Aos 15 anos, Isa cria projeto que incentiva a liderança de meninas negras

'Percebi que não são muitas meninas negras que têm a mesma oportunidade que eu. E isso começou a me incomodar muito', comenta Isabelle dos Santos.

Por Ana Carolina Pinheiro 8 set 2018, 10h01

Em um mundo ideal, todos jovens têm o direito de ter acesso à educação, além de outras condições básicas de vida. Porém, na prática, nós sabemos que não é bem assim que funciona. Classe social, raça e gênero são pontos que ainda afastam o ensino de qualidade de uma parcela enorme da população no Brasil.

As meninas do projeto já participaram de várias feiras de inovação e tecnologia. Arquivo Pessoal/Reprodução

Para se ter uma ideia, segundo uma pesquisa da Todos pela Educação, de 2016, a porcentagem de estudantes pretos e pardos de 15 a 17 anos que estão no ensino médio é aproximadamente 15% menor do que a de alunos brancos. No ensino superior, a realidade é ainda mais preocupante, já que só 10% das mulheres negras completam a graduação, segundo o IBGE.

Acompanhando e vivendo essa desigualdade de perto, Isabelle dos Santos, de 15 anos, resolveu transformar seu incômodo em uma iniciativa para tentar mudar tudo isso. Nascida na periferia de São Paulo, no bairro do Grajaú, a girl power passou por situações bem complicadas durante a infância, mas que não a fizeram desistir de seus sonhos. Pelo contrário! Serviram como combustível para persistir neles.

Com o apoio de professores e da sua mãe, Isa entrou para um projeto social e garantiu uma bolsa de estudo em um colégio particular de Mogi das Cruzes, cidade onde morou até os 11 anos. A escola percebeu que a aluna precisava alçar novos voos e, quando ela estava no sétimo ano, sugeriu que procurasse um espaço ainda melhor para se desenvolver. Depois da sugestão da direção, Isa voltou para São Paulo com a sua mãe e, após passar em um processo seletivo, ganhou uma bolsa para estudar em de uma das escolas mais conceituadas da cidade.

“Eu quero ser engenheira, mas espero fazer cursos de diversas área”, comenta Isa. Arquivo Pessoal/Reprodução

Se você pensou que ela já estava satisfeita com essas conquistas, pode ter certeza que não, viu? A partir desse momento, a jovem resolveu criar o Projeto Meninas Negras para garantir que garotas afrodescendentes, como ela, tivessem a oportunidade de ter estudo de qualidade, profissão desejada e mais opções culturais. Incrível, né? Então, confira abaixo o bate-papo inspirador que tive com a Isa!

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ANA: Como você teve a ideia de criar o Projeto Meninas Negras?
ISA: Com 13 anos, eu comecei a observar ao meu redor e percebi que não são muitas meninas negras que têm a mesma oportunidade que eu. E isso começou a me incomodar muito. Para mudar essa realidade, resolvi tomar uma atitude e pensei em criar um blog. Mas, quando eu fiz 14 anos, a ideia acabou se transformando no Projeto Meninas Negras, que foi criado em setembro de 2017.

ANA: E qual é a missão desta iniciativa?
ISA: O projeto tem o objetivo de inserir meninas afrodescendentes de 12 a 24 anos, cada vez mais, na sociedade por meio de três pilares: educação, profissão e cultura. Meu desejo, de verdade, é ter o maior número de meninas negras com a gente para que elas se tornem líderes, cidadãs do mundo e multipliquem isso para que mais meninas possam ter também essa oportunidade.

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Projeto Meninas Negras realizou sua atividade presencial piloto!!!! Uhuuulll👊🏽 Participamos do evento IBM BLACK WOMAN IN TECH promovido pela IBM 🙂 Um meetup para meninas negras que sonham alto e curtem tecnologia. Uma manhã inteira de sábado com muito conhecimento, experências e vivências trocadas.

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ANA: Quais são as atividades que as meninas realizam no projeto?
ISA: A maioria delas vem de escola pública e, infelizmente, nós sabemos que é a preparação é bem precária. Por isso, contamos com vários voluntários que dão aulas de português, matemática e inglês. Também temos executivos e coaches que fazem uma orientação mais individualizada sobre carreira e futuro. Nós usamos bastantes ferramentas tecnológicas para fazermos essas aulas, já que ainda não temos um espaço físico. Mas estamos correndo atrás disso. Mensalmente, também nos encontramos em locais públicos para fazer atividades mais lúdicas.

ANA: Antes de estudar em escolas particulares, você também passou pelo ensino público. Como enxerga essas duas realidades?
ISA: Eu achei que fosse passar por algum tipo de preconceito quando entrei na escola particular, mas, felizmente, não aconteceu nada disso. As pessoas de lá são bem receptivas e ainda tem uma troca de experiência muito boa entre os alunos que são bolsistas e os que não são. Mas, como eu moro na periferia, eu saio de um mundo e vou para outro totalmente diferente, que eu não tinha acesso antes. Até por isso uma das propostas do projeto é fazer com que esses dois mundos se conectem, e não fiquem duas coisas separadas como eu vejo todo dia.

ANA: O que uma menina precisa fazer para entrar no Projeto?
ISA: É só falar com a gente pelas redes sociais (Facebook e Instagram), contar o motivo que a fez se interessar pelo projeto e vir com a gente!

ANA: Para você, como o mundo pode ser mais acolhedor às meninas negras?
ISA: Em primeiro lugar, eu acho que todo mundo deveria ter mais empatia com o próximo e entender o lado do outro. Sem isso, nós não vamos conseguir chegar a lugar nenhum. É preciso entender também de que forma você pode ajudar, indiretamente ou diretamente. Às vezes, uma coisa mínima, que pode parecer besta para gente, pode fazer uma diferença enorme para outra pessoa. Se as pessoas começarem a ter essa atitude, tudo ao redor vai começar a mudar também. São pequenas ações que vão gerar grandes impactos.

ANA: E qual o seu maior sonho?
ISA: O meu sonho é rodar o mundo, impactando o maior número de vidas possíveis e transformando o sonho delas em realidade. Ah, e ganhar o Nobel da Paz. (risos)

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