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11/2007

Meninas que se cortam

Por por Lauro Mesquita às 16:15


Tatiana, Natália, Daniela, Marcella e Ana Carolina talvez nunca se conhecessem se não fosse pelo orkut. De cidades, idades e histórias diferentes, elas se tornaram amigas com um objetivo: superar o hábito de se cortar e se queimar.

Tatiana, 26 anos, é do interior do Rio de Janeiro e sempre se cortou. Há 2 anos, descobriu na internet que não era a única que queria parar de se ferir e criou a comunidade "Não à auto-mutilação" no orkut.

"Queria um espaço onde as pessoas falassem sobre esse mal. E sem fazer apologia, como é comum", conta Tati.

Foi lá que Natália, 17 anos, do interior de São Paulo, finalmente encontrou pessoas que entendiam como ela se sentia quando se cortava.

Diagnosticada com depressão profunda e transtorno bipolar, ela sempre teve dificuldade de falar sobre o assunto com a tia, com quem mora. "Ela sabe que é uma doença, mas ainda trata como se fosse frescura, uma maneira de chamar atenção", explica ela.

A curitibana Ana Carolina, 16 anos, ainda se fere. Mas graças ao tratamento psicológico e psiquiátrico, seus cortes vão se tornando coisa do passado. Na internet, é uma das que mais ajudam meninas com o seu problema.

"Essas comunidades são muito importantes para mim. Conheço as pessoas pessoalmente e apoio eles - um apoio de quem está na mesma situação, e que eu não tinha até alguns meses atrás", disse Ana.

Depressão? Transtornos de personalidade?

As histórias dessas e de outras meninas estão quase sempre entrelaçadas a personalidades marcadas por problemas psicológicos como depressão, transtornos bipolar e borderline.

Pesquisas sobre o assunto dizem que o número de gente que machuca a si mesma dobrou nos últimos dez anos na Europa. Na Inglaterra, os atendimentos hospitalares cresceram 23% de 2004 para 2005. No Brasil, ainda não existem dados precisos, mas o psiquiatra Álvaro Ancona, da Escola Paulista de Medicina, diz que o problema está crescendo muito.

Marcella,17 anos, de Goiânia (GO) foi uma dessas pacientes. Há um ano atrás, foi parar no hospital por causa de um corte profundo no braço que quase lhe tirou os movimentos da mão. Depois disso, ela foi procurar ajuda. "Eu passava a maior parte do tempo fechada em meu quarto, não conseguia me controlar com os cortes", afirma.

Com forte quadro depressivo, sua situação piorou quando uma amiga sua morreu. Depois de ser internada no hospital por causa de cortes, que quase a levaram à morte, ela se convenceu a se tratar. "Eu relutei mas era a única saída para isso". A estudante também conta com o apoio de várias pessoas que conheceu pela Internet, mas evita comunidades. "Não me sinto bem, falando sobre isso", explica.

Como começa?

Mas quais são as raízes desse problema? Segundo a psicóloga Jan Sells, da Universidade de Berkeley (EUA), a auto-mutilação é uma tentativa de aplacar uma ansiedade fora do normal. O desespero é tão grande que a pessoa precisa de uma atitude drástica para dar fim nele.

Foi um pouco o que aconteceu com Ana Carolina. Ela foi apresentada à prática do cutting por um colega. "Como eu, ele tinha problemas de depressão e disse que aquilo ajudava. Quis experimentar", explica.

Depois que ela perdeu um grande amigo em acidente de carro, os cortes se tornaram constantes. Estudos mostram que a maioria das pessoas que se cortam não conseguem parar.

Hoje com 24 anos, a mineira Daniela é borderline e começou a se cortar há 6 anos. Quando não se mutilava, adotava outros comportamentos destrutivos como ginástica compulsiva e já apresentou quadros de anorexia. "O pior é que muitos te olham como louca e não sabe que estamos passando por um profundo sofrimento psicológico."

Como curar

O melhor remédio é a compreensão. Todas as garotas que entrevistamos para essa matéria afirmam que o que mais ajudou a parar de se cortar foi conhecer exemplos de pessoas com o mesmo problema. "Quando você vê uma pessoa lutando, os estímulos para enfrentar esse problema são muito maiores", explica Daniela.

"Muitas vezes eu controlei a minha vontade de me cortar por que alguma amiga me disse: força, vamos superar isso", diz Natália.

Para Tatiana, falar sobre as terapias na comunidade faz "cair a ficha" para muitos participantes de que buscar ajuda é importante.

O tratamento e o apoio têm feito várias dessas meninas abandonarem os cortes. Tatiana já não se corta há 9 meses. No caso de Marcella, o corpo fala. "Antes, só tinha feridas abertas. A medida que os cortes viram cicatrizes, é sinal de que estou superando meus problemas."

* Todos os nomes foram alterados para proteger a identidade das garotas.