REPÓRTER AFROFUTURISTA Por Aniké Pellegrini

Quem chega ao século 21 tendo sua identidade invisibilizada é sobrevivente

Aniké Pellegrini, autora da nova coluna da CAPRICHO, elenca algumas das mensagens que fazem Black is King, da Bey, ser tão importante!

Por Aniké Pellegrini - Atualizado em 17 ago 2020, 11h21 - Publicado em 15 ago 2020, 10h11

Black is King. É inegável que esse filme da Beyoncé, produzido para o Disney+, grande lançamento de 2020, veio para marcar. Logo, não teria tema melhor para o lançamento desta coluna. Me chamo Aniké Pellegrini (@keke_bp), tenho 19 anos e falo sobre afrofuturismo. Prazer, sou a Repórter Afrofuturista!

O Afrofuturismo é uma filosofia que envolve história, arte e ciência. Além disso, é uma estética e uma reflexão sobre quais são os espaços que a comunidade negra vai ocupar no futuro. Logo, Black is King é uma obra-prima afrofuturista!

Enquanto eu assistia a Black is King pela primeira vez, não fiz nada além de absorver as mensagens que a cantora transmitia através de toda a produção, que envolve cenário, figurino, elenco, coreografias, etc. Na segunda vez, me atentei em anotar mensagens que eu gostaria de gritar para o mundo para que cada criança que precise ouvi-las se aproprie das potências que elas carregam. Sorte a minha estar na internet e poder efetivamente apontar cada uma dessas mensagens para o mundo:

1. We are all connected (“Nós estamos todos conectados”)

E a gente sabe dessa teia que existe entre nós, da rede que inconscientemente formamos. O que a Beyoncé canta em um ponto do mundo afeta uma garota num ponto extremamente distante. A gente nunca sabe qual a palavra, gesto, imagem ou até mesmo vibração mudará radicalmente a visão que alguém carrega do mundo e de suas perspectivas. Sabemos menos ainda, de tão complexa que essa conexão chega a ser, qual é o retorno que tal influência vai gerar em nós depois. Mas gera.

2. You got my blood in you (“Você tem meu sangue em você”)

A cantora pode ter usado essa frase direcionada para uma figura que, no enredo, carrega laços parentais com ela, mas quando nós, negros, escutamos essa fala, a gente entende que nossa origem é a mesma. Se nossa origem é a mesma, nossas capacidades também são. Projetamos Bey como uma musa, uma artista incrível, visionária e, quando ela nos diz que nosso sangue é igual, absorvemos que podemos ser como ela, porque carregamos essa mesma potência em narrativas diferentes.

3. Follow your light or lose it (“Siga sua luz ou a perca”)

A gente sabe como o sistema funciona com corpos não brancos. A gente sabe que nossas potências ou, como a Beyoncé chama, nossas luzes são constantemente ofuscadas e negadas para que a gente não se destaque. O que a artista traz é o estímulo para que a gente se aproprie dessa luz e não a perca. É mais fácil conter vozes quando elas estão baixas ou silenciadas, por isso é extremamente importante que saibamos que a gente pode e deve aumentar o volume, especialmente em espaços que ainda nos são negados.

4. If I can’t speak myself, I can’t know myself. How would I ever know me? (“Se eu não posso falar por mim, eu não posso me conhecer. Como vou me conhecer assim?”)

Quando a narrativa não vem pelo nosso lado, com a nossa perspectiva, a gente conhece apenas o olhar e a opinião que o outro tem de nós. Vale também associar essa passagem com ocasiões em que precisamos falar algo em voz alta para aprender e assimilar. Como eu vou assimilar algo que não posso dizer? Bem, essa é mais uma crítica social que deve ser levada adiante e colocada em pauta.

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5. Everybody is somebody (“Todo mundo é alguém”)

A comparação é um processo de autointoxicação e devemos fugir desse ciclo vicioso. Precisamos lembrar que cada um tem uma narrativa e uma trajetória, que inclusive não começa em nós, mas nos nossos antepassados. Nós somos reflexos e continuações deles. Além disso, precisamos trilhar um processo de autoconhecimento que começa, caminha e termina em “quem nós somos” em vez de “quem nós somos em comparação a”.

6. We shine already (“Nós já brilhamos”)

Sabe aquele papo que coloquei ali em cima sobre seguirmos nossa luz? Então, se você desconsiderou esse trecho porque acha que não tem luz nenhuma, a própria Bey te diz que ela já existe em você! Aprendi com a empreendedora Júlia Costa, através do programa que apresento, o Mina do Corre, que há coisas que ninguém vai nos dizer e, por isso, devemos nos dizer em frente ao espelho. Eu inclusive acrescento que devemos nos dizer em voz alta!

Black Is King/Disney+/YouTube Trailer/Reprodução

7. We were beauty before they know what beauty was (“Nós fomos beleza antes de eles entenderem o que era beleza”)

Não é à toa que tivemos que passar por um processo de reeducação do olhar e desconstrução social sobre padrões de beleza. Sem entender o que é beleza não tem como construir devidamente esse conceito. É difícil se ver bonita, se entender bonita, concordar com sua família que te diz isso todos os dias, quando em outros ambientes, como o escolar, te negam e desvalidam essa beleza. Em quem acreditar? Em seu pai ou mãe ou nos vinte coleguinhas da sala de aula? Lógico que nos seus pais. E na Beyoncé. “Lembre-se do que sua mãe te disse”, diz a cantora em outro trecho de Black is King.

8. Salutations to survivors of the world (“Saudações aos sobreviventes do mundo”)

Se você chegou até aqui, saudações sobrevivente! Brincadeiras à parte, quem chega ao século 21 tendo sua identidade invisibilizada é sobrevivente, sim. E depois que sobrevivemos até aqui, temos uma virada que começa com a busca de quem nós somos. Não é a toa que, a partir desse trecho do filme, o inglês não é a língua que predomina. Percebemos que não precisamos de nenhum idioma para absorver e entender a mensagem que a Beyoncé quer passar. Essa ferramenta que a decodifica já existe dentro de nós.

Bey coloca o mundo para dançar ritmos do continente africano com os quais talvez nunca teríamos contato. Vi inúmeros vídeos de artistas reproduzindo trechos do filme e essa reprodução indica identificação. Afinal, ninguém copia o que acha feio. A cantora nos apresentou também o trabalho de diversos artistas, como Yemi Alade, Lord Afrixana, Stephen Ojo e Loza Maléombho, que talvez não conheceríamos se não fosse ela.

A importância e influência de Black is King e da Beyoncé é incalculável, ainda mais se considerarmos, por exemplo, todas as lágrimas que foram derramadas por aqueles que se identificaram enfim com uma obra do pop. Bey criou um clássico, uma obra que remolda caráter e olhar identitários. Espero que o número de visualizações cresça perpetuamente, porque sempre que a gente assistir, em diferentes momentos individuais e coletivos, o significado será diferente, ao mesmo tempo que será o mesmo.

Black is king! E este é o futuro!

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