7 dificuldades reais oficiais enfrentadas por pessoas transexuais

Importa para você, sim, porque respeito importa para todo mundo.

Por Da Redação - 29 jan 2019, 13h30

O Governo dos Estados unidos estuda a proposta de banir oficialmente o reconhecimento da transexualidade no país. Na prática, isso significaria que as pessoas trans, basicamente, deixariam de existir. É como se o Estado negasse a elas o direito de serem consideradas cidadãs. A notícia de que Donald Trump estaria estudando esse banimento foi divulgada em 2018. Desde então, pessoas trans vêm se manifestando nas redes sociais e organizando atos de resistência.

Bandeira Transexuais | Orgulho Trans
Bandeira dos Transexuais/do Orgulho Trans. Reprodução

Para começo de conversa, é importante explicar o que o termo “trans” significa, pois muitos ainda têm dúvida – e não há o menor problema nisso. Mas se a dúvida existe, é importante tirá-la para não sair por aí reproduzindo baboseiras, certo? “Trans” é a abreviação de transgênero, expressão usada para definir uma pessoa que não se identifica com o gênero que nasceu (homem/mulher). Para exemplificar, vamos resumir brevemente a história da Mandy Candy, que já conversou com a gente anteriormente sobre o assunto. Quando nasceu, o médico disse que Mandy era um menino e, desde então, a sociedade ditou algumas regrinhas de vida, como: Mandy deveria gostar de futebol, de azul, de brincar de carrinhos e de meninas. Mas ela não se identificativa com isso. Ela era uma garota em um corpo de rapaz. Mandy é uma mulher transexual e sempre foi. Agora, se você é uma garota, tem um corpo de garota (lê-se “tem um órgão sexual feminino”) e se identifica de todas as formas com o seu gênero de nascença, você é uma mulher “cis” (ou cisgênero). Deu para entender?

As pessoas trans, por fazerem parte de uma minoria, encontram mais dificuldades na vida que uma pessoa cis. É um fato, não tem nem o que discutir. Você sabia, por exemplo, que a expectativa de vida dos transexuais no Brasil é de 36 anos, de acordo com dados divulgados pela Unesp em 2015? Isso se deve a diversos fatores, muitos abordados logo abaixo, que quando somados afetam negativamente a qualidade de vida de um transexual. 

1. ACEITAÇÃO
O primeiro passo para ser aceita é se aceitar. Você já deve ter escutado essa frase antes. No caso das mulheres trans, além de elas aceitarem o fato de serem trans, pois muitas têm vergonha ou medo disso, elas ainda precisam lidar com o fato de que algumas pessoas acham que se uma mulher transexual não conta que é trans, ela está tentando enganar as pessoas ou pregar uma espécie de armadilha. Errado. A mulher trans não precisa se explicar ou dar satisfação se não se sentir confortável com isso. Ela não tem essa necessidade. Há também a dificuldade de, muitas vezes, contar para os pais e a família sobre quem você é e não receber apoio – ou receber um falso apoio -, e não encontrar informações suficientes para cessar todas as suas dúvidas. No vídeo abaixo, Isa Momora fala sobre amar o seu corpo – e a sua voz – mesmo que os outros insistam em te colocar para baixo.

2. TRATAMENTO HORMONAL
Em 2013, o Hospital das Clínicas de São Paulo foi primeiro no Brasil a implementar o tratamento hormonal para adolescentes transsexuais. Em 2015, a Prefeitura de São Paulo ampliou seu programa de atendimento e passou a distribuir tratamento hormonal gratuito em alguns centros médicos. Duas notícias bastante positivas, contudo, é importante lembrar que o nosso país é gigante e que nem todo mundo mora em São Paulo. Nas cidades do interior, por exemplo, ser uma mulher trans é extremamente complicado, não só pela questão do difícil acesso ao tratamento e a informações, mas também pela questão de essas cidadezinhas serem mais conservadoras. Infelizmente, ainda tem muita gente que usa a falta de Deus para culpar e justificar a transexualidade. No vídeo abaixo, Vi Guarizo conta quais são as maiores dificuldades durante o tratamento, como oscilação do humor e dores. Mas também tem muita coisa positiva, viu? Afinal, só com o tratamento algumas mulheres trans finalmente começam a se enxergar nelas mesmas.

