Quem não tem uma amiga que vive dizendo que está gorda? Ao contrário do que todos pensam, nem toda menina é viciada em dieta. A CAPRICHO conversou com garotas gordinhas que assumiram seus pesos e são felizes assim.
Atire a primeira pedra quem nunca olhou atravessado ou soltou alguma piadinha ao ver um casal formado por alguma menina mais gordinha e um cara magro, saradão ou simplesmente normal. “O amor é cego”, é o que se costuma ouvir nessas horas.
Mas o que muita gente não imagina é que, enquanto a grande maioria adota padrões de beleza quase sempre inatingíveis (e tenta desesperadamente perder alguns quilinhos para entrar na tão sonhada calça 36 e, só assim, conquistar alguém para chamar de seu), há quem não dê a mínima para isso.

Quem aí nunca ouviu falar de Beth Ditto? A vocalista do The Gossip é gorda (ela diz pesar 95 kg), usa roupas justas e curtas, já posou nua na capa de uma das revistas mais pop da Inglaterra e não esconde sua homossexualidade de ninguém. Eleita a artista mais cool de 2006 pela MNE, a bíblia do rock (neste mesmo ano, Lovefoxxx, do Cansei de ser sexy, ficou em 10º lugar), Beth contraria todos os chamados padrões de beleza e já é considerada o ícone do “fat proud”, movimento das gordinhas orgulhosas de suas fartas medidas.
Fora dos palcos, a estudante Natália Moneda, 18, é um exemplo disso. Depois de passar da fase das mil dietas malucas e simpatias para emagrecer, ela relaxou e resolveu se libertar dos números da balança: “Percebi que, cheinha ou não, deveria gostar de mim de qualquer jeito. Então desencanei”.
Quando conheceu seu atual namorado, pela internet, o peso não foi um empecilho para que a paixão surgisse. Hoje, eles conversam sobre o assunto sem neuras e sempre brincam com a fofura um do outro (ele também é gordinho). “Quem disse que só existe beleza na magreza? Marilyn Monroe era linda e não era um palito!”, disse Natalia.
O fato de ser gordinha também não impediu Gabriela Pagliuca, 20, de tomar a iniciativa na paquera. Ela viu o gato na balada, gostou, adicionou no orkut e deu início às investidas via MSN. Quando o encontro real aconteceu, ele já estava encantado por ela e as gordurinhas a mais não fizeram diferença. “Ele brinca que fui uma propaganda enganosa, pois imaginava que eu era mais magra. Mas isso não mudou o que já estava sentindo por mim”, contou Gabi. A brincadeira, no entanto, é levada numa boa. Hoje, um ano de namoro firme depois, é ele que dá dicas a Gabi de como ficar mais bonita, valorizando as formas curvilíneas do seu corpo.
Mas nem sempre ir para a balada é um programa simples quando os quilinhos a mais incomodam. Acostumada a ser xingada de “gorda, baleia, saco de areia” na época de escola, Marcela Nobre, 20, aprendeu a se manter distante das festas em companhia das amigas magras por medo de sobrar. Foi seu primeiro namorado que lhe ajudou a enxergar que gostar de alguém de verdade independe de vestir tamanho P ou GG: “Ele me elogiava muito, dizia que eu era inteligente, tinha uma cabeça mil e não precisava ser magra para as pessoas gostarem de mim”.
Os elogios, no entanto, não livraram Marcela de continuar mantendo uma relação complicada com seu peso. Apesar de não se grilar tanto quanto antes, ainda lhe incomoda o fato de pesar mais do que a maioria de suas amigas. É nessas horas que entra em ação o atual namorado de Marcela, o estudante Cochise César. No relacionamento, ele é o lado desencanado, que pouco se importa com o que mostra o marcador da balança.
Para ele, o que atrai de verdade é algo que está além do que os olhos conseguem ver; mais do que um visual magrinho ou cheinho, vale é se encantar pelo que está por dentro. “Quando me apaixono, é por uma pessoa. Não seu rosto ou corpo isolados. Amor não tem a ver com levar uma figura bonita para a balada, mas ter alguém que caiba nos nossos sonhos”, revelou.
O estudante Victor Hugo Araújo, 19, discorda de Cochise: para ele, o corpo importa, sim. E é das cheinhas que ele gosta mais. Quando sua namorada, Aretha Guimarães, 18, que vive controlando o peso, resolveu fazer mais uma dieta, Victor ficou bravo. “Ele diz que acha horrível mulher magricela com o osso aparecendo. Trouxe logo um monte de chocolate de soja (que eu amo) e dispôs-se a cozinhar”, contou Aretha.
Apesar de opiniões como essas ainda serem exceções e do preconceito gritante que existe em qualquer idade, o movimento “fat proud” (algo como “orgulho de ser gordo”) tem ganhado adeptos em todo o mundo. No Brasil, bastar dar uma navegada pelo Orkut para encontrar mais de mil comunidades que levantam a bandeira das pessoas cheinhas como a “Sou gordinha e muito gostosa”, com quase 20 mil membros.
Vale ressaltar que nenhuma gordinha, orgulhosa ou não, sai dizendo por aí que faz de tudo para engordar sempre mais e mais. Até porque, claro, com a saúde ninguém pode vacilar. Mas o legal disso tudo é saber que há muita gente no mundo que não vive escrava da balança ou cheia de neuras que se multiplicam a cada pequena caloria ingerida e convivem numa boa com seus espelhos e curvas. E numa época em que ter ossinhos de fora parece ser mais importante até mesmo do que ter um papo interessante, é sempre bom relembrar que não existe ninguém fora do peso ideal, porque peso ideal definitivamente não existe. Já dizia Beth Ditto.
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