REPÓRTER AFROFUTURISTA Por Aniké Pellegrini

Falar sobre crushes é muito mais complexo do que já fizemos até hoje

Esta matéria é para todas as garotas que se sentem deslocadas quando o assunto são crushes, especialmente por questões sócio-raciais

Por Aniké Pellegrini Atualizado em 23 out 2020, 15h22 - Publicado em 25 out 2020, 10h02
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Divulgação/CAPRICHO

Quando a pauta é crushes, existem imagens específicas de pessoas que costumam surgir logo de primeira na cabeça, por causa de filmes como A Barraca do Beijo e O Date Perfeito. Mas falar sobre crushes deveria ser muito mais complexo do que fizemos até agora.

A verdade é que os crushes do momento sempre andaram de mãos dadas com o mercado cinematográfico, da moda e da música, porque é natural que as imagens mais veiculadas sejam consideradas as mais atraentes. Como vamos contrariar o que todos os outdoors, as propagandas, os filmes e as revistas dizem? E essa é uma discussão que influencia a estética do que é considerado “bonito” e facilmente aceito, e consequentemente como nos comportamos diante dessas definições. Se, por exemplo, temos orgulho em apresentar nossos crushes ou se eles são motivos de vergonha e timidez. Indo mais além, essas definições influenciam até mesmo grupos sociais: quem são os populares e quem são os deslocados.

Os atores Michael B. Jordan, Jaden Smith e Ícaro Silva Divulgação/CAPRICHO

Entre a febre do High School Musical e Camp Rock, enquanto todas as mídias e minhas amigas falavam sobre o Zac Efron e os Jonas Brothers, ou então sobre o Justin Bieber, eu me sentia deslocada. Mesmo gostando dos filmes, eu via os pôsteres com esses ~galãs~ e não os achava atraentes. Eu ouvia os comentários sobre eles e não me identificava.

Em casa, o padrão era outro. Minha mãe me falava sobre o Jaden Smith, mas não sabia me posicionar quanto a ele perante minhas amigas, então era mais fácil eu dizer que estava mais preocupada com os estudos. Na verdade, o que acontecia era que eu tinha vergonha de compartilhar meus gostos com elas. O mesmo acontecia quando me perguntavam: “E os namoradinhos?”. Vale aqui destacar que sou uma garota heterossexual e, por isso, ainda tenho privilégios.

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    Meu desafio sempre partiu de questões sócio-raciais. Eu era, na maioria das vezes, a única garota negra da sala de aula ou do grupo de amigas, e também a única (até onde eu sei, porque nunca se tornou pauta) que se interessava por garotos fora do padrão. Em festas, o reflexo disso me acompanhava: eu era a única garota negra do rolê e, curiosamente, só que nem tanto, a única que não ficava com ninguém. Isso me tirou a vontade de frequentar festas e me levou a desenvolver inseguranças. É um ciclo vicioso que, dentro do ambiente escolar, continua acontecendo: os papéis são os mesmos, as cores são as mesmas, as características seguem iguais, só que com novos RGs.

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    Debora Barbosa sobre os crushes que teve na adolescência e como eles eram recebidos pelas amigas Reprodução/CAPRICHO

    Então, esta matéria é para todas as garotas que se sentem deslocadas quando o assunto são crushes. Não tem nada de errado em enxergarmos beleza e acharmos interessante outras personalidades, outras características. O que está errado é a padronização. No meu processo, por exemplo, me identifiquei recentemente com a demissexualidade e, quando esse discurso acerca do crush passa a contemplar espectros da sexualidade, aspectos sociais, de identificação racial e orientações de gênero, passa a ser ainda mais plural… Como tem que ser.

    Cada narrativa tem suas características e para ilustrar, mesmo que eu não possa contemplar todas as realidades e identidades, trouxe aqui as experiências de algumas mulheres nesse jogo da atração e no processo de construção do “crush ideal”:

    1. DEBORA BARBOSA (@1debs1)

    “Meu crush platônico era o Joe Jonas, mas eu não sei se achava ele bonito mesmo ou se era por conta do que a galera curtia na época. Como eu estudava em colégio particular, só tinha referências brancas ao redor. Depois, com Vida de Garoto, da CAPRICHO, meu crush passou a ser o Federico Devito, mas não era uma parada verdadeira, eu só queria ser aceita. Quando comecei a ir em rolês e beijar na boca, meu crush passou a ser (e até hoje é) o Sain (Stephan Peixoto), que eu curtia verdadeiramente. Dos garotos do cotidiano, nenhum que eu fiquei minhas amigas acharam bonito. Eram ‘feios’, ‘nada a ver’ ou ‘maloqueiros’, mas na verdade todos eram pretos. Só isso que eles tinham em comum.”

    2. DJULLY BADU (@djullyb)

    “Nos grupos sociais, eu sempre fui ponte por ser amiga tanto das ‘meninas mais bonitas da escola’ quanto ‘dos meninos mais bonitos’. Para mim, especificamente, era meio difícil ter um crush, porque sabia que não ia dar em nada e, junto a isso, tinha muito medo de ser zoada. Em contrapartida, no ensino médio, só me envolvi com homens negros e racializados. Quando eu ficava com algum garoto branco, mantinha como segredo, porque ninguém acreditava em mim.”

    Quando digitamos no Google “famous crush” ou “crushes famosos”, a maioria das buscas apresenta homens brancos, como Dylan Sprouse, Noah Centineo, Liam Hemsworth, Shawn Mendes e Justin Bieber. Google/Reprodução

    3. BEA MAGALHÃES (@beatrizmgd)

    “Eu sempre fui muito ligada à música e assistia muito a MixTv na adolescência, então um dos primeiros crushes que tive foi o Bruno Mars. Nessa época, quando ele começava a fazer sucesso, eu fazia parte de uma espécie de fã-clube, com várias meninas que conheci na internet. Em outros casos, por ter frequentado muitos ambientes majoritariamente brancos, meus crushes seguiam o padrão mas não davam moral para mim. Quando não se encaixavam nesse perfil, se eu mostrasse para alguma amiga, ela desvalidava o garoto e eu rebatia sempre com respostas como: ‘Essa foto não favorece ele’ ou ‘Ele é mais bonito pessoalmente'”.

    No fim, acaba que esta matéria é também para os meninos que estão fora do padrão de beleza, fora do estabelecido como ideal para ser “o crush perfeito”. É também para os que se encantam por quem também não se encaixa. Espero ter conseguido contemplar minimamente ainda todos os que não se enquadram nem se conformam com a cis-generidade do discurso e da indústria. Espero que essa discussão traga frutos e levante mais questões sobre o tema, para caminharmos atrás de definições (principalmente imagéticas) mais inclusivas possíveis.

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