagem a uma manifestante negra com o punho erguido. A mulher é Jen Reid, que foi fotografada pelo marido durante o ato em junho. A foto acabou viralizando e chegando até o artista Marc Quinn, de Londres, que recriou a imagem em forma de monumento.

Estima-se que um grupo de 10 pessoas tenha participado da instalação da obra “Um rompante de Poder”, que foi removida pela prefeitura de Bristol algumas horas depois. De acordo com o prefeito, Marvin Rees, por ter sido colocada de uma maneira “clandestina”, a estátua foi retirada e encaminhada também para um local seguro. Lá ela ficará até que o artista decida se quer coletá-la ou doá-la para o acervo do museu da cidade. Marc Quinn também deverá arcar com os custos da remoção.

Questionado, o prefeito disse que entendeu a provocação e que, “se a população quiser”, a estátua poderá ser colocada de maneira legal e substituir a anterior, de Edward Colston. Por ora, o local segue vazio, sem nenhum novo monumento.

  • Memória histórica ou homenagem a racista?

    Durante manifestações do #BlackLivesMatter, que se iniciaram após o assassinato do afro-americano George Floyd pelo policial Derek Chauvin, que aconteceu no dia 25 de maio, em Minneapolis, no Minnesota, várias estátuas foram alvo de protestos.

    Além da de Edward Colston, em Bristol, uma efígie em homenagem ao colonizador Cristóvão Colombo foi jogada em um lago de Richmond, nos Estados Unidos. Mais recentemente, o Museu de História Natural de Nova York anunciou a remoção da famosa estátua de Theodore Roosevelt, que aparece inclusive no filme Uma Noite no Museu, pois, para tantos, ela e o ex-presidente são símbolos do colonialismo e da discriminação racial.

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    Enquanto alguns defendem que erguer estátuas em homenagem a racistas é compactuar com o racismo e com regimes e movimentos que nele são pautados, como a professora Iris Kantor, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, que em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo disse que, “por trás desse debate sobre o protagonismo nos mortos no mundo dos vivos, havia a intenção de fortalecer grupos políticos, manter oligarquias urbanas ou consolidar dinastias, nobrezas”, outros acham que derrubar monumentos históricos é apagar o passado, mesmo que um bastante problemático, e o valor simbólico que essas estátuas carregam consigo – mesmo que negativo.

    Como ficou a placa da Penny Lane, em Liverpool, após protesto Peter Byrne/PA Images/Getty Images

    Por exemplo, quando manifestantes da luta antirracista ameaçaram derrubar a estátua de Robert Baden-Powell, fundador do movimento escotista e acusado de racismo, homofobia e de ter vínculos com o nazismo, em Bournemouth, na Inglaterra, alguns manifestantes brancos da oposição se organizaram ao redor do monumento para, segundo eles, protegê-lo e proteger a honra dos milhões de escoteiros ao redor do mundo.

    Há ainda aqueles que pedem cautela na hora de protestar, pois nem sempre há indícios concretos de que aquela obra ou rua foi criada em homenagem a símbolos racistas da história. Foi o que aconteceu em Liverpool, com a placa da icônica Penny Lane, nome de uma das canções dos Beatles e local visitado anualmente por milhares de turistas. A placa do logradouro foi pichada com a justificativa de que ele leva o nome de um comerciante de escravos chamado James Penny.

    Protesto sobre o protesto Matthew Horwood/Getty Images

    O prefeito da cidade cogitou mudar o nome do endereço, mas antes pediu que o historiador Richard MacDonald, que trabalha no Museu Internacional da Escravidão, em Liverpool, fizesse uma investigação. Foi concluído que o nome da rua Penny Lane não tem histórico racista. “Isso será um alívio para os fãs dos Beatles e para o setor de turismo local, mas também significa que o Museu da Escravidão pode continuar com o excelente trabalho que faz para educar, informar e nos ajudar a aprender com a história”, emitiu em nota oficial o museu.

    Voltando ao episódio recente em Bristol, uma placa chegou a ser colocada antes de a estátua da manifestante negra ser removida pela prefeitura, com os dizeres: “Marc Quinn ama dinheiro, não as pessoas negras”. Mais um capítulo para essa longa discussão.

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