3. CIRURGIA DE REDESIGNAÇÃO SEXUAL
Não, não existe cirurgia de mudança de sexo, apesar de o termo continuar bastante popular. O termo correto é redesignação sexual. Mandy Candy foi até a Tailândia realizar a cirurgia, depois de juntar muito dinheiro, pesquisar sobre o assunto e ir atrás de médicos confiáveis. Em alguns lugares asiáticos, o procedimento de redesignação sexual é mais acessível que no Brasil, por exemplo, em que a pessoa precisa passar por acompanhamento médico e psicológico durante dois anos antes de a cirurgia acontecer. No vídeo, a youtuber alerta para os perigos de se submeter ao procedimento em clínicas clandestinas. Contudo, infelizmente, essa é a realidade de muitas mulheres trans mundo afora, que não têm condições de bancar uma cirurgia com um médico confiável, não recebem o suporte da família e só querem sentir mente e corpo alinhados. Quando não se tem nada, nada se tem a perder. Vale lembrar que nem toda mulher transexual sente a necessidade de fazer a cirurgia.

4. TRANSFOBIA
De acordo com um levantamento realizado pela Unesp em 2015, 40% dos assassinatos de transexuais no mundo ocorrem no Brasil. É muita coisa. O risco de uma pessoa transgênero ser assassinada por transfobia, para se ter uma ideia, é 14 vezes maior que o risco de um gay ser assassinado por homofobia. O preconceito acontece na escola, nas ruas, dentro de casa. Quando ele não mata ou agride fisicamente, ele despedaça a pessoa por dentro. O preconceito está no olhar, na atitude e na fala de pessoas que muitas vezes não se dizem transfóbicas, mas são. Não podemos nos orgulhar desse recorde de país que mais mata transexuais. Mas se transfobia é crime, não é só denunciar? Não é tão simples assim, pois muitas vezes as próprias autoridades debocham de mulheres trans que denunciam crimes de ódio. Rosa Luz, mulher transexual, negra e afro-latina, conta experiências que teve na primeira semana de aula na faculdade.

5. RELACIONAMENTOS
A Nátaly Neri, do canal Afros e Afins, não é uma mulher trans, mas namora o Jonas Doravante, um homem transexual. No YouTube, o casal conversou abertamente sobre o processo de entender e aceitar a transição do namorado. “Foi um processo difícil, complexo, mas só deu certo quando entendi que o Ju era um indivíduo e que eu estava escolhendo estar com um indivíduo e não com uma idealização DO que eu estava querendo pra mim(…) Tô feliz”, finalizou Ná. Esse é o caminho. <3

6. Empregabilidade
“O mercado de trabalho é totalmente transfóbico, porque ele simplesmente exclui as pessoas trans(…) Então, o nosso direito de viver, de trabalhar para ter uma dignidade não é atendido”, conta Madu Krasny no vídeo abaixo, postado no canal Barraco da Rosa. Além de terem dificuldade na hora da entrevista, muitas trans conseguem a vaga, mas acabam não sendo respeitadas dentro do ambiente de trabalho. Em 2012, a Associação das Travestis e Transexuais do Triângulo Mineiro divulgou um dado assustador: apenas 5% das travestis e transexuais de Uberlândia estavam empregadas formalmente. As outras 95%, estavam se prostituindo. Os anos se passaram e os números não tiveram drásticas mudanças.

7. REPRESENTATIVIDADE
É incrível e necessário ter mulheres trans ativistas no YouTube, uma plataforma que vem se tornando cada dia mais importante e útil para pesquisas. Muitas transexuais encontram respostas assistindo a vídeos na internet de outras pessoas trans. Entretanto, é maravilhoso encontrar uma garota que apesar de ainda sofrer, sim, transfobia no dia a dia, trata de assuntos como crush, pé na bunda, primeiro beijo e friendzone com leveza e sem a militância que, eventualmente, mesmo que erroneamente, passa a impressão de que ser transexual no Brasil é extremamente difícil, cansativo e traumático. É, mas não precisa ser. A mudança começa com você. É preciso recortar e reconhecer cada mulher e seu feminino.

 

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