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11/2007

Meninas que beijam meninas

Por por Marina Fuentes às 12:04

Um belo dia, ou uma bela noite, elas vão lá e se beijam, dão risada, se divertem, e depois cada uma vai para seu lado, ou mesmo continuam juntas na balada como se nada tivesse acontecido. A demonstração moderninha de afeto entre meninas é tão freqüente que deixou de ser escondida ou vista apenas em lugares de público GLS. Agora as garotas dão verdadeiros malhos no meio das pistas de clubes de rock e de música eletrônica, entre as mesinhas dos bares e até nas faculdades, sem dar a mínima para quem está vendo. Ou ainda aproveitam e se exibem para os garotos chegados em ver duas meninas juntas. A música do Capital Inicial, que fala da Mariana que gostava de beijar meninas de vez em quando, é muito verdade.

Deu vontade
"É uma coisa de momento. Você está lá dançando com a amiga e quando percebe o beijo já está rolando", explica Nana, que tem 19 anos e estuda comunicação. Nana diz que gosta mesmo é de meninos, mas acha legal poder ficar com outras meninas, mesmo sem saber direito o porquê. "Não sei por que fico com outras garotas. Acho que tem um lado de querer se afirmar, de se mostrar livre, mas de se descobrir também."

Bruna, 16 anos, morria de curiosidade de saber como era beijar outra menina. Uma noite, em um show, uma amiga que é lésbica estava lá dando sopa, e ela não teve dúvidas: chegou junto. "Foi de brincadeira, a gente estava no meio do show e acabou rolando", lembra ela, que continuou beijando outras amigas em uma ou outra balada até começar a namorar um menino. "Agora não beijo mais ninguém fora do relacionamento. Independente de ser homem ou mulher, eu acho que é traição."

Flora, 18 anos, estudou em um colégio de São Paulo em que a maioria das garotas se beija ou já se beijou na boca. Na balada, elas têm até um jogo do beijo baseado no famoso "dois ou um". "A gente mostra os dedos. Depois todas que tiraram o mesmo número se beija", explica.

Sou lésbica?
O que incomoda as garotas que beijam garotas é o julgamento das outras pessoas que não entendem o comportamento como mera curtição. Em uma enquete no site da CAPRICHO muitas leitoras disseram que beijar outra menina é coisa de lésbica ou bissexual que não tem coragem de se assumir mas 65% das que responderam à pesquisa afirmaram conhecer alguma menina que já beijou uma outra. "Eu não me considero bissexual, acho que sou uma garota hetero que passou por outras experiências", discorda Nana. Bruna já ficou encanada durante um tempo com a dúvida "será que sou lésbica? Será que sou bi?" Depois, relaxou. "Sou muito nova para me rotular", diz.

Para Bruna, o pior de beijar outra garota em locais públicos é ouvir "um monte de absurdo". "Detesto quando falam que estou beijando outra garota por falta de homem, não tem nada a ver", conta, indignada.

Selinho
Nem sempre as amigas menos liberadas conseguem entender a diversão. "Um dia cheguei na escola e dei um selinho numa amiga. Uma garota da minha classe fez cara feia e disse que não precisava ver aquilo. Na hora do intervalo, fomos até um pátio afastado e demos um malho na frente dela, só para causar", conta Flora rindo. Duas amigas de infância dela também fizeram cara de nojo para a novidade. "Mas uma delas acabou beijando outra menina um ano depois", diverte-se.

Bruna prefere esconder das pessoas que possam não entender. "Por mim eu falava numa boa, sou bem resolvida, mas os outros não são. Se todo mundo soubesse, ia ficar falando, minha família ia ficar mal com uma coisa que não tem nada demais. O negócio é negar até o fim", diz.

Moda?
O comentadíssimo beijo entre Britney Spears, Madonna e Aguilera no VMA da MTV só comprova que o beijo entre duas mulheres é uma moda. Tudo começou com um ou outro editorial de moda com o apelo "lesbian chic" em que duas modelos insinuavam que havia algo mais entre elas no começo dos anos 90. A coisa foi crescendo e é comprovadamente um marketing eficaz. Um grande exemplo é o suposto falso namoro entre as integrantes da banda t.A.T.u. Após meses em turnê e nas paradas européias, foi dito que o relacionamento entre Lena e Yulia não passava de um golpe comercial. Se for mesmo verdade, agora é tarde: milhares de meninas no mundo todo se identificaram com a dupla russa.

E os meninos nessa?
A maioria dos garotos parece achar o máximo a nova onda do beijo na boca entre as meninas. "Tem carinha que se empolga muito do nosso lado. Eu fico revoltada com eles", conta Bruna, irada.

De fato, muitos garotos são fãs do beijo "a duas" e não ligam de ficar com uma menina que já passou por essa experiência. "Eu acho que não tem coisa mais legal do que ver mulher beijando mulher. Não deixaria de ficar com uma menina que eu estivesse a fim só porque ela beijou outra", diz Bruno Franco, de 19 anos. Se o tal beijo fosse com a namorada, o entusiasmo dos garotos não seria tão unânime. "Eu acho que não ficaria com ciúmes. Só se ela me trocasse de vez", afirma Bruno. Já o namorado de Flora não acha graça nenhuma nas beijocas dela e das amigas. "Ele acha que é traição, morre de ciúmes. Eu acabei dando uns beijinhos em menina muito minha amiga. Ele não gostou, mas acabou me perdoando", explica.

Quem beija outra menina é lésbica?
Para o professor de psicologia da adolescência da PUC, Miguel Perosa, o simples fato de a menina ter beijado uma amiga não determina alguma tendência homossexual ou bissexual. Segundo ele, em muitos casos, o beijo é uma forma de auto-afirmação e de afirmação com a turma. "Essa onda de meninas beijarem as amigas não me parece um comportamento sexual e sim social. É mais para mostrar o quanto elas são liberadas, sem preconceitos. É um desafio para quem faz", diz ele.

Agora, é lógico que um beijo de língua é um contato físico forte. "Se a garota já passou da puberdade, é claro que isso pode mexer com a sexualidade", explica o psicólogo. Isso de mexer com a sexualidade não significa que beijar a amiga vai abrir a porta para o homossexualismo, mas a menina deve saber e se questionar por que decidiu beijar a amiga. "Se o beijo vai despertar uma homossexualidade vai depender de uma série de outras coisas, como a relação da garota com o sexo oposto, por exemplo". Outro ponto importante é saber se o beijo rolou por livre e espontânea vontade, e não apenas para se sentir "in". Se beijar só para imitar as amigas, a garota tem grandes chances de se arrepender. "É preciso que cada uma saiba o preço que está disposto a pagar para participar de um grupo", alerta o psicólogo.