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A verdade por trás do Saiato, protesto em que alunos foram de saia para a escola

Integrantes do Coletivo LGBT, que organizou o Saiato, explicam que não existe nenhuma aluna transgênero no colégio.

Por Isabella Otto Atualizado em 17 ago 2016, 14h38 - Publicado em 18 set 2014, 15h30

Nessa quinta-feira, 11, vimos que diversos sites reproduziram a matéria de que alguns alunos do colégio Pedro II foram de saia para a escola em solidariedade a uma aluna transgênero . A história foi muito compartilhada nas redes sociais e, é claro, não poderia deixá-la passar em branco.

Logo depois que li a notícia, tentei entrar em contato com a aluna trans. Foi quando conversei com um ex-aluno do Pedro II que, coincidentemente, já tinha em meu Facebook. Ele me passou o contato de uma estudante que, por sua vez, contou-me que a história que estava circulando pela internet não era 100% verídica . Foi através dela que cheguei à página Retrato Colorido, administrada pelos alunos que fazem parte do Coletivo LGBT do colégio, localizado no bairro São Cristóvão, na zona norte do Rio de Janeiro.

“Ninguém se dá ao trabalho de saber o que aconteceu(…) Já mudaram o nome do protesto para Saiaço, Saiote e até para Operação Vou de Saia (…) Parece telefone sem fio”, desabafa Darlan Oliveira, 20 anos, que cursa atualmente o segundo ano no Pedro II. Darlan é o fundador do Coletivo LGBT, uma organização independente de alunos que criou o Saiato em parceria com o grêmio Filhos da Pública, do colégio Pedro II.

Além de Darlan, que teve a ideia de fundar o Coletivo após ver duas meninas sendo vítimas de preconceito após se beijarem em uma festa da escola, Maitê Haical, 17 anos, estudante do segundo ano do Ensino Médio, e Nina Neder de Lima, 15 anos, estudante do primeiro ano, também são responsáveis pela parte administrativa do Coletivo LGBT. Eles toparam conversar com a CAPRICHO para explicar exatamente o que aconteceu no dia 2 de setembro, data em que o Saiato aconteceu.

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Não há um transgênero no Pedro II

“Não existe nenhuma aluna trans como foi noticiado. Ficamos muito desconfortáveis com as matérias que lemos na internet. Eles transformaram o movimento em prol da liberdade de expressão em algo sensacionalista, do tipo: ‘Pôlemica! Aluna transgênero vai de saia para a escola'”, conta Maitê.

O real intuito do protesto

Nina Neder explica que a ideia do Saiato surgiu logo depois que um colega, identificado como transgênero nas matérias, apareceu na escola de saia. Mas, diferentemente do que estavam reproduzindo, ele não foi barrado na porta de entrada e repreenderam-no por estar usando o uniforme “das meninas”, não por ele ser trans. “O Saiato não foi para apoiar o apenas o aluno, mas para protestar contra os padrões impostos pela sociedade de que existe roupa de menino e de menina ( você pode se interessar por esse texto ). E se um cara quiser usar saia? Vão proibi-lo por qual motivo? Não é a mesma coisa se proibíssemos uma mulher de usar calça comprida?”, questiona Nina.

Aluno não-binário

Darlan, Maitê e Nina contam que uma pessoa não-binária é diferente de uma transgênero. “Nosso colega tem total consciência de que é homem, no sentido biológico da palavra, mas a sua mentalidade não se encaixa em nenhum dos dois gêneros. Ele colocou a saia porque também se sente confortável assim, mas não significa que queira fazer uma cirurgia de mudança de sexo, pois não se considera homem na essência”, explica Darlan.

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Acima, um gráfico publicado na pesquisa The Genderbread Person, que explica que o binarismo (não se identificar nem pelo sexo masculino nem pelo feminino) é uma questão de identidade, trabalhada na mente da pessoa, enquanto a transgenia é uma questão biológica. Um não-binário não visa a mudança de sexo, como um transgênero, porque, simplesmente, não se identifica com nenhum dos dois gêneros.

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