Achar que a pandemia acabou é viver de ilusão e ser conivente com mortes

A alienação causada pelo privilégio, sobretudo pelo de classe, explica o porquê de tantos estarem agindo como se o coronavírus não fosse mais uma ameaça

Por Isabella Otto - Atualizado em 16 ago 2020, 12h08 - Publicado em 13 ago 2020, 11h25

“Alô, alô! Planeta Terra chamando!” Era com esta frase que o personagem Lucas Silva e Silva abria os seus diários de bordo no seriado Mundo da Lua, sucesso da TV Cultura nos anos 90. Para o seu gravador, Lucas sempre contava alguma história criativa sobre questões cotidianas, algumas até bastante bizarras. E parece que, em plena pandemia de coronavírus, algumas pessoas se encontram, assim como o protagonista, no mundo da Lua, agindo como se a vida tivesse voltado ao normal – e nem é o “novo normal”, como dizem por aí. A COVID-19 não é mais uma ameaça tão grande assim ou simplesmente normalizamos os recordes diários de infectados e mortos pela doença no Brasil? Mesmo sonhando acordado e sendo criança, Lucas Silva e Silva saberia a resposta certa para essa questão.

Retratação da alienação causada pelo privilégio, sobretudo pelo de classe Bureau Nz Limited/Getty Images

No último domingo (9/8), tivemos um Dia dos Pais atípico, com famílias celebrando à distância e outras nem podendo se dar a esse luxo. Em plena pandemia, comemorar a data foi, sim, um baita privilégio. No sábado (8), um dia antes, o Brasil ultrapassou a marca de 100 mil mortos pela doença. Hoje, são mais de 104 mil vítimas e mais de 3 milhões de casos confirmados. No mundo, são mais de 20 milhões de infectados e 749 mil mortes. Em breve, devemos registrar a marca global de 1 milhão de mortos pelo novo coronavírus. Mas as pessoas que vivem no mundo da Lua estão achando que a pandemia acabou, e o pior: estão agindo como se isso realmente fosse verdade.

Não estamos falando daqueles que precisaram voltar ao trabalho com a flexibilização da quarentena ou que nunca puderam praticar o isolamento social. Estamos nos referindo àquelas pessoas que têm condições de continuar em casa, evitar aglomerações, praticar o distanciamento, mas estão se reunindo com amigos, viajando com a família, ostentando o privilégio de poder visitar lugares que inclusive não estão recebendo turistas brasileiros, porque o Brasil, junto com os Estados Unidos, a Índia e o México são o epicentro do vírus, com políticas de combate bastante falhas. Estamos falando principalmente de você que, com seu jatinho ou motorista particular, foi passear, não usou máscara, não respeitou o luto dos outros, não teve empatia e ainda por cima questionou aqueles que ainda estão fazendo quarentena com um triste e mesquinho: “Mas ela já acabou”. Só ser for no seu mundinho da Lua, onde talvez a quarentena sequer tenha começado.

Metáfora tendo como base “Parasita”, ganhador do Oscar 2020 de melhor filme, que mostra desigualdades sociais e econômicas da Coreia do Sul Filme Parasita/Divulgação/CAPRICHO

Na última segunda-feira (10), Michael Ryan, diretor de emergências da OMS, disse que “o Brasil está sustentando um nível muito alto de epidemia”, que a curva achatou um pouco, mas não diminuiu e que os sistemas de saúde continuam sobrecarregados. “A ocupação das UTIs em muitos lugares agora ultrapassa 80%. Em alguns lugares, 90%. Qualquer pessoa que trabalhe em UTI e com uma situação de doenças infecciosas reconhece a pressão e o estresse sobre essas pessoas e suas famílias. Sustentar isso por meses é uma tarefa quase impossível“, pontuou o especialista. Adiar planos que podem ser adiados, mesmo que seja aquela viagem dos sonhos, que pode ser reagendada, é um ato de solidariedade aos que perderam a batalha contra a COVID-19, aos que estão em guerra, aos enlutados, aos profissionais de saúde, aos que precisam fazer transplantes e cirurgias de emergência, aos estudantes, aos professores e funcionários da educação, aos que precisam sair de casa diariamente e usar máscaras de proteção horas a fio, aos que não podem fazer home office, aos que ainda estão empregados.

A vida tem que continuar, é verdade. É complicado parar um país tão grande e desigual como Brasil, com intensas crises políticas e econômicas, mas aquilo que não for de primeira necessidade deve esperar. Mesmo que você tenha condições de fazer tudo certinho, seguindo o protocolo da Organização Mundial da Saúde, colocando o mínimo de pessoas em risco, indo para lugares onde as chances de contágio são baixas, espere. Porque você ter condições de fazer tudo isso significa que tem privilégios que, acredite, a maioria da população não tem. Levando em conta que o Sars-Cov-2 mata negros e pobres de forma desproporcional ao que mata brancos e ricos, é o mínimo de empatia exigido. Não é hora de ostentar seu privilégio num dos países com mais vítimas fatais pelo novo coronavírus.

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