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Dormindo com a inimiga

De um lado do ringue, você. No outro canto, ela, sua irmã. No meio da treta, seus pais. Como sobreviver nessa história de Caim e Abel versão feminina e teen

Por Da Redação Atualizado em 24 ago 2016, 23h48 - Publicado em 22 jul 2013, 18h57

A Natália, quando tinha 15, saía para as baladas na boa. A irmã, Bruna, que tem 15 agora, reclama que quase nunca pode sair. Já viu, né?

Quando Natália Cavanellas, 20 anos, tinha 15, ela simplesmente avisava os pais que estava saindo e se jogava nas baladas. Hoje, sua irmã, Bruna, que está na sua vez de ter 15 anos, enfrenta uma série de restrições para sair à noite. “Minha mãe vê a Bruna como uma criança ainda e por isso a protege mais. Vendo como ela é, a turma dela, o pessoal da idade dela, tenho certeza de que eu era mais madura quando tinha 15”, justifica Natália. O que é tão simples para a irmã mais velha não é tão bem aceito pela caçula. “Minha mãe dá a desculpa de que meus amigos moram longe para não me levar nas festas. E que minha irmã andava com um pessoal mais velho e sempre tinha carona. Mas não acho que é isso. Que eu me lembre, ela levava, sim, a Natália para a balada”, reclama Bruna.

Diferenças aparentemente pequenas podem causar mal-estar e mesmo competição entre irmãs. Até Bruna e Natália, que são superamigas, às vezes acabam caindo nas disputas caseiras de “quem pode mais”. “Outro dia a Natália chegou em casa e disse para mim ‘Faz aí uma tatuagem’. Minha mãe quase teve um treco e a minha irmã soltou um ‘Ah, mas quando eu tinha 15 eu já tinha uma'”, desabafa Bruna.

Claro que a pequena discussão, sem grandes proporções ou o suficiente para estragar a amizade das irmãs, não chega nem perto da que existe entre Maria João e Giovana, personagens que são irmãs na novela Belíssima e que competem em tudo: quem é a mais bonita, quem é a mais inteligente, quem tem mais a atenção dos pais, dos homens. Historinha de novela? Não mesmo.

Rebecca Baumgartner, 17 anos, tem uma história com a irmã que daria um filme. A disputa entre as duas começou logo cedo, quando Rebecca era pequenininha, e Sarah, hoje com 21, morria de ciúme. De lá pra cá nada mudou. Inclusive ficou mais forte . “Meus pais se separaram e nós moramos com a minha mãe durante uns seis anos. Depois ela resolveu ir morar com meu pai na Suíça. Um dos motivos da decisão dela, com certeza, eram as nossas brigas freqüentes”, conta Rebecca.

A distância entre as duas até recentemente não tinha ajudado em nada a melhora do relacionamento das duas. “Só nos falávamos mesmo quando eu ia pra lá, de dez em dez meses. Nesse meio-tempo só um ‘Oi’ e ‘Tchau’ quando minha mãe ligava pra ela. Para piorar, toda vez que eu ia visitar meu pai, ele, que me vê tão pouco, me dava uma baita atenção e fazia todas as minhas vontades. Minha irmã ficava furiosa com isso. Sempre reclamou que eu era a princesinha da casa e que não ligavam pra ela.”

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Duas demonstrações da irmã marcaram a lembrança de Rebecca. “Uma vez li o diário da minha irmã. Ela tinha escrito que eu iria pagar por tudo que tinha feito. Fiquei pensando: ‘Poxa, desculpa por existir’. Outra vez ela me desenhou na escola com uma coroa. E olha que ela já tinha uns 18 anos!”, surpreende-se. Apesar de todas as desavenças e competições, parece que as coisas vão melhorar entre as irmãs Baumgartner. Nas férias passadas, Rebecca foi para a Suíça com uma amiga, aprontou muito e tomou uma bronca do pai. A irmã não se conteve e disse que aquilo estava acontecendo porque ela não era mais a queridinha da casa. Por incrível que pareça, a situação aproximou as duas. Assim como alguns pequenos desentendimentos que Rebecca andou tendo com a mãe. “Acho que por tudo isso ela percebeu que não sou a ‘perfeitinha’ que os outros falavam que eu era. Ou que ela imaginava que eu fosse”, conclui Rebecca, que espera que nestas férias agora ela e a irmã consigam ficar mais amigas.

Agora engana-se quem pensa que competição só existe entre irmãs mulheres. Mona Taha, 18 anos, que o diga. Seus dois irmãos mais velhos, Tarik, 22, e Murched, 24, vivem fazendo questão de mostrar que são eles que podem tudo e ela nada. “Eles saem juntos, mas não me deixam ir e ainda me criticam se me encontram em alguma balada. Fazem complô mesmo”, conta ela. A última foi que Mona e suas amigas planejam (talvez planejavam) ir para um carnaval fora de época em Itu, interior de São Paulo, onde a família tem um sítio. O irmão, que também vai com os amigos, não quer deixá-la ir e ainda diz que a casa “é dele”, porque avisou os pais antes. “O sítio não é dele. Não quero nem saber. Eu e minhas amigas já compramos nossos ingressos e vamos nem que seja para chegar lá só para dormir”, protesta ela.

Mona reclama que também tem menos liberdade que os irmãos. “Tirei carta e meus pais não me deixam sair à noite dirigindo. Se saio com minhas amigas, eles ligam de cinco em cinco minutos. Em compensação, meus irmãos saem a qualquer hora e voltam de manhã. E quando não dormem em casa nem avisam.” Mona cansou tanto da disputa por “poder” dentro de casa que não fala há quatro meses com Tarik. A briga com o irmão tem até um lado engraçado: os dois fazem aula de inglês particular juntos. “Há quatro meses a gente só conversa em inglês, porque na aula somos obrigados a falar”, diz ela, que assume que a situação acaba sendo cômica.

Segundo Sandra Fedullo Colombo, terapeuta e presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar, a competição entre irmãos é normal e saudável, mas até certo ponto. “É na relação entre os adolescentes e seus iguais – no caso os irmãos – que eles aprendem as regras sociais, o que pode e o que não pode ao medir as forças”, explica. Quando a situação passa do limite, no entanto, é sinal de que algo não vai bem e que os pais devem intervir. “As situações de competição sempre têm como pano de fundo os pais, que são os arquitetos das famílias. Eles é que vão mostrar os valores dentro do grupo familiar. O problema é quando os pais mostram o que acham legal e o que não acham através das comparações, valorizando um e desprestigiando outro”, adverte.

Se a coisa está feia entre você e a sua irmã, com o agravante de você estar se sentindo diminuída dentro da sua casa, é melhor tomar uma atitude. A terapeuta Sandra Fedullo Colombo dá umas dicas.

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Valorize-se: sua irmã é linda, simpática e o mundo inteiro repara nela e não em você? Bem, pelo visto sua irmã sabe mostrar as qualidades dela. Em vez de combatê-la, descubra as suas e invista nelas, mostre o que você tem de bom.

Converse com alguém: se a situação está deixando você chateada, nada melhor do que uma conversa de desabafo. Pode ser com sua mãe, com a sua tia ou com quem você se sentir à vontade.

Levante seu astral: às vezes parar de ficar pensando na situação ajuda muito. Procure fazer coisas de que você goste e que não faz há um tempo. Se estiver feliz, vai estar imune às provocações.

Não caia nesta: se sua irmã/irmão é do tipo que provoca, o melhor a fazer é ignorar. Quanto mais der bola, mais vai ficar fragilizada. Não ligar já é sinal de superioridade. Uma hora ela vai desistir.

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